MARIA, IMAD E CLÉMENTINE

As histórias de quem escolhe o Brasil para fugir da guerra.

Já passa do meio dia no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro. Encolhida na cadeira como se quisesse escapar daquilo que está prestes a lembrar, Maria González conta, com a voz baixa se misturando aos ruídos indiferentes da rua, por que fugiu da Colômbia: “Na terceira vez que a guerrilha me obrigou a sair de casa, preferi abandonar meu país”.

A senhora, de português incrustado por um sotaque hispânico, narra histórias de desaparecimentos e mortes que aconteceram nos locais onde viveu e como chegou, enfim, ao Rio de Janeiro. Ainda que tenha a fala frágil — indício de um passado que ainda sangra — , ela sustenta os olhos firmes de quem já passou por situações de risco e, de alguma forma, as superou: “Somos pessoas fortes”.

Maria, assim como Imad, sírio, e Clémentine, congolesa, decidiu fugir de seu país. Eles fazem parte das mais de 7 mil pessoas legalmente reconhecidas como refugiadas no Brasil.

Os três dizem gostar daqui, ainda que suas sortes tenham sido diferentes desde que chegaram e preferissem estar onde nasceram, com a condição de que estivessem seguros. O status de refugiados que receberam aqui é definido internacionalmente como qualquer pessoa que, por fundado receio de perseguição racial, religiosa, política ou social, esteja fora de seu país de origem por não querer ou não poder se submeter à sua proteção. As situações em que refúgios são solicitados costumam envolver guerras, violação de direitos humanos por governos autoritários ou intolerância a certos costumes, tradições e etnias que podem resultar em situações de perigo.

Dentro de uma dessas definições, o cidadão estrangeiro pode pedir refúgio no país onde pretende residir e ter sua solicitação avaliada. No Brasil, país signatário do Estatuto de Refugiados de 1951 da ONU, essas pessoas podem, entre outras coisas, trabalhar legalmente, estudar em todos os níveis das instituições públicas de ensino e utilizar o SUS.

Fica a cargo do CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados) avaliar as solicitações e decidir se as acolhe ou não. Só em 2014, foram mais de 8.300 pedidos, quantidade 41% maior que em 2013. A chamada Taxa de Eligibilidade, que calcula a quantidade de requerimentos aprovados, também foi superior no ano passado: os 2 mil novos refugiados representam um aumento de 88% em relação ao ano anterior. Vivendo há menos de um ano no país, Imad e Clémentine fazem parte dessa nova leva de pessoas.

Destino famoso entre cidadãos de alguns países em conflito, o Brasil recebe estrangeiros de várias partes do mundo, fluxo que aumenta ou diminui de acordo com a situação do local de origem dos imigrantes. A guerra na Síria, que completou quatro anos no último dia 15 de março, é um fator determinante para que os sírios representem hoje o maior contingente de refugiados no país, seguidos de colombianos e angolanos.

O governo brasileiro, no entanto, não tem o dever de ajudar diretamente aqueles a quem concede o status de refugiado com moradia e alimentação de forma permanente, o que faz muitos deles chegarem ao país já enfrentando grandes dificuldades. Sem dominar o português ou ter conhecidos que possam ajudá-los a começar uma nova vida, eles procuram instituições como a Cáritas/RJ, frente da Igreja Católica que recebe ajuda governamental e presta assistência a refugiados no Rio de Janeiro. Com aulas de português, ajuda na busca de empregos, nos procedimentos legais de reconhecimento de refúgio e em outros assuntos, não é raro encontrar várias dessas pessoas que abandonaram seu país reunidas no pátio da casa que abriga a instituição, no Maracanã.

Por lá, passam todos os dias pessoas de culturas, religiões e raças distintas, tendo em comum, muitas vezes, o triste tom das histórias que as trouxeram até ali.

