HAROUNA, GONZALO E NOH

Refugiados relatam histórias de violência e perseguição que os trouxeram a Rio de Janeiro, onde tentam recomeçar suas vidas.

Harouna / Republica centro-africana

A história de refugiado de Harouna começou no fim de 2013 com uma invasão de rebeldes a sua cidade natal, Boali, na República Centro-Africana. No ataque, viu seu irmão mais velho e seus pais serem mortos, acabou ferido e caiu inconsciente. Foi socorrido por muçulmanos e cristãos que fugiam do conflito e acordou em um campo de refugiados da Cruz Vermelha, em Bertoua, no Camarões. Ainda temendo a violência, pensou em ir até o Marrocos para tentar entrar na Europa:

— Os rebeldes do meu país atravessavam a fronteira a cada dois dias. Preferi tentar a Europa. Atravessei o deserto, cheguei na Argélia, arrumei um emprego e continuei até o Marrocos — lembra.

Depois de três meses, saiu do campo de refugiados e foi para a cidade portuária de Douala, onde trabalhou como mototaxista e conseguiu guardar um pouco de dinheiro para o início de sua jornada.

Em junho de 2014, Harouna iniciou sua viagem através do continente africano: primeiro atravessou a Nigéria e parou na vila industrial de Arlit, no Níger, em pleno deserto do Saara. Ali, pagou cerca de R$ 50 a traficantes de pessoas para ir à Tamanrasset, na Argélia. De lá, subiu até o litoral argelino e atravessou a pé para o Marrocos.

Em novembro de 2014, parou em outro campo de refugiados, em Oujda, onde pagou para ficar por duas semanas. Depois, foi para uma de floresta ao lado de Melilla, território autônomo da Espanha no Marrocos, que serviria de porta de entrada para a Europa.

Passou dois meses na mata e nesse período tentou três vezes entrar em solo espanhol, sem sucesso. Até que, em janeiro deste ano, muito cansado e debilitado, resolveu procurar a Cruz Vermelha, na cidade de Nador. Terminava o sonho europeu depois de ter percorrido mais de 5 mil quilômetros até o Marrocos, distância equivalente a uma viagem de ida e volta entre o Rio e Fortaleza.

Foi encaminhado para Rabat e ficou um mês detido na capital marroquina esperando para voltar ao Camarões. Retornou em um avião da ONU para a cidade camaronesa de Douala, mas, ainda se sentia em perigo. Em março de 2015, descobriu um navio que estava prestes a zarpar da cidade para o Rio de Janeiro, e pensou:

— Vai para o Brasil? Terra da liberdade.

No primeiro dia, entrou no navio comercial fingindo ser um funcionário e trabalhou durante o dia. À noite, desceu para a casa das máquinas e se escondeu. Por cinco dias, sobreviveu com a água e o biscoito que levou na mochila. No décimo dia, muito faminto, se entregou ao capitão:

— Tive de me revelar. Mas, me entreguei ao capitão, porque se os marinheiros me pegassem com certeza me jogariam no mar, já que eu era clandestino — revela. Depois de revistado e interrogado, foi trancado em uma sala com mais três camaroneses, também descobertos durante a travessia.

O capitão propôs a Harouna e aos outros três clandestinos deixá-los na Europa após o serviço no Brasil. Eles concordaram, mas não acreditaram. Assim, quando o navio chegou ao Rio, Harouna cortou sua língua, fingiu que estava doente, enquanto os outros imigrantes gritavam pelo capitão. Quando ia ser atendido, fugiu, subiu ao convés e escalou o mastro, como ele mesmo relata:

— Quando abriram o quarto onde estava preso, empurrei o capitão, corri e subi o mais alto possível. Gritei que eram para chamar a polícia, senão, iria me jogar lá de cima.

O jovem permaneceu no mastro por cerca de oito horas, até que, no início da noite tirou toda sua roupa. Diante de tanta insistência, o capitão chamou a Polícia Federal. Mas, Harouna só desceu quando o policial mostrou sua insígnia. Encaminhado ao Caritas-RJ, entrou com a solicitação de refúgio e aguarda a resposta do governo. Hoje, trabalha em um café na Tijuca, aprende o português e pensa no seu futuro:

— Quero uma vida normal, quero estudar, ter mulher e filhos. Recuperar o tempo que a guerra tirou de mim.

Gonzalo / Venezuela

Em 2011, Gonzalo, um professor de inglês de 52 anos, participava dos protestos a favor da liberdade de expressão que aconteciam na capital venezuelana. Seu ativismo o levou a perder o emprego na escola onde lecionava, segundo conta:

— Me identificava com a oposição e ia às passeatas. Isso não agradava o dono da escola onde eu trabalhava, um oficial aposentado da Guarda Bolivariana. Bem, já imagina o que aconteceu, não?

Demitido no último trimestre daquele ano, o professor não conseguiu emprego em outra instituição de ensino. No fim de 2011, passou a trabalhar como taxista à noite no bairro de Los Teques, na região metropolitana de Caracas.

