ATRAINDO POTENCIALIDADES

Busca de estrangeiros por vestibular da Unicamp cresce 84,7% em 4 anos.

O número de estrangeiros inscritos no vestibular da Unicamp aumentou 84,7% desde 2012, segundo a comissão responsável por organizar o exame (Comvest). A universidade recebeu 401 fichas na atual edição, enquanto que naquele ano foram 217 candidatos. Entre as justificativas feitas por estudantes estão a busca por ensino de qualidade e vontade de ficar no Brasil.

Um relatório de atividades da Unicamp, divulgado em março, indica que os cursos de graduação tinham 128 estudantes estrangeiros matriculados até 2014. Ao todo, foram verificados 30 países de origem e a maioria deles nasceu no Haiti, China, Cabo Verde, França, Coréia do Sul e Peru.

Além disso, no mesmo ano havia outros 328 estrangeiros matriculados como alunos especiais, oriundos de 37 países. Neste caso, explicou a Comvest, eles não fizeram vestibulares, porém, foram autorizados a cursar disciplinas em algumas graduações quando há vagas. Neste caso, os principais países de origem dos estudantes são Argentina, Colômbia, Espanha, Japão e México.

“De 2010 a 2015 a porcentagem de candidatos estrangeiros no vestibular teve pequenas variações. O aumento desta porcentagem no vestibular 2016 pode ser reflexo do aumento do número de estrangeiros vivendo no país verificado ao longo desta década, especialmente nos últimos dois anos”, avaliou o coordenador de pesquisa da Comvest, Jayme Vaz.

‘Me considero brasileira’

Uma parte dos estrageiros inscritos no vestibular chegou ao Brasil ainda na infância. É o caso da japonesa Megan Kirkby, de 18 anos, que desembarcou em São Paulo com a mãe e o irmão após deixarem Tóquio. Em meio à atribulada rotina diária com até 12 horas de estudos, ela conta que está ligada à cidade natal, porém, se considera brasileira e que planeja cursar medicina.

“No começo do ano eu resolvi visitar meu pai e passei dois meses com ele lá. Acho que não troco mais o Brasil, senti muita saudade”, brinca ao lembrar das dificuldades para adaptação durante a infância.

“Em casa, eles procuravam falar somente em português para me forçar a aprender. Eu sei ler, escrever, mas a fluência em japonês eu acabei perdendo”, explica a jovem ao mencionar a época que cursava o ensino fundamental e não sabia nada de português.

Sobre as diferenças entre os países, ela considera que no Japão há mais organização, tecnologia e a área de saúde é melhor estruturada, porém, faz questão de enaltecer que os brasileiros são mais acolhedores. “Fazer faculdade fora eu meio que descartei. Prefiro ter o diploma daqui”, falou antes de mencionar os fatores que contribuíram para a escolha da carreira.

“Eu gosto de biologia, corpo humano. No começo deste ano teve uma feira de neurociência e aí me interessei mais pelo assunto”, destaca sobre a escolha, ao lembrar também que gosta de assuntos relcionados à história e filosofia. Segundo a estudante, ela optou pela universidade por causa das referências que obteve, e também vê a possibilidade de mais independência.

Democracia

O sotaque do estudante Carlos Mandele Kalombola, de 24 anos, evidencia um dos pontos em comum dentro dos quase 7 mil quilômetros que separam Campinas e Lubango, cidade onde ele morava há dois anos, em Angola. Deixou a casa sozinho pelo sonho de ser engenheiro civil.

“Em virtude da situação do meu país, o Brasil está à frente em desenvolvimento, principalmente educacional. Surgiu a oportunidade e também falo português”, explica o jovem que mora em um apartamento, no distrito de Barão Geraldo.

O jovem lembrou que um amigo brasileiro, de Santa Catarina, o incentivou a mudar de país e a tentar uma vaga na Unicamp.

“Escolhi Campinas, porque no estado de São Paulo estão algumas das melhores universidades do país”, frisou Kalombola. Confiante de que está preparado para o vestibular, só demonstra preocupação ao ponderar sobre a expectativa de desempenho nas provas de língua portuguesa e literatura.

“Fiz o Enem e tive dificuldades [admite entre risos]. Já li autores como Jorge Amado [Capitães da Areia] e Aluísio Azevedo [O Cortiço], então me sinto capaz”, ressalta. Outro ponto destacado pelo jovem é a diferença política entre os dois países. “Do meu ponto de vista, democracia define o desenvolvimento do país. Você tem indivíduos pensantes, para a sociedade é melhor”, defende.

Tendência e regras

Embora o número de estrangeiros interessados tenha praticamente dobrado em seis anos, o índice de aprovados se manteve próximo e inferior a 1%. No ano passado, por exemplo, foram 303 inscritos – 0,38% do total de 77,1 mil inscritos -, e oito foram aprovados.

As provas dos candidatos estrangeiros também são feitas em português. Eles não têm direito à participação no Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais), que concede bônus.

Internacionalização

Para o professor de história Célio Tasinafo, a busca de estrangeiros pelo vestibular da Unicamp reflete o destaque da universidade em rankings internacionais, além da ida de mais brasileiros ao exterior, por meio de programas como o Ciências sem Fronteiras. Já o baixo índice de aprovados está atrelado ao conteúdo do exame.

“Há uma estrutura muito específica, com predomínio de história e geografia do Brasil. A maioria dos alunos não conhece aspectos do nosso território e cultura e encontram dificuldades”, avalia.

(G1 – 21/11/2015)

 



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