A minha história com o Brasil, por Xuewu Chen

A minha história com o Brasil começou, de repente, naquele verão de 2011. Era uma tarde comum de julho no sul da China, quente e ensolarada, sentia-me tão sossegado nas férias que tanto esperava após o pesado Gaokao – o Enem chinês. O telefone de casa tocou. Era um amigo. “Chen, saiu o resultado da faculdade e do curso que você passou!” O meu coração começou a bater rápido, mas tentei manter-me calmo para enfrentar o que iria acontecer. Com estranheza, meu amigo resolveu o enigma: “você vai estudar português na cidade de Xi’an! Mas como assim, português? Foi você que escolheu o curso?”

Sim, fui eu que escolhi. Desde criança, sempre gostei de ver o mapa do mundo, imaginando como devia ser o mundo de fora, por isso, decidi estudar uma língua e cultura estrangeira na faculdade. Por volta de 2011, o curso de português ainda era algo raro, visto que em toda a China havia apenas menos de quinze instituições que ministravam aulas de português. Ao mesmo tempo, existia no país uma demanda crescente para profissionais que soubessem português, devido à parceria cada vez mais próxima da China com os países lusófonos. O português, portanto, era visto como um “idioma estrangeiro de ouro” no mercado de trabalho da China naquela época. Eu fiquei bem contente ao saber do resultado do curso, e quis conhecer logo essa língua que certamente iria exercer grande influência sobre a minha vida no futuro. Comecei por pesquisar músicas em português, e a melodia de Lambada flutuou pela primeira vez aos meus ouvidos naquela tarde…

O nome completo do meu curso de bacharelado é Língua e cultura portuguesa, com duração de quatro anos. Tínhamos aulas de gramática, literatura, redação, tradução, história e cultura portuguesa e brasileira, entre outras. A partir do terceiro ano letivo, estudantes podiam escolher realizar intercâmbio em Portugal ou no Brasil, em instituições que possuíam convênio com a faculdade. Muitos colegas foram, mas mesmo com muita vontade de ir, não pude por causa de condições financeiras, o que me deixou com uma ansiedade ainda maior de conhecer os países onde o português é falado. A partir do terceiro ano, comecei a trabalhar usando a língua portuguesa, realizando interpretações mandarim-português para os turistas, comerciantes e futebolistas brasileiros. Acostumei-me desde então com o sotaque brasileiro, criando a paixão pelo país. Quando me formei, decidi entrar numa empresa estatal chinesa que posteriormente me enviou para trabalhar como intérprete no Brasil.

Xuewu Chen e o Estádio do Maracanã. Arquivo pessoal.

Finalmente pisei no solo brasileiro em setembro de 2015 e me dirigi diretamente para o sul de Minas, onde se situava a empresa. O planalto brasileiro me impressionou à primeira vista, com a sua abundância de luz solar, montanhas, fazendas… paisagens bem distintas da minha terra natal, localidade rural na qual comumente se encontram búfalos e plantações de arroz. A sensação de estranheza por ser estrangeiro surgiu-me logo e fortemente, ao cumprimentar os brasileiros abraçando ou beijando, ouvir as pessoas falando em português, ver o idioma escrito nas placas, sinalizações, matrículas, etc… Naquele momento, percebi que realmente cheguei ao Brasil – o outro lado do mundo para a China. 

A empresa onde trabalhei era do setor de manufatura de máquina pesada e possuía uma grande quantidade de funcionários tanto chineses quanto brasileiros. Trabalhar na empresa chinesa no exterior implica uma grande dedicação ao trabalho e à empresa. Em comparação com os funcionários brasileiros, sempre estávamos mais atarefados, precisando trabalhar mais de oito horas por dia e seis dias por semana. Os funcionários chineses hospedavam-se na empresa, formando assim uma comunidade de compatriotas. Em virtude das diferenças em hábitos alimentares, a empresa trouxe cozinheiros chineses e oferecia comida chinesa. Muitos ingredientes para fazer comida chinesa eram comprados diretamente em Liberdade, bairro de São Paulo que possui grande concentração de orientais. Devido à mentalidade e costume de trabalho diferentes, os chineses e brasileiros precisavam se adaptar uns com os outros no trabalho. A empresa esforçava-se para promover as trocas culturais, oferecendo curso de mandarim para brasileiros e curso de português para chineses, além de organizar uma diversidade de atividades de confraternização.

Ao meu ver, os brasileiros sabem coordenar melhor a relação entre o trabalho e a vida, enquanto os chineses preferem trabalhar duro para melhorar as condições financeiras tanto para eles como para a próxima geração, enfrentando o grande estresse resultante do desenvolvimento econômico acelerado do país. O ambiente de trabalho dos brasileiros costuma ser mais livre e ter mais igualdade do que o dos chineses, que se faz bem hierarquizado entre os inferiores e superiores. Além disso, os brasileiros possuem mais garantias em direitos trabalhistas do que os chineses. Passei por algumas greves dos funcionários brasileiros na empresa. Sindicatos trabalhistas no Brasil exercem função de proteger os direitos dos trabalhadores brasileiros, enquanto sindicatos na China comprometem-se principalmente em promover cultura empresarial.

Nota do editor: a descrição de Chen nos aproxima da narrativa construída no documentário ‘Indústria Americana’, lançado pelo Netflix.

