OBRIGADO SÃO PAULO – BRASIL

São Paulo é o novo lar, é a mãe, é o recomeço de mais de 370 mil pessoas vindas dos quatro cantos do mundo.

Guerras, crises e tragédias. Os motivos são sempre emocionantes, mas a luta, mudança de vida e conquistas proporcionadas pela “segunda chance” são ainda mais comoventes. São Paulo é o novo lar, é a mãe, é o recomeço de mais de 370 mil pessoas vindas dos quatro cantos do mundo, é o hospital para curar feridas. São Paulo é o Estado que mais abriga estrangeiros no Brasil, a maioria deles está concentrada na capital. Foi sobre a cidade cosmopolita e frenética que dá e tira, que encanta e decepciona, que o Vírgula procurou saber pelas ruas paulistanas e encontrou histórias de tocar o coração.

“Lá no Haiti, depois do terremoto, quebrou tudo. Minha mãe pediu para eu sair e buscar uma vida melhor”,
Baromus Jn Pierre, 28 anos, haitiano.

É difícil não se lembrar da tragédia de 2010 que matou mais de 200 mil pessoas na ilha e deixou milhões desabrigados. A capital Porto Príncipe foi abaixo e a destruição se estendeu para todo o país. Baromus Jn Pierre, na época com 24 anos, vivia no norte da ilha, na região do Cabo Haitiano, e viu na relação estreita entre Brasil e Haiti uma chance de “salvar” a família. Ele largou os estudos em técnico agrícola, para trabalhar de montador e o que mais aparecesse, “eu precisava mandar dinheiro para minha mãe e filho”.

O assunto da conversa era sério, do tipo que embrulha o estômago, mas o sorriso de Baromus exprimia conforto após mais de quatro anos sem ver as cicatrizes do Haiti. Ele mudou de casa, de país, de língua e até os sonhos foram trocados. Aprendeu a falar português, “não tinha outro jeito”, e a gostar de um povo que não era o seu. “Quando cheguei a São Paulo até chorei. Sentiam medo de mim. Se eu via alguém na rua e tentava conversar, a pessoa não queria falar”, disse em um tom mais triste do que de revolta. Já são três anos na capital paulista, o problema continua a existir, mas Baromus é um fã de São Paulo. “Me acostumei, aqui é movimentado, tem mais oportunidade, tem parques e trem para ir para todo lado”, enumerou.

Morando com o irmão, Baromus conseguiu se formar em técnico de turismo, e o futuro na agricultura morreu junto com a partida do Caribe. O orgulho do certificado que deve sair em alguns dias é escancarado, e a fome por uma vida melhor é sentida em cada frase de mais um filho de São Paulo. Tudo isso não só por ele, mas pensando na família que deixou para trás. Há oito meses Baromus não consegue um emprego, enquanto a conta de luz já passou de R$ 35 para R$ 100 nos últimos anos, reclamou o haitiano. Mas nem a falta de dinheiro tira dele o sorriso no rosto: “foi muito bom fazer uma vida aqui. Se eu conseguir um trabalho, vou ficar, gosto de São Paulo”.

“Se não fosse São Paulo, minha família não existiria mais, não sei o que aconteceria com a minha mãe”,
Judith Lakana, 23 anos, boliviana.

Falar de São Paulo para a boliviana Judith Lakana é contar uma “longa história”, como ela diz, cheia de sofrimento e superação. Não foi uma guerra ou desastre natural que mudou a vida de Judith, mas um acidente que quase levou sua mãe para sempre. “A gente tinha tudo lá: carro, casa, lojas. Não faltava dinheiro. Até que um dia minha mãe caiu do terraço de uma casa e tudo mudou. Vendemos os bens para pagar as cirurgias dela. Ficamos com nada”, Judith ainda estava na escola e viu a irmã mais velha partir com a promessa de um emprego em São Paulo. “Naquela época, o dinheiro do Brasil valia o triplo na Bolívia”, explicou.