Maria

Maria González é calma ao contar as coisas. A senhora fala tudo com serenidade, mas sem transformar suas frases num amontoado de palavras sem emoção, desprovidas de calor. No Brasil há dois anos, já parece acostumada à rotina urbana carioca a despeito de ter vivido parte de sua vida no campo. As zonas rurais colombianas, como não é difícil de se encontrar nas páginas dos jornais do país, são áreas fortemente visadas por grupos armados. Por lá, como lembra Maria, “não há segurança do governo, que só protege as áreas mais urbanizadas”, o que torna tarefa de ascender à posição de autoridade do lugar algo mais fácil para guerrilhas e grupos paramilitares.

Tendo convivido com a violência desses grupos durante quase toda sua vida, ela conta que, uma vez em uma situação de risco como a que vivia, as pessoas se esquecem que ameaças, mortes e armas podem não fazer parte do cotidiano. Acostumam-se com a violência e, por conta de sua incapacidade de interferir nessa realidade, não conseguem enxergar outra possível. Ela, assim como vários de seus vizinhos e familiares, foi vítima não só de um grupo armado, mas de três organizações diferentes, todas ligadas ao narcotráfico que, de norte a sul, deixa grandes marcas de violência no país.

Na primeira vez em que isso aconteceu, sua família foi obrigada a abandonar sua casa pelas autodefensas (AUC – Autodefesas Unidas da Colômbia), grupo paramilitar de extrema-direita que ataca movimentações armadas esquerdistas no país, como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Depois de seis anos, foram as próprias FARC que os expulsaram do município em que moravam, cujo nome, por razões de segurança, ela prefere não dizer. O grupo, que Maria chamava simplesmente de “guerilha” enquanto contava tudo com grande precisão de lugares e episódios, fez sua família rumar para outro departamiento (semelhantes aos estados da federação, no Brasil). Ali, foram vítimas do ERPAC (Exército Revolucionário Popular Antisubversivo da Colômbia), também de extrema-direita.

Ao contar como, apesar de pensar que estava se distanciando das antigas ameaças, suas esperanças eram despedaçadas a cada novo lugar que chegava em seu país, Maria não conseguiu continuar escondendo a tristeza. A voz saiu cambaleante, oscilando à medida que as memórias pareciam vir como flashes: “Quando nós ouvíamos as palavras ‘autodefensas’, ‘paramilitares’, era pânico e angústia. Era saber que você morreria se não fizesse o que queriam”.

O que quis o último dos grupos armados que ameaçou a família de Maria, o ERPAC, e a fez refugiar-se no Brasil, não era algo que se podia negociar: seus próprios filhos. Os paramilitares desejavam que os jovens membros das comunidades fizessem parte do grupo e, para isso, tentavam convencer a população, de forma não violenta em um primeiro momento, da validade de seus ideais de luta. Mas nem sempre as coisas foram assim. Descrevendo um passado não tão distante, Maria diz que as crianças eram simplesmente raptadas.

Com o passar dos anos, os paramilitares e as guerrilhas colombianas começaram a perceber que sua abordagem precisava ser diferente caso quisessem o apoio das comunidades. Ofereciam dinheiro, proteção e oportunidades de trabalho às famílias. Entravam de uma maneira cordial, com fortes discursos sociais que incitavam os mais novos, como foi o caso de Maria. “De tanto que inculcavam na gente que eram vítimas, quando eu era criança, sonhava em fazer parte da guerrilha.” Quando decidiam que estava na hora de partir, chamavam aqueles que queriam como novos integrantes para irem junto. Se essas pessoas não concordassem, as ameaças e as mortes começavam. A lógica da violência promovida pelo narcotráfico era tão grande e já se fazia presente por tanto tempo que seus vizinhos, amigos e ela mesma, Maria, desconheciam outro modo de viver. “Por causa da violência, eu não sabia que existia um outro estilo de vida. Ninguém lá sabia, porque ninguém queria abandonar seu país.”

Com um histórico que já passa dos 70 anos de violência promovida por grupos armados na Colômbia, ela já convivia com eles desde sua infância. “Quando cresci, percebi que as coisas não eram assim e que nós [civis] é que éramos vítimas”, diz após contar que, ao se recusarem a integrar as forças da ERPAC, não só seus filhos, como toda sua família foi ameaçada de morte. Por conta disso, foram até Bogotá, onde pediram ajuda e foram abrigados por cerca de três meses. Não era exatamente isso que desejavam, no entanto. Preferiam voltar para suas casas e ter a segurança que mereciam ali. Ela sabia que não poderia contar com isso e, assim, decidiu sair do país.

