ROSTOS DA IMIGRAÇÃO

Inspirado no Humans of New York, projeto reúne histórias dos imigrantes e refugiados que chegam à capital paulista.

O norte-americano Greg Fischer chegou ao Brasil com a família em 2013. Naquele ano, de intensas manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público e que se desdobrou numa série de atos contra corrupção e outras bandeiras, sua missão era apoiar como voluntário as ações da Missão Paz em São Paulo, auxiliando no suporte a imigrantes e refugiados que chegavam a São Paulo no Eixo Trabalho.

Foram 18 meses atuando no Eixo Trabalho, na admissão de imigrantes por empresas brasileiras. Dois anos se passaram e Greg presenciou novas manifestações, que desta vez, causaram-lhe outro impacto.

– Comecei a ver nas manifestações de março de 2015 algo que se aproximava de uma xenofobia das pessoas contra esses imigrantes, conta ele em conversa com o Clichetes.

Incomodado, ele que já não estava mais trabalhando com a mesma frequência na missão, decidiu criar um projeto inspirado pelo Humans of New York, que posta em redes sociais uma foto e uma pequena história sobre a pessoa retratada, todos de Nova York.

Assim nasceu o projeto Rostos da Migração. Greg criou o site para postar retratos e parte do depoimento dos entrevistados contando passagens de suas vidas. A página entrou no ar em abril e já conta com dezenas de relatos de pessoas vindas da Armênia, Síria, China, Bangladesh, Camarões e outros países. Os depoimentos são traduzidos para português, inglês, espanhol e francês para que possam ser lidos por mais pessoas e até por amigos e familiares distantes desses personagens.

– Comecei o Rostos da Imigração para mostrar que essas pessoas não são muito diferentes de nós. Eles têm os mesmos sucessos, fracassos e experiências muito importantes na vida, como todo mundo. Nossa experiência de humanidade é muito similar, a diferença é a cultura e a língua.

A língua, aliás, é uma das poucas coisas que deixam o norte-americano tímido por ele achar que ainda não domina bem o português.

– Não falava nada quando cheguei aqui. No ensino médio estudei espanhol, mas isso há dez anos. Lembrei um pouco quando cheguei e ajudou com algumas coisas. Mas depois de duas semanas em São Paulo os missionários foram para Brasília para ter aulas de português. Foram três meses de aulas na escola da CNBB.

Nosso encontro aconteceu uma semana depois que (mais) um barco com imigrantes naufragou deixando o corpo de uma criança síria de 3 anos em uma praia da Turquia. A foto correu o mundo.

A Síria enfrenta uma das situações mais graves entre os países que veem sua população buscar refúgio em outros lugares. Uma guerra que dura mais de quatro anos. O Brasil virou o principal refúgio dos sírios. No ano passado, o país concedeu refúgio a 2.320 estrangeiros – número recorde -, e os sírios foram mais da metade deles. Em 2015 o balanço não deve ser diferente.

– Acho importante compartilhar o que está acontecendo na Síria. Todo mundo sabe o que há lá, mas não conhecem o nível pessoal dessas histórias, diz Greg.

No entanto, embora essas histórias já sejam carregadas de drama e tragédia, ele conta que faz questão de não dar apenas esse tom aos depoimentos que compartilha. Quer também mostrar que há histórias positivas e de superação.

– Também quero mostrar que esses imigrantes e refugiados estão integrados à cidade de São Paulo. Eu não quero fazer entrevistas dentro da Missão Paz porque tem-se a percepção de que ali é uma espécie da Africalândia, que todos os refugiados moram lá. Não é verdade. Eles estão morando em diferentes lugares da cidade, estão se adaptando.

A imagem que o missionário quer evitar é a dos salões lotados nos abrigos para imigrantes e refugiados. São Paulo tem apenas 220 vagas para abrigar essas pessoas, dividas entre o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (Crai) e a Casa do Migrante, na Missão Paz. Mas devido ao intenso fluxo de chegadas, a Missão Paz já chegou a abrigar 250 pessoas.