Nos primeiros três meses de 2012, Gonzalo teve o táxi assaltado pelos mesmos bandidos duas vezes. Na busca de informações sobre os crimes, descobriu que teria de mudar novamente de emprego:

— Registrei os dois roubos e pedi a um primo policial para tentar descobrir o porquê dos mesmos ladrões. Ele me informou que os bandidos trabalhavam para um policial local e que nada poderia fazer.

Por sua fluência no inglês, conseguiu uma vaga como garçom em um restaurante muito frequentado por empresários e políticos. No estabelecimento, ganhava pouco e não tinha benefícios. A ideia de deixar o seu país amadureceu nos dois anos em que serviu as mesas dos políticos. Como ele mesmo explica:

— Escutava muitas conversas enquanto servia os líderes chavistas e de oposição. Muitas eram sobre como obter vantagem na compra de bonés e camisetas para as manifestações. Pensei que se até a oposição com a qual eu me identificava fazia negociatas, nada iria mudar — confidencia.

Sem recursos para levar a mulher e seus dois filhos, uma menina de 2 anos e um menino de 9, decidiu vir sozinho para o Brasil.

Em junho de 2014, atravessou de ônibus a fronteira da Venezuela com o Brasil, em Santa Elena de Uairén. Chegou a Boa Vista, em Roraima, dormiu uma noite e no dia seguinte foi para Manaus. Na capital amazonense, regularizou seus documentos e conseguiu trabalhar:

— Procurei a Polícia Federal, onde dei entrada em meus documentos. Depois, trabalhei como garçom, guardei um pouco de dinheiro e consegui trazer a minha família.

Até janeiro de 2015, morou com a mulher e os dois filhos em comunidades periféricas do Rio Negro e do Rio Amazonas, até que solicitou assistência ao governo federal para tentar vir para o Sudeste. Passados dez meses, ganhou uma viagem para família até o Rio:

— Chegamos em outubro desse ano, fui a Caritas-RJ e conseguimos esse abrigo aqui nos fundos da igreja. Espero voltar a dar aulas de inglês, tenho certificados internacionais, e agora, estou com identidade para estrangeiro e carteira de trabalho.

Noh / Síria

Em 2013, a cidade que margeia o Mar Mediterrâneo, Tartus, não estava sob bombardeio cerrado quando Noh decidiu sair da Síria. Mas os homens de sua cidade natal vêm engrossando as fileiras do Exército sírio no combate aos opositores de Assad.

— Em Tartus, tenho muitos amigos de longa data. Dos 20 que foram para o Exército, 12 morreram, dois ficaram deficientes, e pelo que tenho notícias, seis ainda estão vivos.

Em 2011, quando a guerra civil começou, Noh cursava o terceiro ano da faculdade de Direito. Com 19 anos, foi convocado a prestar o serviço militar obrigatório e seguiu para uma base em Dara, onde ficou dez meses e recebeu treinamento tático de guerra.

Em 2012, foi deslocado para Hama. Partiu para diversos combates em áreas dominadas pelo Estado Islâmico (EI) durante os sete meses seguintes. Questionado sobre o que viu e passou no período que esteve na guerra, o jovem responde de forma seca e direta:

— Por favor, prefiro não falar. Sofri muito nos últimos quatro anos.

Em 2013, o seu grupamento foi cercado durante uma missão nos arredores Aleppo e acabou capturado pelo EI. Ele e mais cinco soldados foram levados para um casebre de um pequeno povoado na fronteira da Síria com a Turquia. Lá, ficou preso por 80 dias, até que o dono do casebre e também carcereiro, o libertou.

Voltou para sua cidade, Tartus, e permaneceu por um mês se restabelecendo da violência física sofrida no cárcere. Decidiu não voltar para o Exército, e atravessou de carro a fronteira da Síria com o Líbano. Foi para Beirute e recebeu hospedagem de amigos sírios. Quando o prazo legal de permanência por seis meses terminou, arriscou uma viagem para fora do Oriente Médio:

— Não tinha dinheiro para uma passagem de avião. Mas, um amigo me ofereceu trabalho em um navio comercial e, em troca, ganhei uma viagem. Mas, só descobri que era para o Rio de Janeiro quando cheguei por aqui.
Em julho de 2014, desembarcou no Rio após passar vinte dias trabalhando. Sem falar português, conseguiu ajuda de um estranho para ligar para a sua família na Síria. No contato, conseguiu dizer ao irmão que estava na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, e ouviu que deveria ficar onde estava porque um amigo da família que morava no Rio iria buscá-lo.

Noh vagou e dormiu em bancos de praça durante quatro dias, até ser resgatado. Aconselhado pelo amigo, procurou a Caritas-RJ e a Polícia Federal. Passado mais de um ano, possui identidade para estrangeiro, carteira de trabalho e vive nas redondezas de uma comunidade na Tijuca, onde considera bom o custo do aluguel. Indagado sobre o que planeja para o seu futuro, diz:

— Penso em intensificar o aprendizado do português, e quem sabe, fazer faculdade de inglês. Gostaria de fazer Direito, mas não sei se conseguiria.

Alessandro Alvim

(O Globo – 20/12/2015)



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