Um refugiado e um ‘parabéns’ nacional

Texto para o site MigrantesHoy

No último dia 9, as felicitações pelo aniversário de 30 anos levou um homem a aparecer nos trending topics do Twitter no Brasil. Tratava-se de Kaysar Dadour, um refugiado sírio que reside no país há 5 anos e tem conquistado uma expressão midiática destacada.

O sírio, proveniente de uma família de classe média alta, decidiu abandonar sua terra e sua família após ter sido violentamente agredido na rua enquanto transitava com um crucifixo no pescoço. A intolerância de alguns fanáticos nacionalistas coadunava ao clima pesado da guerra civil em seu país. Era a hora de partir e reconstruir-se do outro lado do mundo.

Dadour desembarcou em Curitiba, capital do estado do Paraná, ao sul do Brasil, onde a presença de dois primos ajudava na adaptação e na ancoragem das lembranças que a distância do tempo e espaço impõe a quem migra. Conseguindo onde dormir, era necessário passar à segunda etapa dos desafios do deslocamento forçado: onde trabalhar. Esse objetivo foi previamente alcançado pela ajuda desses parentes distantes, que auxiliaram no custeio de curso de hotelaria. Ali, ele conheceu uma empresária do ramo de animação de festas. O primeiro labor de quem saiu em refúgio era fazer os outros sorrir.

À reportagem da Revista Veja, Dadour conta que imitou diversos personagens e ainda tinha um hobby de adestrar papagaios, bicho que virou sua marca, posteriormente. Mas foi um programa de televisão que mexeu com ele. O reality show Big Brother Brasil chegaria a sua 18ª edição no início de 2018 com um prêmio de 1,5 milhão de reais. Os amigos comentaram na reportagem que o sírio fixou-se na ideia de participar do programa porque era uma das poucas oportunidades financeiras de trazer sua família para o país por conta própria. O que para os nacionais poderia ser um desejo fútil – de participar de um reality show -, para o refugiado configurava-se como a grande chance de reencontrar aqueles que ama.

E foi assim que em janeiro de 2018 o sírio apareceu em horário nobre na televisão brasileira. Divertido e extravagante, Dadour alcançou a 2ª colocação e uma fama repentina. Milhares de seguidores uniram-se ao seu perfil nas redes sociais movidos por sentimento de empatia frente àquele refugiado que beijava as cores do Brasil e esperava ansiosamente rever sua família. Mesmo sem o prêmio, sua história já estava contada. Órgãos internacionais, a Rede Globo (que promove o programa) e diversos fãs desejavam a chegada de seu pai, mãe e irmã. O encontro emocionante ocorreu em 22 de setembro, 5 meses depois de sua saída do programa, e transformado em reportagem no principal programa dominical da emissora.

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Postagem de Kaysar Dadour no dia da chegada de sua família ao Brasil. Cobertura televisiva e quase 600 mil curtidas no Instagram / Reprodução: Instagram

Ali, Kaysar Dadour já era uma estrela, talvez a primeira de origem refugiada no país. O Brasil foi formado por imigrantes e ao longo de sua história midiática algumas personalidades estrangeiras ganharam destaque, especialmente de origem lusófona. Mas vindo de uma situação de refúgio e de um padrão cultural não ocidental, embora a presença síria-libanesa apresente traços marcantes na nossa constituição civilizacional, parece-nos algo inédito a fama de um refugiado nesse Brasil que, ainda timidamente, passa a ser opção aos milhares desses indivíduos do mundo contemporâneo.

Mesmo tendo a 5ª maior população mundial, o Brasil está longe de figurar entre os principais receptores de imigrantes e refugiados. Menos de 1% da população nacional é de estrangeiros e cerca de apenas 10 mil foram oficializados refugiados. Na fila da solicitação há outros 80 mil, especialmente venezuelanos que entram todos os dias pelas fronteiras de Roraima, estado brasileiro vizinho ao país. Muito pouco para quem apresenta dimensões continentais e 210 milhões de habitantes.

Por força dos nós coletivos das redes sociais digitais, o dia 9 de julho foi inundado por manifestações de carinho ao sírio-brasileiro e, hoje, ator de telenovela. Sim, ele já foi naturalizado e conseguiu um outro emprego que o fez continuar na televisão. É necessário ainda mensurar qual o apelo dessa popularidade, mas é possível estimar que a solidariedade em torno de sua condição e a narrativa produzida acerca dela nas mídias tenha impactado de forma contundente àquele que no dia de seu aniversário quiseram-lhe desejar um “parabéns”.

 

Otávio Avila

 



Categorias:análises, em pauta, refugiados

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