O ABRAÇO QUE FALTA

Há 14 meses separadas por 4 mil quilômetros de distância, mãe e filhas vão se reencontrar.

Em busca de uma vida tranquila e sem ameaças, Marisabel Hernandez Villada, 25 anos, encontrou o Brasil. Há 14 meses, ela vive com sua família em Venâncio Aires, ou melhor, parte dela. Antes mesmo de se refugiar no Brasil, sua família não estava completa. Duas filhas não viviam com ela, separadas pela Lei do seu país de origem, a Colômbia. Faz três anos que Marisabel não acolhe em um abraço suas meninas – Mehira Daniela, 8 anos, e Laura Cristina, 6 anos.

As lágrimas, que não conseguiu controlar durante a entrevista realizada na última sexta-feira, 6, refletem a saudade que não cabe no peito. Afinal, são três anos sem poder tocar as ‘niñas’ que carregara no ventre, nove meses cada. Talvez, foram nas gestações os únicos momentos que pôde curtir as pequenas, sem intrusos. Intrusos, talvez seja a palavra que defina as pessoas que Marisabel deixou para trás ao cruzar a fronteira com o Brasil. Pessoas que a maltratavam e juravam que não veria suas meninas novamente. No entanto, o futuro é incerto.

No ano passado, em abril, recebeu uma ligação da Colômbia dizendo que teria Mehira e Laura de volta. A esperança de poder tê-las novamente esbarrava na possibilidade de ser uma ‘armadilha’. ‘Eu teria que ir até a fronteira pegá-las, mas tinha medo do que poderiam fazer comigo’, conta. Para seu ex-marido, um professor, que também fazia parte de um grupo armado, ela morava no Amazonas. Era uma maneira de se sentir segura.

Na Colômbia

Ao lado do ex-marido, que também era diretor de uma escola, Marisabel sofreu com a violência doméstica. ‘Quando bebia, me batia’, conta. A última vez não foi no silêncio da casa do casal, sem testemunhas. Foi publicamente, diante de pessoas conhecidas e desconhecidas. ‘Naquela noite tive coragem de me separar’, lembra.

Como ela “deixou” a casa, e ele tinha uma renda fixa além de um bom emprego, a guarda ficou com o pai, que para muitos era um exemplo. Ele, mesmo com outra mulher e construindo uma nova família, insistia em não deixar Marisabel ver as pequenas. ‘Ele dizia que nunca deixaria vê-las enquanto estivesse vivo’. O sofrimento era amenizado com a ajuda da ex-sogra e da ex-cunhada, que ajudavam mãe e filhas a se encontrar.

As ameaças passaram a ser mais frequentes depois da colombiana firmar um novo relacionamento. A solução? Fugir, mas com a esperança de buscar Mehira e Laura. Com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), conhecido como a Agência da ONU para Refugiados, a família de Marisabel conseguiu permissão para se refugiar no Equador. Primeiro foram os pais, Fany Villada e Jorge Hernandez, e os irmão Faiber Andrés Villada Carjaval, Nelson Enrique Hernandez, Lina Yurani Hernandez e a pequena Maira Valentina Hernandez. Meses depois, Marisabel e o marido, Abeiro Cuellar, foram ao país latino. Um ano depois, o Brasil abriu as portas para a família.

Em outubro de 2013, Fany, Jorge e a pequena Maira, chegaram em Venâncio Aires. Depois, em dezembro do mesmo ano, foi a vez de Marisabel, grávida de Maria Del Carmen, e Abeiro, aterrizarem na terra do chimarrão. Aqui estão há 14 meses. A procura de um emprego fixo, faz “bicos” como manicure, em casa, onde ajuda a cuidar do pai, que está com câncer, e da irmã mais nova, de seis anos, que tem problemas nas pernas. Já o marido trabalha como pedreiro e a mãe como costureira.

Reencontro

Quando chegou em Venâncio, Marisabel recorreu a Defensoria Pública para ver o que poderia ser feito para conseguir a guarda das meninas. Mas, em maio foi surpreendida com a notícia de que o ex-marido tinha sido morto. Quem o matou? Até hoje não se sabe. ‘Tinha muitas pessoas que não gostavam dele, que possam estar envolvidas’, ressalta. Atualmente, as meninas estão sob responsabilidade da avó, Nancy Ortiz Quinteiro, que tem câncer. Sem condições, ela decidiu devolver a guarda das netas para a mãe.

Abraçar suas meninas está cada vez mais próximo. Nesta semana, Marisabel deve viajar para São Paulo e iniciar os procedimentos de autorização para a vinda das meninas. Antes disso, um advogado vai representá-la na audiência para a transferência da tutela, lá na cidade de origem, em Puerto Leguizamo, Putumayo. Se tudo ocorrer bem, o reencontro de mãe e filhas deve ocorrer em março, mais tardar, abril.

Giuliane Silva

(Folha do Mate – 10/02/2015)



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