A escolha do Brasil, entre todos os outros países disponíveis, geralmente acontece por um conjunto de fatores que envolve desde a proximidade até a maior possibilidade de se conseguir trabalho. Entre eles está o não raro fato de que o solicitante de refúgio pode possuir algum familiar ou amigo por aqui, caso de Maria. Pensando em observar como era a realidade do país antes de trazer o restante de sua família, ela veio primeiro, sozinha, principalmente pela maior dificuldade que os homens têm em sair de suas casas quando estão sendo perseguidos. Por conta de seu conhecido, a colombiana teve onde ser acolhida, realidade diferente de vários outros companheiros de refúgio que chegam ao Brasil sem saber onde passarão a próxima noite.

A fase da chegada ao país acolhedor pode reservar situações tão duras quanto aquelas que fizeram os refugiados saírem de sua terra natal. Muitas vezes sem dinheiro nem meios de consegui-lo, eles demoram algum tempo até encontrarem uma oportunidade de se adaptar ao Brasil, principalmente se levarem muito tempo no aprendizado do português. Antes de tudo, é preciso conseguir o status de refugiado concedido pelo CONARE e então ter os documentos postos em ordem pela Polícia Federal, processo que pode levar meses. Falando um idioma semelhante, Maria teve sorte já em seus primeiros dias ao conseguir ser contratada por uma empresa de aviação que precisava de falantes nativos de espanhol.

Daí em diante, não demorou muito até seus familiares conseguirem, também, vir até o Brasil. Primeiro veio um dos filhos, seguido de outro, meses mais tarde, logo acompanhados de seu marido, sua mãe e netos, que tiveram sua entrada facilitada depois que seu status de refugiada foi aprovado. A partir desse ponto, o governo dá prioridade aos pedidos de refúgio vindos de familiares que já têm parentes próximos no país. Seus filhos, hoje, fazem faculdade e estão empregados. Vivem uma vida que a colombiana, com os olhos apertados pelas bochechas de pele fina, diz agradecer.

A Colômbia, para Maria, já parece muito distante. Ela não pensa em voltar, apesar de sentir saudades, palavra que aprendeu há pouco. Entre a lembrança de episódios que certamente preferia não ter presenciado, era visível a admiração que demonstrava por seu povo, coisa que deixava entrever conforme contava suas histórias, por mais que não fossem de paz. Era como se tivesse descoberto que toda sua vida, marcada pela violência incentivada pelo narcotráfico, merecia ter sido outra. “Nós somos de uma cultura de gente com garra, trabalhadora, de mulheres fortes, pessoas bonitas, de seres humanos maravilhosos. Sou orgulhosa da minha terra, mas a violência faz parte dela. Os meus filhos e netos já não são filhos da violência.”

Maria tosse alto. Duas, três vezes. “Acho que estou com gripe.” Os olhos fundos comprovando o palpite. “Sabe, é a primeira vez que falo do meu país, conto um pouco de minha história e não choro. Eu sempre choro. Devo estar mais tranquila.”

Imad

Imad Nidal não quer falar sobre a guerra. Prefere esquecê-la. Não consegue, por mais que tente, há dez mil quilômetros de seu país. Sua família, com exceção do irmão que o acompanhou até o Brasil, continua na Síria, sobrevivendo na área mais sangrenta do conflito, a cidade de Alepo. Enquanto divide seu tempo entre estudar português e suas outras tarefas cotidianas, ele não raramente pensa em seus pais, sua irmã e seu outro irmão. Da última vez em que falou com eles, há duas semanas, estavam bem. Deram-lhe uma notícia ruim, no entanto: “Lembra daquele seu amigo, Omar? Ele foi morto há dois dias, atingido por uma bomba. Ele estava andando na rua”. Imad sabia. Tivera visto pelo Facebook. Por mais que não estivesse feliz, também não parecia incrivelmente desestabilizado. “A guerra é uma coisa a que você deve se acostumar.”

