DIA DAS MÃES REFUGIADAS

Mulheres refugiadas contam histórias de adaptação pelo bem dos filhos.

Se elas conversassem entre si, o diálogo poderia não ser dos mais proveitosos considerando o conflito de idiomas, ainda que o português (das aulas oferecidas pela Cáritas) já faça parte indissociável de seu dia a dia. Mesmo assim, bastaria um único gesto para que se sentissem unidas por uma cumplicidade universal, refletindo num olhar, num sorriso ou numa lágrima emocionada o incalculável amor pelos filhos. Quem duvidar, pode até fazer as contas e traçar no mapa a distância que as congolesas Pombo e Mimi Muluila percorreram ao mudar de país em busca de melhores oportunidades para os seus: 7.009 quilômetros. Não menos estimada foi a travessia da venezuelana María Elías e a da colombiana Nelly, 4.386 quilômetros e 4.324 quilômetros, respectivamente.

A convite do caderno Zona Norte, essas mães compartilham com os leitores suas histórias de luta e de adaptação aos novos lares, agora em solo brasileiro.

Moradora da Penha Circular há cinco anos, Pombo Agnes chegou ao Rio com a filha Christel, hoje adolescente. Parte da família — o marido e um casal de filhos — ainda permanece na República Democrática do Congo (“Que de democrática só tem o nome”, frisa ela), em casa de parentes. Refugiada da guerra civil e da violência praticada principalmente contra as mulheres e crianças no país, sua primeira iniciativa por aqui foi buscar acolhimento em uma igreja, em Brás de Pina, que frequenta assiduamente aos domingos.

— A missa é muito boa, com um pastor congolês; matamos saudade da nossa terra — comenta Pombo, que já atuou como secretária particular em órgãos públicos e ONGs.

O trajeto é longo e cansativo, segundo ela, até a loja em Nova Iguaçu onde trabalha atualmente como assistente administrativo, mas “tudo vale a pena”, diz, se for para dar um futuro melhor aos filhos.

— Eu não sei quanto tempo vou levar para trazê-los porque hoje trabalho para sobreviver e não sobra dinheiro. Lá, temos uma casa, mas não podemos voltar. O melhor lugar é onde há segurança. Nós morremos de saudade uns dos outros — diz.

Foi o Brasil que lhe deu a oportunidade de mudança, mas o destino é uma incógnita.

— Ainda tenho dúvida se será bom que eles venham morar aqui, fico preocupada. Mas, quando tiver condições financeiras, vou fazer de tudo para que eles saiam do Congo, possam estudar e ter um bom caminho seja no Brasil ou em outro país. Unidos, conseguiremos superar tudo — diz.

Vizinhos latinos também encontraram refúgio aqui. É o caso da colombiana Nelly Camacho Barbosa, moradora do Riachuelo e figurinha fácil nas proximidades do Tijuca Off Shopping, bem ao lado do sinal, onde vende artesanato. Em eventos pela região, é possível encontrá-la vendendo quitutes típicos de seu país. No Brasil desde 2012, ela trouxe na bagagem uma história de peregrinação, porém não religiosa.

— Só eu sei o que passei para estarmos bem hoje — diz a estrangeira.

Foram os conflitos civis e uma perseguição particular praticada por grupos paramilitares, frisa, que a fizeram migrar de estado em estado, em sua terra natal, durante anos até chegar ao Brasil, trazendo toda a família, incluindo o marido, cinco filhos, netos e noras. A primeira a vir Rio foi a filha Katty.

— Não sabia como explicar para os meus filhos os assassinatos constantes na nossa vizinhança. Era algo muito impactante, principalmente para eles, que eram crianças. Vivíamos sob angústia e medo. Éramos perseguidos e interrogados por grupos que acusavam e ameaçavam meu filho mais velho de ser miliciano; outros captavam crianças para os seus exércitos, por isso começamos a fuga — conta.

Após ter de esconder a prole em casa de parentes, tentar garantir suas formações escolares com certa dificuldade (devido às mudanças repentinas) e buscar ajuda de órgãos internacionais sem grandes resoluções, Nelly tomou a decisão derradeira. E a Zona Norte foi a região onde encontrou um imóvel mais acessível para acomodar a numerosa família. Assim como ela, vários deles conseguiram emprego no Aeroporto Santos Dumont, o que abriu portas para outras oportunidades.

