IMAGENS DA DESORDEM

Estados e União continuam sem acordo sobre o acolhimento aos imigrantes haitianos. 

Os imigrantes do Haiti entram normalmente no Brasil pela cidade de Brasileia, no Acre. Alguns ficam na região, mas outros seguem para outros Estados do país, principalmente São Paulo.

As autoridades tanto do Acre quanto de São Paulo, no entanto, alegam que não têm mais infraestrutura para receber os imigrantes, o que tem gerado um desentendimento entre os Governos de ambos os Estados.

Em 2014 foi feito um acordo entre o Governo Federal e as administrações dos dois Estados, com regras para o transporte e acolhimento de haitianos. Em março deste ano, o envio de imigrantes do Acre para outras capitais do país foi interrompido por causa de uma dívida de R$ 3 milhões do Governo acreano com empresas de transporte. Após a paralisação, por dois meses, do envio de haitianos para a capital paulista, o Governo do Acre fretou 8 ônibus e, sem aviso prévio à administração de São Paulo, enviou de uma só vez cerca de 500 imigrantes haitianos, a partir do dia 14. Os primeiros ônibus chegaram no domingo, 17 de maio. Estão previstas ainda 21 viagens de Rio Branco para cidades do Sul e Sudeste, transportando 945 imigrantes haitianos. Os ônibus deviam ser fretados com recursos do Ministério da Justiça.

Em São Paulo, o principal ponto de apoio dos imigrantes haitianos tem sido a Igreja de Nossa Senhora da Paz, localizada no Bairro da Liberdade, a qual atua através do projeto Missão Paz, um trabalho desenvolvido por missionários de São Carlos. A obra realiza ações desde 1930 junto aos migrantes, imigrantes e refugiados, com atendimento social, educacional e de saúde.

De acordo com um dos responsáveis pela Missão Paz, o Padre Paolo Parise, o local também já está sobrecarregado, e desde outubro do ano passado vem acolhendo os imigrantes em acomodações improvisadas, sem contar com o apoio dos Governos Federal e do Estado de São Paulo. “Nós não temos convênios com Estado, Prefeitura ou Governo Federal”, diz o Padre Paolo. “O que estamos recebendo atualmente é uma ajuda pontual de fornecimento de marmitas com alimentação por parte da Prefeitura. O restante são doações, a ajuda de voluntários que nos dão apoio.”

Paolo Parise explica que os imigrantes haitianos chegam ao Brasil com a ilusão de que o país vai ser a salvação da situação de extrema pobreza em que se encontram no Haiti. Então, quando chegam ao Brasil percebem que a realidade é bem diferente do que esperavam. “Eles vêm sempre na esperança de crescer na vida. Têm um sonho maior do que a realidade, pois acham que o Brasil tem muito mais oportunidades de emprego do que concretamente o país oferece. Eles saem de uma situação de grande pobreza e acreditam que logo vão conseguir um emprego, mas isso não acontece e a decepção é enorme.”

Enquanto não há uma solução governamental, o Padre Paolo adapta os espaços para acomodar atualmente cerca de 150 pessoas dentro da área social e de saúde da paróquia.

Ainda de acordo com o religioso, quando chegavam a São Paulo os imigrantes tentavam uma vaga no mercado de trabalho dentro da área de construção civil, mas agora, com a crise, o foco mudou para o setor de serviços. “Antigamente era construção civil, mas com as poucas ofertas atuais na área, eles seguem para as áreas de limpeza, em restaurantes como garçons ou na cozinha, algumas mulheres trabalham como babás, outras como cuidadoras de idosos, normalmente na área de serviços.”

Uma vez estabelecidos em São Paulo, muitos imigrantes informam que já pensam em seguir para Santa Catarina, atraídos por oportunidades em frigoríficos.

O Padre Paolo Parise explica que a dificuldade com o idioma e a baixa qualificação dos imigrantes dificultam ainda mais uma oportunidade de emprego no Brasil. “Segundo estudos que fizemos, 40% deles têm formação média, alguns até possuem qualificações, porém como não têm empregos no Haiti eles estão vindo para o Brasil. Quanto à língua, nós oferecemos cursos de português dados por voluntários, e isso ajuda muito a compreender de forma mais rápida o idioma.”

O religioso scalabriniano espera que os governantes consigam esquecer desavenças partidárias e comecem a pensar no bem-estar dos imigrantes. “Eu espero que as pessoas que ocupam cargos públicos, políticos de nível municipal, estadual e federal, consigam pensar no bem das pessoas e deixem de lado os interesses partidários. Que coloquem as pessoas em primeiro lugar. Pensar em como acolher bem esses imigrantes é fundamental. Pensar em casas de acolhidas, mecanismos interculturais de inserção, ajuda para encontrarem empregos, em defender seus direitos, além do apoio de empresários para oferecer oportunidades.”

Diante do conflito entre os Governos dos Estados do Acre e de São Paulo, na terça-feira (19/05), o Ministério da Justiça anunciou um acordo com o Governo do Acre, suspendendo os envios de imigrantes haitianos para a cidade de São Paulo, até que as ações referentes à questão estejam coordenadas entre todos os órgãos do Governo Federal, Estados e municípios.

Geórgia Cristhine

(Sputnikc News – 20/05/2015)



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