A Guerra Síria completou mais um ano em março. Segundo a ONU, são mais de 190 mil pessoas mortas, algumas filmadas no momento de sua brutal execução, vítimas do Estado Islâmico. A organização, que cresceu durante o conflito, está presente em grande parte do país, com domínio sobre várias cidades de forte valor estratégico. Muitos fogem, e seu destino é variado. Podem decidir-se pelo caminho mais comum e rumar para países vizinhos, como o Líbano e seus enormes campos de refugiados, ou para lugares mais distantes, como o Brasil. Desde que a guerra começou, o país tem recebido um crescente número de sírios. Hoje, eles passam de 1,5 mil e são o maior grupo de refugiados por aqui.

Imad aparenta ser o tipo estudioso e saber das coisas. Graduado em literatura inglesa, anda com camisa xadrez abotoada até o pescoço, usa óculos e tem o cabelo muito bem arrumado, nenhum fio a destoar do restante. Talvez por saber das coisas, não dá indícios de apoio nem ao regime do ditador Bashar al-Assad, nem aos rebeldes, que em 2011 deram início a uma série de revoltas influenciadas pela Primavera Árabe. Ao invés de usar seu tempo para discutir os últimos ataques ou propor soluções frustradas para ambos os lados, como têm feito os enviados da ONU e da Liga Árabe todos os meses, prefere se dedicar a aprender português. Acha difícil. Não consegue pronunciar muito bem as palavras, coisa que suas aulas de duas horas por semana ainda não puderam resolver. “É muito pouco. Aliás, se você pudesse me encontrar em alguma biblioteca e me ensinar português durante mais uma hora na semana, eu gostaria muito.”

Ele não teve a mesma sorte de Maria. Desde que chegou em Brasília, há quatro meses, não encontrou nenhum trabalho ou pessoas dispostas a ouvir seu inglês “not so good”, que faz “brother” transformar-se em algo como “buroza” e que leva algum tempo até ser compreendido. Vive com o dinheiro que sua família lhe manda e o que conseguiu juntar nos anos trabalhando como coordenador de operações em uma empresa na Jordânia, treinando vendedores de produtos domésticos, como máquinas de lavar e lava-louças. Imaginou que seu insucesso na capital fosse devido às pessoas por lá “não falarem muito o inglês” e por isso decidiu, junto de seu irmão, vir para o Rio de Janeiro, há um mês. Aqui tampouco encontrou alguma forma de se sustentar.

O sírio disse várias vezes, como se explicasse uma verdade científica bastante lógica, a combinação que o fazia não saber como, dali a dois ou três meses, viveria. “Aqui no Rio as coisas são muito caras. Eu e meu irmão (o ‘buroza’, depois de um tempo, já plenamente compreensível e até familiar) não sabemos português. Não sei aonde ir para conseguir um trabalho e meu dinheiro está acabando.” Simples como uma fórmula matemática. As mãos abertas em cima da mesa, com gestos calculados que definiam a explicação, foram mais que suficientes para compreender que Imad, apesar de viver uma situação incerta, tratava as coisas sem desespero.

Já são mais de quatro anos desde a última vez que ele viu sua família, em Alepo. Já na Jordânia, quando o conflito sírio começou, não voltava mais para casa por conta de problemas relacionados ao serviço militar obrigatório e, em vez de tentar reverter a situação, preferiu se refugiar. “Por que o Brasil, Imad?” “Porque nenhum outro país recebe sírios”, diz com naturalidade, como mais uma lei universal. Ele não poderia estar mais certo. Desde 2012, o país não negou pedido de refúgio a um sírio sequer. Só em 2014, ano em que a guerra tornou-se mais sangrenta, chegaram 1.183 novos conterrâneos de Imad ao Brasil, número bem maior que as 358 pessoas vindas do Líbano, que ficam em segundo lugar na lista. Não esperava, no entanto, que suas previsões estivessem erradas e não conseguisse grandes avanços onde está agora. Afinal, ele e seu irmão já tinham gasto dinheiro demais aqui.