Foi o trabalho da irmã que ajudou a tirar a família da situação. Um ano depois, a família toda – mãe e quatro filhos – decidiu se mudar ao Brasil, apagar o acidente e recomeçar. “Minha mãe era modista lá em La Paz e arrumou emprego em uma oficina de costura em São Paulo, como a maioria dos bolivianos. Aqui tinha que trabalhar rápido para ganhar dinheiro, o tratamento não era muito bom, não davam comida suficiente e a gente tinha que dormir tudo com a minha mãe”, lembrou, escolhendo bem as palavras para não deixar a realidade dura demais. “Eu só chorava, não entendia o português, não tinha amigos e não podia ir para a escola”, continuou.

Passaram-se dois anos até a mãe de Judith conseguir abrir uma oficina própria. Foi quando ela voltou a estudar. Judith era a melhor aluna nas aulas de espanhol, mas era vítima de bullying quando a disciplina era português: “a professora me fazia ler em voz alta, eu ficava tão nervosa que não conseguia. Os companheiros riam de mim e eu chorava no banheiro”. O trauma criou uma repulsa a São Paulo que só terminou há pouco mais de três anos. Os paulistanos reconquistaram a confiança da boliviana, ela viu que não ficaria mais de lado. “Os brasileiros às vezes abrem a porta para gente e não queremos nos entregar. Hoje me entrego a eles e São Paulo é minha segunda casa”, contou mais confortável.

A saudade daquela vida na Bolívia sempre bate. E é na rua Coimbra, no Brás, entre empanadas e conversas com conterrâneos, que Judith resgata o sentimento de estar na terra natal. Não é a mesma coisa do que estar lá, mas ela reconhece que foi aqui onde a família conseguiu se reerguer e teve o que ela chama de “segunda chance de vida”. “A única palavra que posso dizer é: obrigada”.

“Meu marido mandou uma procuração para o irmão representá-lo lá, casei com o irmão dele e vim para cá, em 1979”,
dona Gina, 56 anos, portuguesa.

Os imigrantes portugueses formam a nacionalidade estrangeira mais representativa no Brasil, são 270.528, segundo a Polícia Federal. Em meio a tantos, existe um casal muito especial, que toca um negócio familiar ali na rua da Consolação. Chegar ao restaurante da família Correa é como ser um convidado especial da casa de Licínio Antônio e Maria Angelina, a dona Gina. Namorados desde a época que viviam na vila de Vinhais, no distrito de Bragança, seu Licínio e dona Gina passaram quatro anos se comunicando apenas por cartas e se casaram a distância. “Só assim eu poderia vir para cá ficar com ele”, contou dona Gina que chegou ao Brasil em 1975, quatro anos depois do marido.

A ideia original não era essa, e seu Licínio não tinha o sonho de fazer a vida longe das montanhas portuguesas, dos enchidos e fumeiros de Vinhais. Mas logo após voltar de uma expedição do exército na África, Portugal passou pela Revolução dos Cravos – o início do fim da ditadura portuguesa -, em 1974, e a situação do país ficou “complicada”. “Não tinha emprego, aí veio um tio meu me convidando para vir para cá trabalhar. Eu vim”, lembrou Licínio ainda satisfeito pela escolha. Em dezembro de 1976, ele já estava trabalhando em um restaurante em São Paulo: “era uma sensação de grandeza”.

“São Paulo foi uma mãe, nos acolheu, fui um dos privilegiados dessa terra”, elogiou seu Licínio. Trabalhando, ele saiu da casa do tio, trocou a pensão por um apartamento, se tornou marido de dona Gina, teve três filhos, fez restaurantes dobrarem o quadro de funcionários e abriu o próprio negócio. Estava tudo muito bom, até que veio a gestão do ex-presidente Fernando Collor. Passados 20 anos, a ferida ainda não cicatrizou. A família recomeçou do zero mais uma vez e só há alguns anos conseguiu abrir as portas do Tuella, um restaurante português pequeno e aconchegante. “Hoje, a gente tem uma casinha pequena, mas um volume intenso de clientes, a fila fica na rua”, disse orgulhoso ele que faz questão de receber um a um na porta do local.
Portugal é apenas um “sonho”, que para dona Gina vai continuar sempre a existir. A realidade da família Correia, porém, é o Brasil. “Quando a gente vai para lá, é aquela alegria. Mas quando a gente volta, é como voltar para casa”, disse.

