CONTE SUA HISTÓRIA, Federico Jorio: “A escolha de ir sempre é ligada à esperança de um mundo melhor”

Iniciamos hoje o projeto ‘Conte sua história’, que escutará os imigrantes e refugiados que vivem no Brasil, principais atores de nossa cena migratória.

O primeiro a publicar é o italiano Federico Jorio. Com 38 anos, Federico nasceu em Roma e vive no Brasil desde 2013. Formou-se em Ciências da Comunicação na Federico 1Universidade La Sapienza de Roma, onde completou seu doutorado na área. Especialista em didática da língua italiana para estrangeiros, atua no Brasil como tradutor, revisor e criador de conteúdo web em italiano. No decorrer da sua estadia no Brasil, Federico se envolveu com as temáticas de migração e contribui com sua reflexão de ‘fluxo de consciência’, como ele mesmo denomina, tanto para sensibilizar a opinião pública quanto para melhorar e compartilhar a condição do estrangeiro e as dificuldades pelas quais passa.

Confira o testemunho abaixo:

A raiz da árvore

Nunca podemos deixar para trás o lugar de onde viemos. A nossa raiz cultural já molhou nossa alma e o que hoje se apresenta ao mundo vem da grande influência dessa parte que fica norteando nossos valores, nosso olhar, nossas reações, nosso comportamento.
Não podemos esquecer o contexto que formou a nossa infância, a nossa adolescência e,
ainda mais, nossa primeira fase adulta. Tudo o que foi vivenciado ficou na memória e serve como filtro para novas experiências.Federico 3

Quando entramos em uma nova cultura, em um novo mundo, quando somos retirados do nosso ambiente natural do dia a dia e devemos recomeçar, a nossa vida não flui mais como fluía antes. O que era natural fazer não se torna mais espontâneo e tudo adquire um novo traço característico, que vamos começar a descobrir e com que devemos começar a nos deparar.

Vamos começar tudo de novo. Não aprendendo a fazer coisas que já sabemos fazer, mas a entender emoções e sentimentos que não se associavam a algo já conhecido. A camada do mundo externo se torna algo desconhecido e precisa ser explorado. Essa exploração não termina nunca e não se ajuda com as ferramentas disponíveis em nossas zona de conforto. É preciso lutar, caminhar, andar, cair e levantar. Virar-se, desenrolar-se, dar o máximo de si e criar novas habilidades e competências.

As lembranças do mundo anterior aos poucos se enfraquecem no cotidiano, mas elas se
alimentam na recordação romântica e no imaginário individual.

A família antiga já não está mais conosco e a nova ainda não existe. É um limbo, uma passagem, e por serem passagens não têm certezas, mas perguntas e desafios. O que fazer então? Não temos muita escolha, ou melhor, temos várias escolhas, mas apenas algumas, ou talvez apenas uma, seja a escolha mais adequada. Não curto dizer que seja a escolha certa, mas gosto de dizer que possa ser a mais funcional, aquela que mais nos ajuda de fato naquele momento. Aqui entra a nossa personalidade, aqui entra a formação do nosso caráter, aqui entram tantos e tantos fatores que já tiveram um grande papel na contribuição do nosso ser atual.

Mas isso basta? Não. Agora nosso percurso de evolução interior precisa continuar e de uma forma mais incisiva, mais rápida, mais emergencial e mais madura.

A época contemporânea tem recursos informáticos e eletrônicos que não existiam, facilitando o acesso a serviços e informações, dando rapidez de alcance e muitas outras coisas. Mas isso favorece a estabilidade das nossa relações? Isso ajuda na criação de amizades novas e verdadeiras? Isso aprofunda e fixa contatos existentes que merecem ser consolidados?

Acredito que não. Mas talvez isso seja a parte mais importante que precisamos ter quando participamos dessa grande mudança, dessa nova e imensa fase de adaptação e
redefinição.

Federico 2

Crédito: Arquivo pessoal

Crio um gato que adotei. Ele vem dessa nova fase e resolvi criá-lo morando sozinho e longe da família e dos amigos de sempre. Talvez essa foi uma das escolhas mais interessante que fiz, pois isso nasceu de mim e está crescendo comigo e ele reflete o cuidado que tenho por ele. O que tem a ver tudo isso com a imigração e os aspectos relacionados a ela? Quando você é imigrante o valor de cada coisa aumenta de forma exponencial e o significado de cada experiência é mais marcante do que no seu país de nascimento. A reflexão sobre o significado da vida e da sociedade se amplia e alcança
metas novas.

O botão das folhas novas

O que acontece quando mergulhamos na nova cultura? O mergulho é a fase de contato
mais profundo com o novo mundo, aquela fase que nos obriga a “ser e estar” na nova
dimensão de vida. Sim, neste momento não podemos mais fugir da realidade e nem relaxar na antiga zona de conforto. Não podemos mais contar com as lembranças que ficam e não podemos mais apelar ao suporte emocional ao qual estávamos acostumados. Tudo isso não se traduz necessariamente em algo negativo, mas não podemos negar que um trauma é vivenciado e, como todos os traumas, eles têm sequelas e grandes desafios. Eles nos ajudam a ser uma nova pessoa, mas também nos derrubam no chão sem delicadeza. Começa aquele processo que nunca terminará. Começa a criar-se a nova identidade, baseada na antiga, mas que precisa se destacar dela e abandonar crenças que não funcionam mais. O funcionalismo é talvez o recurso mais precioso nesse momento, a nova identidade se constrói no que é funcional ao seu desenvolvimento. É questão de sobrevivência, de saber se transformar e, às vezes, não se reconhecer mais pelo que fomos. Não quero dizer que nos anulamos, que pisamos em cima do nosso ego. Quero explicar que a recriação da nossa identidade se dá de forma radical. Continuamos a nos amar pelo que somos, mas também pelo que devemos ser.Federico 4

Aos poucos os tijolos se colocam um cima de outro, aos poucos as novas folhas brotam e a árvore começa a ter um novo semblante, aos poucos quem passa e olha para ela talvez não a reconheça mais, mas mesmo que isso aconteça, quem a observa se deixar levar pela dúvida que esteja se enganando, que talvez a árvore seja ainda exatamente aquela conhecida.