Da mesma forma como evita o debate político, o rapaz também passa ao largo dos agrupamentos sírios no país, sem ter procurado nenhum até agora. O motivo, que parece o perseguir seja lá onde for, é a guerra. “Não procurei porque, no pouco contato que tive com árabes aqui, já quiseram discutir sobre qual lado eu estava no conflito e, com isso, debater ideais. Eu disse para eles: ‘ei, esqueçam a Síria, nós estamos no Brasil. Vocês não deveriam gastar seu tempo pensando na Síria. Deveriam gastar estudando português para conseguir um emprego.’” Imad é focado em seus objetivos, como deixa claro.

Quando perguntado sobre o que planeja fazer daqui para frente, não parece muito animado. “Queria trazer minha família para cá, onde estariam seguros, mas não teríamos dinheiro para nos sustentar por muito tempo. Então o que posso fazer é conseguir um emprego, continuar tentando e aprender o português direito. Eu gostaria de receber mais ajuda no Brasil, de ter alguém que me dissesse o melhor caminho a seguir. Não foi isso que imaginei quando resolvi vir.” A conversa para por uns instantes, as últimas palavras do rapaz a transmitir uma nítida frustração. Ele olha para baixo, imóvel. Volta para a posição em que estava, como se lembrasse de alguma coisa, e pergunta: “Você conhece alguma biblioteca boa para eu estudar português?”

Clémentine

Clémentine Yeboah arranha o português de sete meses: “Q-quando eu… Qu-quando eu che…chego… Quando eu chegou a-aqui?”. “Quando eu cheguei”, ajudo. “Ah, merci! Quando eu cheguei aqui, não tinha casa, não tinha dinheiro, nada.” A moça, vinda da República Democrática do Congo (RDC), se esforçava muito para falar a língua que estava aprendendo e agradecia por ter alguém nativo que a podia ouvir. Seria seu quinto idioma. Além do francês, sabe também o suaíli, o tshiluba, o quicongo e o lingala, todas línguas oficiais da RDC. Junto delas, existem também os dialetos, esses às dezenas, dos quais sabe falar alguns. O português lhe parecia um desafio que logo seria superado.

Não são todos os seus conterrâneos refugiados no Brasil que conseguem se sair bem no aprendizado da nova língua. De longe o grupo mais numeroso no pátio da Cáritas, reunindo desde crianças que acabaram de aprender a andar até gente mais velha, de rostos cansados, a quantidade de congoleses ali presentes faz pensar que há grandes problemas naquele país. Clémentine não esconde a decepção e mantém um forte silêncio por alguns segundos, como se avaliasse se deveria ou não entrar naquele assunto. Tinha vergonha de completar a frase que, por fim, disse: “No meu país há muitos problemas de guerra”.

São muitos, de fato. A guerra civil na República Democrática do Congo já dura quase 20 anos, matando milhares de pessoas tanto por conta das armas, quanto por fome e doenças. A causa desses conflitos, que envolvem países, grupos armados autônomos e rebeldes, passa pelos desentendimentos entre grupos étnicos. A quantidade de dialetos na RDC, por exemplo, evidencia as grandes diferenças culturais presentes em países africanos, contrastes não muito respeitados no período de colonização europeia empreendida no continente, que invariavelmente deixou marcas profundas. “Eu mesma fui vítima disso”, diz Clémentine como se já estivesse acostumada com a brutal realidade de muitos anos.

Ela se referia ao dia em que viu sua família pela última vez. Voltando do trabalho no Programa Nacional de Proteção Social, onde ajudava muitas pessoas vítimas dos conflitos tribais, na província de Sud-Kivo, encontrou um massacre acontecendo no lugar onde morava. Por conta da violência e do risco que isso representava, não pôde chegar perto de sua casa e diz não ter tido outra escolha a não ser fugir. “Quando isso acontece, as mulheres são estupradas, as crianças são abertas ao meio por baionetas e todos são assassinados de um jeito horrível.”

