JOGO DE EMPURRA

Caso se organize para acolher os imigrantes, o Brasil contará com uma ajuda extra para impulsionar o desenvolvimento.

O afluxo de imigrantes haitianos ao Brasil já existe há quase quatro anos, tempo suficiente para preparar resposta adequada ao fenômeno. Tem predominado, entretanto, o tradicional jogo de empurra entre as esferas governamentais.

Em prática recorrente, o governo do Acre enviou, nos últimos dias, cerca de mil imigrantes ilegais a São Paulo. Não notificou o prefeito Fernando Haddad nem consultou o governo federal, embora sejam todas administrações do PT.

Daí resultou, mais uma vez, a superlotação da paróquia Nossa Senhora da Paz, na região central. Improvisado como ponto de acolhimento, o local não tem estrutura suficiente para receber tantas pessoas, mas se tornou imprescindível diante da inação do poder público na cidade mais rica do Brasil.

Conforme mostrou reportagem desta Folha, os viajantes recém-chegados dormem no chão e, para tomar banho, utilizam o mictório do saguão da igreja.

O governador do Acre, Tião Viana, procurou justificar a iniciativa afirmando que seu Estado, porta de entrada para os migrantes, não tem condições de amparar o novo contingente populacional, que de resto se dirigiria naturalmente às cidades do centro-sul do país.

Já o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, negociou a suspensão das viagens e prometeu medidas tanto para melhorar a recepção dos haitianos como para coibir a ação de quadrilhas especializadas em trazê-los por rotas arriscadas.

Nada disso é novo. Os mesmos itens constaram de acordo assinado há um ano entre o Ministério da Justiça, o governo paulista e a prefeitura paulistana. O pacto incluía ainda a coordenação do trajeto Acre-São Paulo. Como se viu nesta semana, não houve avanços.

Originários do país mais pobre das Américas, os haitianos vieram para ficar. Dos 46.261 que entraram no Brasil de 2010 a 2014, 39.763 permaneceram no país. Uma comunidade tão expressiva gera um fluxo contínuo de novos imigrantes, sobretudo familiares e amigos.

Assim, seria um equívoco restringir a questão ao aspecto humanitário. Historicamente, a economia brasileira se beneficiou de fluxos de estrangeiros. Dentro de poucas décadas, o envelhecimento da população fará a força de trabalho diminuir. Caso se organize para acolher os imigrantes, o Brasil contará com uma ajuda extra para impulsionar o desenvolvimento.

(Folha de S. Paulo – 23/05/2015)



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