Devido à questão do visto, fiquei apenas seis meses no sul de Minas e retornei à China. Embora a estadia não tenha sido longa, adorei conhecer o Brasil no Brasil. Sentia falta do céu lindo e das fazendas vastas do planalto brasileiro, das comidas típicas como pão de queijo, além do ambiente social livre de “viver, e não ter a vergonha de ser feliz”. Posteriormente, decidi sair da empresa, mas fiquei com a vontade de visitar o Brasil novamente e conhecer outras cores desse país colorido. Desde pequeno, sempre tinha o sonho de estudar no exterior e, depois de estudar a língua portuguesa e conhecer o Brasil, soube que era lá onde queria realizar esse sonho. Comecei a buscar oportunidades de pós-graduação no Brasil. Felizmente, a Universidade Federal do Rio de Janeiro me aceitou e assim me tornei um estudante do programa de mestrado da Escola de Comunicação desta instituição prestigiosa em 2018.

Entrei no mestrado com o projeto de pesquisa que visa estudar as imagens da China no Brasil. Interessei-me em investigar como os brasileiros veem a China porque, pela minha experiência, a maioria dos brasileiros ainda não possui muito conhecimento sobre o meu país, pensando a China como um Estado remoto ou até misterioso. Há, realmente, diferenças entre os dois países em termos sociais, culturais e políticos. Encontra-se uma variedade de estereótipos sobre a China na sociedade brasileira, na qual o país oriental, como o “Outro”, ainda consiste no imaginário social dos brasileiros. Optei pela perspectiva midiática para a realização da pesquisa. Percebi que a mídia brasileira, profundamente influenciada pela mídia estadunidense, ainda não consegue observar a China a partir da própria identidade nacional brasileira, sendo que a China representada pela mídia brasileira, por sua vez, não difere da mesma representada pela mídia de outros países ocidentais.

Embora tenha sofrido corte de verbas pelo governo, felizmente, a educação de ensino superior do Brasil ainda me parece manter a alta qualidade. Terminei o meu curso proveitosamente dentro do prazo de dois anos. Penso que em comparação com o ensino chinês que costuma ser linear – o conhecimento é transmitido de professor a aluno –, o ensino de pós-graduação do Brasil valoriza mais o debate, troca de ideias e a interação entre docentes e discentes. Os estudantes brasileiros curtem a liberdade de expressão e ousam opinar. Fiquei grato por ter conhecido muitos professores brasileiros que têm paixão pelo ensino e pelo estudo acadêmico, assim como muitos colegas brasileiros que realmente se dedicam ao estudo e sonham em ser bons professores futuramente. Acredito que o ambiente acadêmico do Brasil continua sendo sério e produtivo.

Neste período em que estudo no Brasil, o Rio de Janeiro se tornou a minha segunda casa. Assim como muitos cariocas, também gosto de degustar uma caipirinha na praia nos fins de semana ensolarados, fazer trilhas para apreciar do alto as paisagens da cidade, assistir a jogos e torcer para o próprio time… A cidade maravilhosa ainda constitui o palco em que a minha história romântica acontece. Conheci e namoro uma menina brasileira linda. Somos ambos estudantes e o namoro é, para mim, simplesmente o sinônimo de felicidade. Apoiamo-nos mutuamente tanto na vida como nos estudos. Por outro lado, o namoro entre pessoas de nação e cultura diferentes nunca é fácil. Necessita de mais compreensão e respeito, não só do casal, mas também de cada família. Por nós, eu respeito as crenças católicas dela e ela respeita as minhas tradições chinesas provenientes do taoísmo e do budismo. Misturamos a culinária chinesa com a brasileira a fim de fazer comidas que ambos gostam. Comemoro o Natal com a família dela e ela celebra o ano novo chinês comigo no meu país, tentando estudar mandarim para poder conversar com a minha família que não sabe português… Enfim, o amor é a melhor coisa que pode acontecer na vida, e, a melhor atitude para cuidar de um amor consiste em buscar as semelhanças e respeitar as diferenças.

Neste ano de 2020, a China foi o primeiro país onde foi registrado inicialmente o surto do novo coronavírus e o Brasil foi um dos países mais atingidos pela pandemia. Estive na China no início do ano e testemunhei o desenvolvimento da pandemia no país. Quando cheguei ao Brasil, no final de fevereiro, a pandemia do Brasil teve seu início e acelerou fortemente. Passei pelos piores momentos dos dois países. A China conseguiu controlar a propagação do vírus em curto prazo, com disciplina e firmeza. Quanto ao Brasil, acredito que poderia enfrentar e solucionar o problema de forma melhor. Infelizmente, a calamidade sanitária foi excessivamente politizada no país e é triste ver a xenofobia ganhando força na sociedade brasileira. A China e o povo chinês foram atacados verbalmente no ambiente virtual do Brasil com boatos e mentiras. Por ser chinês, fui chamado de “coronavírus” nas ruas do Rio de Janeiro. Não fiquei zangado por causa disso, porque sei que os xenofóbicos não representam a maioria dos brasileiros. Porém, espero que o Brasil continue sendo aquele país hospitaleiro e aberto que conheço. Lembro que o Cristo Redentor sempre está de braços abertos para todos os visitantes, assim como costuma ser o Brasil, cuja identidade é marcada pela diversidade étnica e cultural. 

Em outubro de 2020, retornarei ao meu país por motivo de visto e trabalho.  Não terei mais vínculo empregatício nem estudantil com o Brasil, mas o afeto persiste. Espero que um dia possa pisar novamente no território brasileiro. Quando este dia chegar, sei que o meu coração irá bater tão forte quanto a primeira vez. Brasil, até logo.

Xuewu Chen



Categorias:estudantes, imigrantes, testemunhos

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