Ainda que estivesse acostumada com notícias do tipo em seu país, era impossível para Clémentine não recebê-las com horror quando envolviam sua família. Mais do que tristeza, tinha indignação nas palavras, como se considerasse todos aqueles conflitos e suas consequências episódios que não precisavam ter acontecido. Trabalhando por várias vezes com vítimas diretas e indiretas dos tribalismos no emprego que tinha, a congolesa sabia o quanto aquelas diferenças eram responsáveis pela falta de tudo em seu país e como elas eram um dos maiores responsáveis pela RDC ter diversos problemas estruturais. A região tem o segundo menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de todo o planeta, à frente apenas do Níger. Além das dificuldades impostas pela violência dos conflitos, o país tem vários casos de violação de direitos humanos, como violência contra a mulher e trabalho infantil, além de saúde, educação e segurança em níveis absurdamente baixos.

A causa do ataque, segundo Clémentine, era política. “O presidente do país, Joseph Kabila, fala suaíli e privilegia aqueles que também falam. O principal opositor dele é de Kasai, onde eu morava, e por causa disso somos todos marginalizados ali. Esses ataques acontecem a partir dos militares, mas também pelos grupos armados que apoiam o presidente.”

Ainda que trabalhasse com serviço social, Clémentine diz que a divisão e o ódio entre as etnias é tão grande que, trabalhando em Sud-Kivo, onde Kabila nasceu, sentia certa agressividade vinda de alguns habitantes. Diz que hoje em dia não é mais possível ser de uma província e trabalhar em outra, de etnia diferente, e se sentir completamente à vontade. Foi depois desse episódio que resolveu pedir refúgio ao Brasil.

Muitas pessoas morreram naquele dia, mas Clémentine não tem ideia do paradeiro de sua família. Ela a procura todos os dias desde então, sem ter conseguido nenhum resultado até agora. A congolesa já tentou falar com pessoas conhecidas que continuam lá, fazer anúncios de “procurado” e outras inciativas do tipo, todas em vão. A frustração da falta de notícias, conforme se lembrava dos parentes, era visível mesmo nas palavras de seu português básico.

A única família que tem, por hora, é sua irmã, que veio ao Brasil algum tempo antes de Clémentine e a ajudou nos primeiros dias aqui, quando não tinha muitos meios de viver. Ela a levou até a família de um pastor, que a aceitou em sua casa e lhe deu a ajuda necessária para se estabilizar no novo país. A moça não se saiu tão mal e hoje trabalha como intérprete. Com esse dinheiro, consegue se sustentar e pensar, a longo prazo, em começar uma nova vida no Congo, quando a situação do país for melhor.

“Eu presenciei muitas coisas ruins em meu país. Não é possível viver em uma situação como aquela. Mesmo assim, quero voltar quando as coisas melhorarem. Enquanto isso, posso ir ajudando pessoas aqui no Brasil.” Clémentine fala com orgulho. “Sempre trabalhei ajudando as pessoas com seus problemas e quero poder fazer isso pelo Brasil também. Sou muito grata às pessoas desse país que me acolheu e tenho que retribuir. A todos que me ajudaram, só posso dizer, francamente, obrigado”, diz, dessa vez abrindo o sorriso. A congolesa o prefere grande, “ao invés das lágrimas”, deixa claro.

Maria, Clémentine e Imad não representam todos os refugiados no Brasil. São, porém, um retrato instantâneo de um país que recebe mais pessoas na mesma condição de necessidade todos os meses. O motivo que os trouxe e como foram seus dias no país até agora são histórias diferentes entre cada um dos mais de 7 mil nessa condição.

Seja vivendo com sua família em relativa tranquilidade, como Maria, procurando um meio de se firmar economicamente, como Imad, ou buscando por seus familiares todos os dias, como Clémentine, os três procuram abraçar a realidade no Brasil, ainda que lamentem por seus países. Mantêm a cabeça em pé. Como diz Maria, “longe da violência, meus netos agora têm uma história diferente para contar”.

  • Uma vez que é recomendado aos refugiados manter sua identidade preservada por questões de segurança, todos os nomes usados no texto são fictícios.

Victor Calcagno

(Poleiro – 05/05/2015)



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