O PORTO ALEGRE

Imigrantes do Haiti, Egito e Alemanha trocam lembranças e experiências.

Quando Ketty Nahum, 69, encontra Yonelson Vixamar, 28, pela primeira vez, ainda no carro, pergunta sua nacionalidade e começa a falar em francês. Com sotaque carregado, ele veio do Haiti no final de 2013 e ainda sente dificuldade ao falar em português. Ela, que emigrou do Egito em 1957 devido à Guerra de Suez, sabe muito bem o que é chegar a uma nação desconhecida e ter que aprender a falar outra língua.

Do bairro Rubem Berta, onde Yonelson mora, o carro se desloca ao outro lado de Porto Alegre. Em Ipanema, busca Bárbara Sybille Fischinger, 77, alemã que veio visitar a irmã no Brasil em 1965 e, três anos depois, decidiu voltar para ficar.

O trio de imigrantes foi convidado por Zero Hora para falar sobre sua terra natal, a vinda e, principalmente, como foram recebidos no Brasil. Assim como Yonelson, milhares de outros haitianos estão abandonando o país de origem na esperança de fugir da pobreza. Mas a acolhida que eles estão recebendo é a mesma que outros imigrantes receberam no passado? Foi no café do Iberê Camargo, um dos pontos turísticos de Porto Alegre, que esses estrangeiros tão diferentes compararam suas experiências.

— Esta cidade tem um monte de gente bem racista — conta Yonelson, ainda durante o deslocamento até o local marcado para o bate-papo entre o trio. Ele relata um episódio em que uma pessoa branca, sentada no ônibus, levantou-se após ele sentar ao lado. A mesma pessoa trocou de lugar uma segunda vez, após outro haitiano sentar ao lado dela.

Yonelson viu de perto a tragédia em 2010, quando Porto Príncipe foi devastada por um terremoto. Se antes a vida já era difícil — o Índice de Desenvolvimento Humano do Haiti é o pior das Américas —, ficou ainda pior.

Durante dois anos, ele cursou a faculdade de Direito. Teve de largar a graduação porque a família não tinha dinheiro. Único filho homem, conseguiu um visto para o Brasil e deixou mãe, pai e sete irmãs no país na esperança de reconstruir sua vida. Escolheu Porto Alegre porque dois primos já moravam aqui.

Sentada ao lado dos outros dois imigrantes, no ponto de encontro, Ketty, que é judia, também fala sobre preconceito:

— No Egito, principalmente na época da guerra, nós éramos apontados na rua como judeus, mas chegar aqui, ao Brasil, raras vezes eu pude sentir algum preconceito.

Há seis décadas, ela viu o repúdio aos judeus no Egito se intensificar com o aumento nas tensões entre o país e Israel, França e Grã-Bretanha, por conta da disputa pelo Canal de Suez.

Se antes Ketty podia frequentar a escola, clube e demais locais, com a perseguição teve de se esconder com os pais e quatro irmãos em casa. Durante um ano, ficaram abrigados. O que fazer? A resposta veio do avô paterno, Benjamim, que tinha um primo em São Paulo e, por meio de cartas, falava bem do país.

— Quando nós chegamos aqui no Aeroporto Salgado Filho, havia uns cinco casais da comunidade judaica que nos receberam com flores e com sanduíches, e meu pai beijou a mão dessas pessoas assim como ele beijou a terra brasileira — recorda Ketty.

Ela desembarcou no porto de Santos em 6 de novembro de 1957. A família foi recebida pela Hias (Hebrew Immigrant Aid Society), que sugeriu Porto Alegre como destino — São Paulo já tinha muitos imigrantes judeus — e ajudou a família a se estabelecer na cidade. Ela e seus irmãos inclusive ganharam bolsas de estudo.

Após escutar os relatos de Yonelson e Ketty, Bárbara, que é formada em fisioterapia, fala sobre sua vinda. Ao contrário deles, ela não relata episódios de preconceito nem na Alemanha nem no Brasil.

Bárbara fez trabalhos voluntários com crianças com paralisia ao visitar sua irmã no Rio Grande do Sul. Após receber pedidos dos pais para trabalhar novamente aqui, decidiu se estabelecer definitivamente no país.

Uma das passagens mais marcantes é de quando palestrou em Caxias do Sul sobre seu trabalho como fisioterapeuta. Pouco falava de português. A solução encontrada foi beber um pouco:

— Eu disse para uma das gurias: me dá um copo de cachaça — conta sorrindo que, desinibida, conseguiu falar.

Tanto ela quanto Ketty tiveram o apoio de familiares e grupos de compatriotas para se sentir bem acolhidas. Yonelson não tem o mesmo. Ele quer mandar dinheiro para a família, mas com o que ganha, cerca de um salário mínimo no seu trabalho fazendo limpeza, pouco sobra. Três de suas irmãs já conseguiram o visto para vir ao Brasil, porém precisam de dinheiro para isso. Até mesmo a alta do dólar é prejudicial, pois o dinheiro que pode enviar se dilui ao converter para a moeda americana.

O preconceito que ele enfrenta hoje já foi, em diferentes escalas, sentido por outros povos.

Conforme conta o professor de história da PUCRS René Gertz, no século 19 o governo local tinha uma política de incentivo à vinda de imigrantes para povoar as terras, produzir alimentos e “branquear” a população. Até a primeira metade do século, os alemães, povo predominante na primeira onda de imigrações após a independência do país, inclusive ganhavam as terras. A partir de 1875, italianos e poloneses vieram em grande escala para o Rio Grande do Sul.

Enquanto os italianos, assim como os alemães, eram bem recebidos, os poloneses não eram bem vistos pelos demais.

— Eles batalharam muito porque tinha muito preconceito. Os poloneses eram considerados bêbados e preguiçosos. Hoje em dia, os preconceitos contra os poloneses diminuíram bastante — relata o professor.

No século 20, conforme conta o professor, o governo já não estimulava mais a vinda de estrangeiros e os que chegavam, tinham um suporte mínimo do Estado.

— Havia em Porto Alegre uma hospedaria de imigrantes, assim como em São Paulo. Depois disso, as pessoas eram transportadas para o Interior e tinham que se virar. Eventualmente, havia alguma ajuda com instrumentos e sementes. Acompanhamento de longo prazo, não havia — explica René.

Para Bárbara e Ketty, é preciso acolher os imigrantes de hoje assim como elas foram recebidas. Ambas constituíram família no país e são gratas pelo apoio.

— É absurdo que um imigrante tenha preconceito — fala a professora de línguas e história judaica Ketty.

Bárbara, que até hoje trabalha na Kinder – Centro de Integração da Criança Especial, fundado por ela em 1988, fala sobre a importância de ajudar ao próximo:

— O Brasil é um país muito bom e acho que todas as pessoas devem ajudar uns aos outros, porque a gente vive muito melhor doando do que recebendo.

Após a tarde juntos, Ketty pede para que os três deem as mãos, simbolizando a ajuda ao próximo:

— A felicidade dos outros faz a felicidade da gente.

(Zero Hora – 10/06/2015)



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