“Eu pensando que viesse aqui para continuar a estudar, chegou aqui, no dia seguinte, ele me mandou trabalhar”,
Osamu Matsuo, 76 anos, japonês.

Vinte minutos antes do horário marcado para a entrevista, seu Matsuo já estava pronto, só esperando a hora. A pontualidade japonesa é tão – ou mais – rigorosa que a britânica. Preparado para receber o Vírgula, ele mostrou o passaporte que usou há mais de 60 anos quando desembarcou de uma viagem de “volta ao mundo” – foram mais de 40 dias de navio, de Fukuoka, no Japão, até o porto de Santos. “O Japão estava em uma situação muito difícil depois da Segunda Guerra Mundial. Eu tinha um irmão mais velho que já tinha ingressado na faculdade, meu pai custeou os estudos dele, mas não teria a minha vez”, contou entre pausas a situação que um dia o levou a deixar a família.

O convite de um tio que vivia no Brasil parecia a solução. Quando chegou ao país, recebeu a notícia de que deveria trabalhar durante o dia e estudar à noite. “Se naquela ocasião meu pai tivesse dinheiro para me pagar a passagem de volta, eu teria retornado, me arrependi muito”, contou, mas não era o caso. Foram seis meses só de trabalho na mercearia, mais alguns até começar a entender algo em português para finalmente voltar à escola, no esquema brasileiro, já que no Japão os jovens não trabalhavam até terminar a faculdade.

Ele conseguiu cursar técnico em contabilidade e, entre idas e vindas, se formar em Direito. “Levei sete anos para terminar”, contou com um riso constrangido no rosto. “Nunca exerci, mas meu registro está lá”, completou, ressaltando fazer parte de uma leva antiga de advogados de São Paulo. Seu Matsuo formou família, educou os filhos que hoje já são independentes. Passados 60 anos na capital paulista, Matsuo ainda questiona a decisão tomada na adolescência: “será que foi melhor?”. “Nunca vou saber”, ele mesmo respondeu. “Já voltei 25 vezes para o Japão, mas hoje sou brasileiro. Meus filhos são tão brasileiros que nem sabem o que é japonês”, terminou em um riso simpático e contagiante.

“Se o salário na Itália na época era US$ 150, aqui já se ganhava US$ 500 a US$ 600 por mês”,
Pasquale Cosenza, 62 anos, italiano.

“Vai para o Brasil que você vai se dar bem”, foi o conselho de um amigo que transformou a vida de Pasquale nos anos 1970 ao encorajá-lo a fugir da crise na Europa, quando a taxa desemprego chegou a 10%. Após cruzar o oceano rumo ao Brasil, o primeiro trabalho de Pasquale já foi na área que ele sonhara quando decidiu estudar gastronomia: “comecei a trabalhar em uma cantina italiana que foi um sucesso, depois de três anos abri meu próprio restaurante na Pedroso Alvarenga, no Itaim”, contou.

Pasquale chama São Paulo de “casa”, onde ele “fez a vida”, encontrou felicidade, se realizou como homem e empresário. Pasquale se tornou um Poderoso Chefão da gastronomia, trabalhou por 15 anos como chef na TV brasileira – “comecei junto com a Ana Maria Braga em Note Anote”, contou orgulhoso -, controla uma das maiores importadoras de produtos italianos e dois restaurantes em São Paulo. Falar da cidade deixa os olhos marejados do típico imponente e emotivo italiano: “não existe um lugar tão nobre, São Paulo emana hospitalidade”.

Em um recado para o aniversário do município, em um tom alterado de voz marcado pelas batidas de ênfase na mesa, Pasquale pede – praticamente suplica – pela valorização de São Paulo, pelo zelo e respeito de um lugar que ele considera “a cidade mais bela do mundo”.

Thais Sabino

(Vírgula – 22/01/2016)



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