A DECEPÇÃO

Sonho brasileiro chega ao fim para os chineses que tentam a vida em Minas.

Depois de experimentar um boom entre 2008 e 2012 na cesta de consumo do brasileiro, as vendas de produtos chineses amargam perdas significativas com a retração econômica e a escalada do dólar. Na área de reduto de comerciantes asiáticos, onde ficam os shoppings populares de Belo Horizonte, as vendas já caíram até 80% desde o ano passado, segundo relato dos próprios chineses. Em Governador Valadares, cidade do Rio Doce que vem concentrando expressivo número de imigrantes nos últimos anos – das cinco lojas de importados abertas nos últimos quatro anos, uma fechou e duas estão liquidando o estoque, com previsão de fechar as portas ainda este mês. A maior parte dos proprietários já pensa em voltar para a China.

Os dados estatísticos atuais comprovam a redução do número de imigrantes chineses no Brasil nos últimos meses. No 3º trimestre de 2015 (último dado), o Ministério do Trabalho concedeu 394 vistos de trabalho para chineses no Brasil, queda de 30,9% em relação ao mesmo período de 2014, quando 516 vistos foram disponibilizados para trabalhadores procedentes do país asiático.

“Muitos ficaram ricos no Brasil, compraram casas, carros e ampliaram seus negócios. Agora, não mais. Alguns estão voltando para casa por falta de capital”, resume Luiz Chien Sam Ko, um dos primeiros a emigrar para a capital mineira, nos anos 70. Proprietário da Casa China, no Centro, há 41 anos, Chien, que fala bem o português, destaca que há dois, três anos ainda valia a pena deixar a China em busca de um novo país e do “sonho brasileiro”. “Muita gente veio e meses depois trouxe a família e parentes porque tinha oportunidade e boas expectativas”, disse. Na loja dele, as vendas caíram 80% em 2015.

Indo embora

Foi há cerca de quatro anos que a maior parte dos chineses se mudou para Governador Valadares. Eles abriram lojas de artigos importados e pastelarias. Hoje, o que se vê são portas fechadas e um clima de decepção. Visivelmente abatido, um comerciante que preferiu se identificar apenas como Paulo acabou de fechar uma loja na cidade e a outra está vendendo tudo a preços abaixo do mercado, com previsão de fechar as portas ainda neste mês. Ele e sua família desistiram do comércio no país e estão voltando para a China.

Uma conterrânea dele, que trabalha em outra loja de chineses na cidade, conta os dias para ir embora. A loja onde ela é funcionária vai fechar, mas ela deve continuar na cidade até juntar dinheiro suficiente para comprar a passagem de volta para casa. “No Brasil, tudo está ruim. Aumentou o dólar, aumentou o aluguel, a passagem de ônibus, a luz, o salário das funcionárias. A gente não ganha mais dinheiro. Se eu voltar para a China, pelo menos ficarei perto da minha família”, diz.

Outro que também quer ir embora de Valadares é o dono de uma oficina de motos e bicicletas no Centro da cidade. Há 10 anos morando lá, ele disse nunca ter visto o comércio tão ruim. “Se eu vendesse meu estoque todo, ia embora também. Mas com a mercadoria aqui, não tenho como ir”, diz. Assim como ele, outros chineses que ainda relutam em voltar tentam se adaptar ao novo momento comercial. A alta dos impostos e dos custos, a maior concorrência entre os próprios chineses e o consumo em queda são os principais motivos apontados pelos imigrantes para o revés nas vendas.

Wen En Lin, proprietário de uma loja no entorno dos shoppings Oiapoque e Xavantes há nove anos, conta que paga 40% de impostos para importar, além do aluguel que gira em torno de cinco a seis salários mínimos (R$ 4,8 mil aR$ 5,2 mil) por mês. Casado com a brasileira Sara Lin, com quem tem três filhos, Lin disse que ainda reluta em voltar para a China depois de 17 anos radicado no Brasil. “Começamos do zero, éramos camelôs e com esforço conquistamos nossos bens, mas agora não está fácil”, diz ele, em seu português improvisado. No último mês, o comerciante registrou queda de 45% nas vendas, além de um Natal amargo. “Os negócios estão fracos desde maio do ano passado, as pessoas estão com menos dinheiro e a concorrência com os próprios colegas também aumentou”, disse.

Momento ruim

Lucas Chen, dono de uma loja atacadista no Oiapoque, conta que a margem de lucro caiu de 200% para 30%. “Compro em dólar, e estou pagando dobrado pelos produtos”, afirma. Segundo ele, a época boa ficou para trás, ainda em 2008, quando o comércio por aqui era forte. A vendedora de bolsas Lili também reclama do movimento fraco e chama a atenção para os corredores vazios do centro popular de compras. “Estou no Brasil há 18 anos e nunca vivi um momento tão ruim”, lamenta.

Os nativos do país asiático representam 7% dos 850 locatários dos boxes do Oiapoque. “Muitos estão migrando para as lojas no entorno aqui do shopping. A situação deles está mais complicada por causa da alta do dólar”, disse Mário Valadares, administrador do shopping. Diante da queda de 25% nas vendas no ano passado na comparação com 2014, a administração do shopping se viu obrigada a reduzir os valores dos aluguéis para manter os inquilinos. Segundo Valadares, o desconto ocorre desde o ano passado e coincide com a baixa no movimento, cerca de 8% no último ano. “Não aplicamos o IGP-M (inflação do aluguel) e o desconto hoje é de 23%”, disse. No Shopping Oi, o aluguel dos boxes varia de R$ 320 a R$ 1.940.

Entre 2000 e 2010, segundo dados do IBGE, o total de imigrantes da China em Minas Gerais chegou a 749. De lá para cá, não há estatísticas oficiais. O Estado de Minas solicitou ao Ministério da Justiça o número de chineses regularizados no Brasil, mas não obteve resposta. O EM também questionou a embaixada da República Popular da China se há uma estimativa de chineses ilegais, também sem retorno. Também não há dados sobre registros de imigrantes chineses no comércio no estado e na capital, segundo a Junta Comercial do Estado de Minas Gerais – Jucemg e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH).

Fernanda Borges e Alessandra Alves

(Estado de Minas – 14/02/2016)



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