E se a desigualdade não morasse na diferença?

No início é um conhecer dos dedos das mãos, dos pés, do próprio corpo. Reconhecer seu espaço em constante crescimento, entender até onde se vai e o outro começa. Aquele rosto que fita o seu, mas não é o seu. Então, ah…. então é o outro que está ali diante de ti. Essa é compreensão primeira, que aos poucos sai do nevoeiro e toma contornos de tantos outros que estão ao redor. Esse perceber-se como alguém que é você e não o outro vai aos poucos perfazendo um caminho de construção de sua própria identidade – como “metamorfose”[1] ou como “celebração móvel”[2].

E a lente do meu olhar para o mundo, para mim e para os outros vai sendo construída lentamente, no devagar dos segundos que passam sem que percebamos, imersos naquele caldo de cultura no qual mergulho diariamente, que vai construindo as grades[3] pelas quais enxergo a tudo e a todos, sem perceber, mas absorvendo tudo aquilo que os outros esperam de mim. E não é que esperam muito?! Que eu seja de um jeito determinado: se menina, recatada, se menino, destemido. Se branco, confortável, se negro, que abaixe os olhos. Se tiver orixás me guiando, que me cale. Se criança, que obedeça. Se imigrante, que me camufle na paisagem. E nesse mundo que mal adentrei, já me arrumaram um lugar e uma direção – vejam só. 

E em pouco tempo vou testando as hipóteses sobre o que escuto e vejo. Se posso tanto, devo ser menino. Mas se quero chorar, não posso sê-lo. E como é que construo, então, esse ser eu? No encontro da diferença. 

Por ainda não bem entender o que essa diferença pode significar, eu a aceito como é: somente diferença. Aquele outro é diferente pelo simples fato de não poder ser eu. Confuso? Nem tanto. Não é melhor, nem pior… é… diferente. 

Mas eis que insistem[4] que, aí onde parecia que as coisas simplesmente existiam em suave sintonia, há relações de poder que eu nem mesmo enxergo. E se assim é, alguns parecem ter mais do que outros – sim, esse tal de poder. Então, a diferença já não parece mais ser somente… diferença. Ela se ergue pelo discurso daquele que pode mais, que está confortável naquele lugar. E todos os outros que não se adequam ao que eu acho o correto, o bonito, o altivo serão, assim, desigualmente diferentes. 

Imagem: Alexandr Ivanov

Até que um dia eu começo a perceber que aquele corpo, que ali está onde o mandaram ficar, vem até mim e demanda compartilhar o meu espaço, o meu discurso, o meu lugar. Eu estranho. Então, ele – esse corpo que é alguém também – vai mais além, ele se ergue em sua identidade – mostra toda sua potência – e me fita nos olhos exigindo que eu me identifique. 

No golpe do não esperar, por um tempo, não entendi. 

Mas me abaixei na altura das crianças e as olhei nos olhos. Sentei ao lado das mulheres cujos corpos negros são vistos como objetos e as escutei. Ouvi uma das quase trezentas línguas indígenas que ainda existem daqueles que aqui estavam antes de mim. Escutei meu amigo congolês perceber-se negro ao chegar ao Brasil. E fui assim escutando os discursos que vivem na diferença, mas são abafados pela desigualdade que fui tentando entender. 

E, então, eu me percebi branca. E no entender-me branca-mulher-classe média-mãe-esposa-psicóloga-professora, e tantas outras identidades que se movimentam dentro de mim, entendi que trilhei caminhos mais suaves, já com terra batida e alisada tornando fácil o caminhar. 

Mas na teimosia de ainda ser eu, continuei costurando a crença de que estamos todos em movimento. Se nem sempre foi assim, é possível descontinuar o que aí está. Basta seguirmos incomodados, desnaturalizando o que parece tão, mas tão natural. Nada pode parecer natural quando uma criança aprende, sem ninguém precisar explicar, que ela precisa olhar para o chão ao invés de tomar seu lugar de direito.

E ao cruzar assim várias lentes, ir além da minha própria grade cultural[3], percebo que o caminho de colorir as escolas, faculdades, famílias e todos os espaços com tantas cores, culturas, traços e línguas possíveis, a gente começa a compreender a diferença sem fingir igualdade, sem camuflar cordialidade, usando aquele conceito de equidade, no qual eu me percebo diferente do outro, mas um outro com a mesma potência e os mesmos direitos que tenho. Será – espero, com toda a força que tenho – que seja possível conceber a mobilidade da identidade, a possibilidade de nos metamorfosearmos muitas vezes até conseguirmos, enfim, fazer da diferença uma celebração.

Referências:

[1] CIAMPA, Antonio da Costa. (1996), A Estória do Severino e a História da Severina. Um Ensaio de Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense. 247 p. 
[2] HALL, Stuart. (2006), A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A Editora.
[3] SCHÜTZ, Albert. (2010), O Estrangeiro: Um ensaio em Psicologia Social. Revista Espaço Acadêmico, ano X, n. 113, pp. 117-129. 
[4] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

Gabriela Azevedo de Aguiar
Psicóloga, professora da Faculdade de Psicologia da UNESA e doutoranda do Programa Eicos / UFRJ.



Categorias:análises, diásporas, imigrantes, refugiados

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