NO RIO, AQUELE ABRAÇO

Na Tijuca ou em Botafogo, o Rio de Janeiro oferece um curso de idiomas diferente: ter um professor refugiado. Cada bairro tem uma unidade do Abraço Cultural, um negócio social que une educação e cultura. Muita cultura.

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Quem nos recebe no Abraço Cultural – Unidade da Tijuca é a Tatiana. Biomédica de formação, Tatiana Rodrigues é a coordenadora financeira do negócio que em 2 anos fechará o semestre com pelo menos 450 alunos. “No início, fazíamos apenas por amor”, diz ela. Hoje, além do amor, a estrutura em franca ascensão é um modelo no ramo do empreendedorismo intercultural.

Tatiana explica que o projeto se originou em São Paulo com a ONG Atados, voltada ao empreendedorismo social. O projeto começou na capital paulista em 2015 e em menos de um ano estava no Rio. Lá, cerca de 2.000 alunos se encontram no bairro de Pinheiros para aprender línguas. Aqui, funcionários e professores recebem ajuda de voluntários para continuar crescendo.

Árabe, espanhol, inglês e francês são oferecidos nas duas unidades cariocas nas quais trabalham 13 professores. Eles vêm da Gâmbia, Haiti, Marrocos, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela. Quem trabalha ali não era necessariamente professor no seu país de origem, mas passa por um rigoroso teste seletivo e constantes capacitações para chegar à sala de aula, que abriga de 6 a 15 alunos. A única obrigatoriedade é que seja refugiado ou solicitante de refúgio, afirma a coordenadora.

O material, produzido por eles, carrega significado. “Como que um professor de francês, refugiado, vai falar sobre a Torre Eiffel se não da sua própria cultura?”, indaga. O que Tatiana quer dizer é que aprender o idioma francês ou espanhol não é somente aprender sobre a língua do colonizador, mas entender que muitos outros países compartilham esse repertório linguístico e têm o que mostrar. Além da mudança da perspectiva eurocêntrica, segundo ela, o material segue uma abordagem comunicativa que vai além da gramática, ensinada de forma indutiva a partir de uma compreensão global e das produções cotidianas das pessoas.

Alô, refugiado! Você pode mandar seu currículo para o Abraço Cultural e aguardar novos processos seletivos para professor: contatorj@abracocultural.com.br

Para que o capital cultural carregado pelos professores seja aproveitado, o Abraço realiza periodicamente eventos sobre a cultura de diversos países. Neste semestre, estão agendados encontros nos dias 11/05 e 08/06, sempre na Casa de Cultura Habonim Dror (onde se localiza a Unidade de Botafogo). Música árabe, danças congolesas e política venezuelana foram um dos temas já trabalhados nos eventos. Os próximos tratarão sobre a questão curda (maio) e a situação política-social da República Democrática do Congo (junho), mas os eventos são restritos a alunos e convidados.

“A língua quebra as barreiras culturais”. Faz sentido. Nesse negócio, os refugiados são os professores, ensinam enquanto aprendem e reforçam sua cidadania tão fragilizada pela dureza do refúgio, status concedido demoradamente no país. Tatiana recorda o que ouve muitas vezes: “Aqui minha voz importa”, diz um dos professores. “Este é um espaço que me sinto bem”, diz outro. Não é de se duvidar.

Ao me despedir de Tatiana, eu, recém-migrado no Rio de Janeiro, vou preparado para os dois beijos que a cultura local nos sugere. Dou o primeiro e, na hora de virar o rosto para o segundo, Tatiana me surpreende com um abraço apertado. Era a melhor maneira dela me responder a pergunta que havia esquecido de fazer: sobre a identidade daquela organização. A do abraço, é claro.

Gostou do Abraço Cultural? Busque por mais informações no site: http://www.abracocultural.com.br. Eles também estão nas redes sociais (Facebook e Instagram) ou no telefone: (21) 99825-9907. Se você está em São Paulo, entre em contato pelo telefone: (11) 98300-7321 ou no email: contatosp@abracocultural.com.br.

Otávio Ávila

 

 

 



Categorias:em pauta, estudantes, imigrantes, refugiados

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