Em suas conversas, Greg nota que um dos pontos mais difíceis para essas pessoas é trabalho. Não há oferta de trabalho para todos e muitos acabam optando por empregos informais ou arriscam abrir o próprio negócio, mesmo com a burocracia.

– Antes da recessão econômica, muitas pessoas vinham ao Brasil porque era uma terra de oportunidade. Agora, as oportunidades de dois ou cinco anos atrás reduziram. É muito difícil. A Missão Paz continua o Eixo Trabalho, mas as vagas estão diminuindo.

Embora haja pontos a serem discutidos na estrutura oferecida aos imigrantes e refugiados no Brasil, Greg diz que o que vê hoje aqui não existe no seu país.

– Isso não acontece porque a percepção dos imigrantes no país é ruim. Muitas pessoas falam sobre como os EUA precisam acabar com a imigração. Muitas pessoas moram longe do centro da cidade para não serem pegas e deportadas, uma prática muito comum lá e que aqui não acontece.

Para achar seus entrevistados em São Paulo, Greg anda pelas ruas onde refugiados e imigrantes circulam e espera que alguém queira compartilhar com ele sua história de vida. A conversa pode ser numa escadaria na rua, num café, em qualquer lugar.

– Eu sinto que todo mundo tem uma história para compartilhar com o outro. Quero entrevistar qualquer imigrante ou refugiado que está disponível a fazer isso. Mas às vezes isso não acontece. Eles não querem falar, pois tem algum medo. Minha mulher pensa que em certos casos, dependendo da experiência que cada um teve no passado, isso deve-se ao fato de eu ser homem e branco, pode ser intimidador.

Agora Greg quer melhorar seus conhecimentos sobre fotografia para caprichar mais nos retratos dos personagens. E melhorar o português. “Sempre”. Quer fazer algo grande com o projeto, mas confessa que precisa melhorar a periodicidade das atualizações para que mais pessoas acessem o site e encontrem sempre novas histórias. Fora isso, ele planeja acompanhar a jornada de um boliviano que está deixando o seu país com destino ao Brasil.

– É algo para acontecer mais para frente porque terei que ficar dedicado a isso. Vamos ver.

Vida missionária

A saída é não forçar uma conversa e mostrar-se aberto e disponível ao outro quando for a hora, uma vivência que Greg adquiriu bem antes de chegar ao Brasil, ao entrar para o grupo de missionários da Maryknoll, organização sem fins lucrativos ligada à Igreja Católica e que atua com missionários na África, Ásia e América.

O grupo é baseado em Nova York, mas tem representações em outras partes do mundo. El Salvador, Bolívia, Camboja, Tanzânia, Brasil, entre outros. O trabalho consiste em atuar com programas sociais. No Brasil hoje são seis missionários e dois padres atuando pela organização.

– Me perguntaram se eu gostava da região do Brasil e não vi problema, diz ele ao contar de como chegou ao país em janeiro de 2013. Fazia pouco mais de um ano que ele e a mulher haviam se tornado missionários da organização.

– E o que o levou a ser um missionário?

– É uma pergunta complexa porque é uma decisão muito pessoal. Antes de minha esposa e eu nos casarmos, tivemos interesse a trabalhar em um país diferente. Descobrimos o nosso interesse compartilhado durante a manifestação contra as ações militares dos EUA na América Central e América do Sul. Antes de nos juntarmos à Maryknoll, testamos nosso interesse durante nosso tempo na faculdade em 2008 e 2009. Eu fui a Talasari, na Índia (ao norte de Mumbai) por três a quatro meses dar aulas para crianças indígenas, e minha esposa foi a uma missão em San Lucas Tolimán, na Guatemala. Nosso interesse não diminuiu. Para mim, uma educação deve ser aplicada para o benefício de outros. Escolhemos ser missionários por causa disso: utilizar nossas experiências e formação para apoiar outros.

Andréia Martins

(Clichetes – 14/10/2015)



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