— Eu tinha pressa de conseguir dinheiro para trazer todos e ajudar no sustento da família. Então, nas horas vagas também fazia faxinas como diarista. Com o tempo, todos foram sendo empregados. Hoje, meus filhos gêmeos vivem em São Paulo, mas estou feliz e tranquila por saber que estão todos encaminhados. Vida de refugiado não é nada fácil, mas sinto orgulho de vê-los na luta, seguindo o meu exemplo — conta.

Encontrar uma terra (como uma fazenda) para cultivar, em alguma região no Brasil, está em seus planos.

Por um futuro melhor

Foram temporadas de 15 a 40 dias, entre 2013 e 2014, até que a empreendedora venezuelana María Elías se fixasse de vez com a família no Rio, no ano passado, contando com o apoio de parentes residentes na Tijuca. Feliz ao lado do marido, José Joaquín Rodríguez, do filho Juan Sebastian e do enteado Juan Andrés, em uma única palavra ela resume a maior mudança sentida no seu dia a dia desde então: segurança. Para eles, habituados a uma espécie de toque de recolher às 18h por receio de andar à noite nas ruas e de assaltos constantes, viver aqui é “tranquilidade”. Alívio maior foi se livrar do perigo que batia à sua porta quase que diariamente, conta, desde que o marido começou a receber ameaças, estendidas a todos.

— A insegurança na Venezuela já é grande, imagine com ameaça de morte. Os garotos são jovens e vão querer sair para passear, mas nós que somos pais sempre ficamos preocupados. A nossa decisão de mudar foi mais por eles. Sabia que pegariam o novo idioma rápido. Aqui tem cheiro de futuro. Não pensamos em voltar. Agora, não — diz María.

A venezuelana projeta suas expectativas sobre os filhos:

— Desejo que eles tenham liberdade para fazer suas escolhas pessoais acerca da profissão, da religião ou do que quer que seja. O importante é que sigam um caminho de bem, respeitando os valores das outras pessoas, e que tenham amor ao trabalho para colher bons frutos e serem felizes.

O jeito amigo do carioca foi outro aspecto que chamou a atenção de todos positivamente. Mas os passeios ainda são usufruídos com moderação.

— Estamos nos acostumando a essa nova rotina. Às vezes vamos ao shopping próximo ou a feirinhas. O mais tarde que já voltamos para casa foi às 21h — diz Rodríguez.

Difícil foi convencer o pequeno Juan Sebastian a sair de casa à noite para ir à UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

— Ele estava com dor de ouvido e precisava ir ao médico, mas estava com medo de sair naquele horário. Então dissemos: “Meu filho, nós viemos morar aqui para que vocês possam sair, ter mais segurança. Está tudo bem” — conta o pai.

— Na Venezuela, quando precisávamos sair à noite era somente de carro ou de táxi — completa o filho mais velho.

Durante dez anos, Elías desembolsou cerca de US$ 40 mil em troca da segurança da família, pagos a um grupo de milicianos camuflados numa cooperativa de operários que, segundo ele, cobrava valores indevidos por serviços não realizados. Ele trabalhava como engenheiro civil e era responsável por uma obra pública em Caracas, até que começou a receber as ameaças e sofrer extorsão.
No momento, a família vive do trabalho informal com a venda de quitutes árabes, especialidade de María, pela marca El Warrak. Sem ponto fixo, eles participam de eventos e recebem encomendas.

Ainda em busca de estabilidade financeira e emocional, Mimi Muluila está no Brasil há seis meses e morre de saudade dos quatro filhos e do marido, que ficaram na República Democrática do Congo, sua terra natal. Segundo ela, com o salário baixo que recebe, fica difícil custear as despesas. Mimi mora de aluguel na Gardênia Azul, em Jacarepaguá, com a irmã.

— Vim para o Brasil pelas oportunidades que ele oferece e eu gosto daqui; não tem violência e guerra como vivenciamos no Congo. Ainda não tenho dinheiro para pagar a passagem deles para cá. Todo dia choro por isso. Rezo para que apareça alguém para nos ajudar — diz a professora, que trabalha como auxiliar de cozinha num restaurante em Copacabana.

Jéssica Lauritzen

(O Globo – 07/05/2016)



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