O EMERGENCIAL QUE VIROU ORDINÁRIO

União ausente, Estados brigando e imigrantes abandonados à própria sorte.

A igreja que recebe haitianos no Centro de São Paulo está “desde outubro” em “emergência”, disse o padre responsável pelo templo, Paolo Parise. Desde o início da semana, a Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Rua do Glicério, recebeu, sem aviso, cerca de 130 imigrantes do Haiti vindos do Acre.

Parise acolhe os haitianos que chegam a São Paulo em dois ambientes: um espaço com 110 vagas e outro com 140 lugares. Quase 300 pessoas estão nos locais. “De um lado, estamos fazendo a acolhida. Do outro, estamos dialogando com a Secretaria de Direitos Humanos e as várias instituições para tentar sensibilizá-las a fazer o seu papel, que é abrir um espaço de emergência para esse haitianos”, disse o padre ao G1. “Desde de outubro do ano passado estamos em situação de emergência.”

Ao receber a informação de que os haitianos chegariam à cidade de São Paulo, a Prefeitura se mostrou surpresa. “É difícil receber estes haitianos sem termos 15 a 20 dias de antecedência para nos prepararmos. São Paulo recebe bem os imigrantes, mas precisa de uma antecedência para planejar, até para conforto dos imigrantes”, disse o prefeito Fernando Haddad em entrevista à rádio CBN.

Em resposta, o Ministério da Justiça anunciou na noite de terça-feira 19 um acordo com o governo do Acre e a Prefeitura paulistana que suspende o envio de imigrantes haitianos que estão naquele estado para São Paulo.

A assessoria de imprensa do Ministério da Justiça informou que a pasta fez uma videoconferência na tarde desta terça-feira com representantes do governo do Acre e da prefeitura de São Paulo para selar o acordo.

‘Sem polêmica’

Em entrevista ao G1, o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão, afirmou que entrou em contato com o secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, na tarde desta terça.

“Estamos procurando resolver o problema sem polêmica. As informações que o governo de São Paulo ou de qualquer outro estado quiser, nós fornecemos sem problemas. Por outro lado, não procede a informação de que estamos enviado 1 mil imigrantes para São Paulo. Haviam 1 mil imigrantes no abrigo, dentre os quais, um número que não chega a metade estava se dirigindo para São Paulo, os demais foram para outros estados”, afirmou Mourão.

O Ministério da Justiça informou que o “governo federal tem desenvolvido ações que envolvem diversos ministérios para apoiar a integração dos haitianos e outros imigrantes no país”.

A pasta destacou a assinatura de um convênio com o estado do Acre no valor de R$ 1,02 milhão para desconcentrar os destinos dos imigrantes, conforme padrões de demanda de emprego do mercado de trabalho. O ministério negou que o fluxo de haitianos tenha sido direcionado para a capital paulista pelo Ministério da Justiça.

Desde o terremoto que devastou o Haiti em 2010, imigrantes do país têm viajado durante dias e, muitas vezes em condições degradantes, para buscar novas oportunidades de emprego no Brasil.

A maior parte deles entra no país pela cidade de Brasiléia, no Acre – estado que também não tem infraestrutura para recebê-los.

Alguns dos imigrantes também acabam buscando trabalho na República Dominicana e na Colômbia.

Chegada a São Paulo

O G1 foi na tarde desta terça-feira na Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Rua do Glicério, região central de São Paulo, local que virou ponto de referência para os haitianos que chegam na cidade.

Ali estavam vários haitianos que tinham acabado de chegar à capital paulista.

Com R$ 6 mil, o haitiano Obya Jobsillie, de 41 anos, conseguiu ajeitar sua vinda ao Brasil. Foram nove dias de viagem, intercalando ônibus e avião, passando por Santo Domingo, Colômbia e Equador até chegar ao Brasil, pelo Acre.

Quase dez dias depois, ele chegou na noite desta segunda (18/05) em São Paulo, junto de mais de 80 imigrantes. “Quero um emprego. Vim para trabalhar e voltar melhor de vida”, afirma Jobsillie.

O padre Paolo Parise é responsável pelo local e está negociando ajuda com a prefeitura e governos. O espaço está sobrecarregado e, como ajuda, recebe só 70 marmitas da prefeitura.

“Eles [haitianos] vêm sempre na esperança de crescer na vida. A informação que eles recebem é de que temos muitos empregos”, diz o padre. Ele afirma ainda que os imigrantes não sabem da atual crise econômica e que a maior parte deles ainda sonha em trabalhar na construção civil.

Enquanto não há resolução, o padre está adaptando o espaço e acomodando as pessoas no chão de um galpão da paróquia. “Estou conversando com a prefeitura e o governo. Tento fazer o melhor, mas isso não é só nosso papel”, explica Parise.

Carolina Dantas

(G1 – 20/05/2015)

 



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