Como são metabolizadas as experiências positivas e negativas? Enquanto as primeiras têm um sabor de novidade extremo, porque uma experiência positiva em um contexto novo adquire um sabor totalmente diferente, as segundas bloqueiam o avanço da construção da nova identidade. O impacto das negativas é sempre um “colocar um pé atrás” na escolha feita, na decisão de ter deixado nosso país de origem em busca de um futuro melhor. Sim, a escolha de ir embora de onde se nasce sempre é ligada à esperança de um mundo melhor. Não interessa se o país é mais o menos desenvolvido em comparação ao de origem, o que interessa é o que vamos fazer ou com que vamos viver no país escolhido. A atração da nova experiência de vida joga certamente um papel determinante na escolha.

O desabrochar

A minha meta visa a integração cultural. Para alcançar esse nível é preciso também que a sociedade seja caracterizada pelo interculturalismo mais do que pelo multiculturalismo. O interculturalismo, na verdade, pressupõe uma comunicação intercultural que permite o diálogo do estrangeiro com a nova cultura.

Além desta importante reflexão, é preciso levar em consideração as nossas escolhas pessoais, nossos projetos de vida, crenças e valores. Se conseguirmos realizar pelo menos algumas das nossas metas de vida mais relevantes nos sentiremos melhores, teremos a sensação de estar mais “em casa”. Não é tão importante onde estamos e onde vivemos quando conseguimos realizar o que sempre almejamos. Isso vale em termos profissionais, relacionais e afetivos. Difícil mesmo é estar sozinho na busca do que queremos, sem poder contar com o apoio emocional da nossa família de origem, dos nossos amigos de sempre e de um parceria fixa a nível sentimental. Eu acredito que essa interminável busca de si não se completa até realizarmos um dos nosso objetivos e aqui está a grande questão: a redefinição da nossa identidade, que caracteriza o imigrante, precisa se deparar também com a concretização das nossas expectativas, dos nossos sonhos. Se isso, geralmente, já assume um grande peso quando vivemos no nosso país de origem, na condição de migrante se torna algo que condiciona quase de forma exclusiva a nossa trajetória de vida, nossas escolhas e pensamentos.

Federico 5

Um novo semblante

Acontece, dessa forma, que não somos mais como éramos anteriormente, não somos mais como teríamos sido se tivéssemos ficado no nosso país de origem. Não somos mais apenas cidadãos da nossa pátria de nascimento e ainda não somos cidadãos do novo país. Claro que cada migrante tem uma situação diferente, mas, independente disso, em linha geral, as fases do processo de saída se caracterizam a nível de sensações e emoções, por sentimentos bem próximos e de fácil reconhecimento.

A nova pessoa formada, o novo semblante criado, criou uma personalidade mais madura, mais responsável, menos sonhadora, mais ativa e proativa, mais acordada, mais ligada com o mundo e ao que acontece nele, mais respondente, mais sensível aos estímulos externos, mais criativa e mais forte. Aconteceu um milagre? Não. Apenas aconteceu uma metamorfose que talvez nunca teria tanta carga transformadora e valor remodelante, uma força introspectiva e de capacidade reativa.

Gostaria de frisar e ressaltar esse ponto: a metamorfose. O migrante é alguém que passou por uma mudança muito profunda que, embora não tenha conseguido reverter totalmente a antiga identidade, conseguiu afetar uma ampla parte dela. Da metamorfose renascemos, por isso nosso semblante é outro e nos é dada uma nova oportunidade de vida, ainda que no começo isso fique desconhecido. O que começa como uma Federico 6nova aventura se torna uma viagem complexa, demorada, descontínua, poderosa, inevitável e marcante. Mais do que tudo e mais do que qualquer outra pessoa, temos de contar conosco mesmo. As certezas não são mais tais, tudo é perecível, mas de repente tomamos ciência de quantas coisas e pessoas são perecíveis, de quanto somos sujeitos a mudar e de como isso nos muda. O apego precisa ser deixado para trás e começamos a entender que momentos de apego são, na verdade, dádivas da vida que precisamos aproveitar.

As possibilidades de comunicação contemporânea nos oferecem certamente as condições
para manter os contatos mais importante para nós e permitem também que fiquemos atualizados em relação às notícias. Isso faz parte do mais amplo processo de globalização em somos envolvidos. Para o migrante de hoje esse processo deixa experienciar a dupla realidade dos dois mundos mais próximos, mais vivos dentro dele. Podemos acompanhar através dos mídias sociais todos os acontecimentos dos nosso amigos e familiares, mas não podemos estar juntos, não podemos estar presente fisicamente. Por
isso acontece também que, se tivermos a oportunidade de voltar para nossas férias ou a
passeio, o nosso olhar é outro, mas é como se nunca tivéssemos abandonados aquele
lugar. Percebemos as mudanças e não deixamos de reconhecer as emoções e as lembranças que nos ligam à nossa pátria de origem.

***



Categorias:testemunhos

Tags:, , , , , ,

%d blogueiros gostam disto: