[Pesquisa]: Por uma outra “integração local” de refugiados: o caso do Abraço Cultural; por João Paulo Rossini

Escrevi este texto para contar, de forma resumida, como ingressei na pesquisa científica e como realizei meu trabalho de conclusão de curso em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO-UFRJ). O trabalho foi realizado sob a orientação do professor Mohammed ElHajji e defendido em dezembro de 2018.

Comecei a estudar as migrações internacionais a partir do meu interesse pela alteridade, já antigo, que foi incentivado de maneira mais intensa pelo aumento recente da cobertura midiática dos fluxos migratórios ao redor do mundo e, também, para o Brasil. Ao mesmo tempo, com cada vez mais frequência comecei a reparar em pessoas de origem africana, árabe e andina andando pelas ruas do Rio de Janeiro, principalmente no comércio de rua, em carrocinhas de comida ou trabalhando como camelôs.

A motivação da minha pesquisa, assim como as suas implicações, tem como objetivo responder à seguinte questão: como ou a partir de que momento os migrantes passam a ter relações sociais recíprocas e a fazer parte de uma sociedade receptora? Essa formulação se deu conforme eu via as pessoas na rua e tentava entender os porquês da diferenciação dos nacionais em “nós” e dos estrangeiros em “eles”.

Ao procurar referências bibliográficas sobre o tema, enquanto restringia minha questão de pesquisa aos migrantes refugiados, fui levado ao conceito de “integração”. O entendimento do problema poderia ser simples, se não tivesse algumas implicações de natureza interdisciplinar inerentes à aplicação prática de “integrar” um refugiado a uma sociedade.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) entende a integração local de refugiados como uma solução duradoura. O processo complexo e gradual é entendido pelas instituições em suas dimensões legais, econômicas, sociais e culturais. Porém, quanto mais eu pesquisava, mais eu me inquietava com a diferença entre o que estava sendo entendido e proposto na teoria e o que eu observava nos refugiados com quem conversava.

Levantei a hipótese de um outro fator a ser considerado na experiência migratória, o subjetivo: afinal, não é possível afirmar que a percepção que alguém tem de sua “integração” corresponde ou segue à risca o caminho instrumental idealizado pelas instituições multilaterais. A vida das pessoas é imprevisível, e ao mesmo tempo elas têm desejos, expectativas, memórias e sonhos. Portanto, também considerei a importância de ouvir em primeira mão pessoas em situação de refúgio relatando como se dá, para elas, sua experiência migratória.

Meu trabalho de conclusão de curso partiu de uma revisão da literatura dos usos da palavra “integração” – relativa à migração e ao refúgio – e de seus termos correlatos em artigos científicos brasileiros. A principal conclusão à qual cheguei foi de que, na maior parte das vezes, o termo é utilizado sem ser acompanhado de definições ou de explicações de exatamente sobre o que trata.

Depois disso, exploramos a literatura científica relativa à crise dos modelos integrativos, concebidos na sociologia do século XIX e que não dão mais conta de sociedades transnacionais cada vez menos homogêneas do ponto de vista cultural. Finalmente, para entender a comunicação intercultural dos indivíduos em situação de refúgio, investiguei o sentimento de philia – pertencimento social e afetivo fundado em um amor fraterno entre pessoas que vivem em uma mesma sociedade.

Realizei meu trabalho de campo na associação Abraço Cultural, que ministra cursos de cultura e idiomas com professores refugiados ou migrantes e que se propõe a integrá-los à sociedade brasileira. Para tanto, me matriculei no curso de francês da escola, além de me colocar à disposição de realizar trabalhos voluntários para a organização.

Lá conheci alguns professores refugiados e realizei entrevistas com 5 deles, provenientes do Haiti, da República Democrática do Congo, do Marrocos, da Síria e da Venezuela. As entrevistas tinham três principais eixos: “como o entrevistado veio para o Brasil e para o Abraço Cultural”, “o que é integração para ele e se considera estar integrado”, “se tem planos de continuar no Brasil e qual seria seu futuro ideal enquanto migrante vivendo aqui”.

A experiência de realizar as entrevistas foi enriquecedora, principalmente porque conversar com cada uma dessas pessoas era, para mim, como entrar em um mundo de cores e formas diferentes. Talvez o principal traço comum a todos os relatos tenha sido a imprevisibilidade com relação ao futuro no Brasil, dado que a migração envolve uma série de fatores, a maioria externa aos indivíduos migrantes.

Outra questão muito importante foi como as diferenças culturais e de trajetórias entre os entrevistados impactaram na percepção individual sobre sua experiência migratória e sua integração. O entrevistado haitiano, por exemplo, contou que já se sentia em casa desde sua chegada ao Brasil, dado que já tinha estudado português no Haiti e participava de atividades culturais no Centro Cultural Brasil-Haiti, localizado em Porto Príncipe. A entrevistada síria, por sua vez, relatou ter se sentido bem recepcionada no Brasil porque, segundo ela, os brasileiros são sinceros na hora de dizer o que estão pensando, e aceitam ouvir o que as outras pessoas têm a dizer.

Especificamente sobre se sentirem integrados, no geral os entrevistados responderam de maneira afirmativa, e isso se dá, em linhas gerais, porque todos têm emprego no Abraço Cultural, falam português e, sobretudo, porque nutrem relações afetivas com o Brasil e com os brasileiros, embora cada um apresente suas razões de maneira distinta. Para o professor congolês, a culinária brasileira é uma forma de cultura que o faz se sentir pertencente ao país. Ele conta de sua experiência e do seu gosto por pratos brasileiros, exemplificando com churrasco e baião de dois, já parte de sua rotina. Para o refugiado venezuelano, o afeto identificado por ele nas pessoas brasileiras é extremamente positivo. De acordo com ele, o povo brasileiro tem uma parte empática e afetiva muito forte.

João Paulo Rossini é publicitário e membro do Diaspotics/UFRJ (grupo coordenador deste projeto de informação).

Captura de Tela 2019-07-04 às 23.06.13

Rossini, com o TCC na mão, e sua banca na sala do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC/UFRJ). 



Categorias:análises, estudantes, publicações, refugiados

Tags:, , , , ,

%d blogueiros gostam disto: