O projeto (In)movilidad en las Américas surgiu nos primeiros meses da pandemia, após pesquisadores de diversos países perceberem o dilema que se instaurava entre a precaução da circulação do vírus e o uso político e social que o fechamento das fronteiras poderia ocasionar às populações migrantes do continente.

Desde que surgiu, o projeto tem avançado em discussões e formações, como a recente parceria firmada com o Museu da Imigração, de São Paulo, e conversas realizadas por seus membros, como se deu com a presença de Soledad Álvarez Velasco, coordenadora geral do projeto, no Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM). Recentemente, ela concedeu uma entrevista ao oestrangeiro.org. Velasco não poupa críticas ao sistema de controle migratório dos Estados Unidos, onde vive atualmente, e nos convida a pensar uma dinâmica continental movida por “corredores migratórios”, especialmente nas fronteiras que ligam a América Central a América do Norte.

Arquivo pessoal

Velasco cursou Sociologia no Equador, seu país natal, mas realizou o mestrado em Antropologia social e o doutorado em Geografia humana, na Cidade do México e em Londres, respectivamente. Agora em Houston, ao sul dos Estados Unidos, ela dedica seu pós-doutorado ao aprofundado da vida de migrantes no país onde se concentra a maior parte deles, na região.

No entanto, sua própria experiência pessoal de migração vem de mais cedo, quando sua mãe decidiu estudar no Rio de Janeiro. Velasco tinha 4 anos e se alfabetizou no Brasil, embora não deixe de dizer que a “Cidade do México é a cidade dos meus amores”, país marcado pela realização de uma pesquisa etnográfica que a possibilitou conhecer as pessoas que tentam cruzar a fronteira rumo aos Estados Unidos. A sensibilidade aos sonhos ou necessidades dos outros foi eco da sua experiência familiar de migração. “La mirada es desde afuera, pero la comprensión es desde adentro”, disse.

Confira a entrevista com a Dra. Soledad Álvarez Velasco, realizada por Otávio Ávila (Diaspotics/UFRJ).

O Estrangeiro: Você afirma que as Américas são um continente construído pela mobilidade. Como a pandemia tem afetado essa geografia?

Soledad Álvarez Velasco: A pandemia afetou a geografia da mobilidade migrante nas Américas de várias maneiras e acredito que isso pode ser entendido analisando como a intensificação do controle da mobilidade na contenção da pandemia afetou a migração e seu ritmo.

Supõe-se que no primeiro estágio da pandemia, entre março e junho de 2020, centenas de migrantes que estavam em trânsito ou em procedimentos para regularizar seu status de imigração ficaram imobilizados temporariamente. Isso significou que nessa primeira fase pandêmica centenas de migrantes foram confinados em espaços intrafronteiriços de alto risco – em termos de saúde e de segurança integral – além da suspensão temporária dos procedimentos que deixaram as pessoas em um limbo jurídico porque as impediu de concluírem seus processos de regularização e solicitação de refúgio. Outro efeito nessa primeira fase da pandemia é que na grande maioria dos países ainda continua existindo uma tendência hipernacionalista, cujo apelo tem sido a defesa das sociedades nacionais e dos seus territórios. Portanto, exige-se que governos implementem e proponham todos os tipos de contenção do vírus, deixando de lado a população migrante, de modo especial os refugiados. Diante da excepcionalidade da saúde pandêmica, os governos passam a adotar medidas de controle muito mais complexas, fechando e militarizando as fronteiras.

É nesse primeiro momento da fase pandêmica que o controle se intensifica e, de certa forma, prepara o terreno para o que virá nos próximos meses em que se normalizou o hipercontrole da mobilidade, pois o migrante, já estigmatizado racialmente, por se tratar de uma população empobrecida e indesejada que chega de diversos países, passou a ser considerado um vetor de contágio do vírus. Entretanto, é importante mencionar que dado o abandono dessa população, as formas de proteção e auto-organização dos migrantes foram redobradas com o intuito de não pararem de se deslocar até chegarem a destinos mais seguros ou mesmo para poderem retornar aos seus países de origem.

OE: Você indica uma tensão inerente nas fronteiras dos países e que gera “imobilidades forçadas”. Este é um conceito interessante porque nos estudos em migração falamos mais de “mobilidades forçadas”. Quais os riscos que o impedimento de mobilidade traz às populações latino-americanas?

SAV: A mobilidade forçada é consequência da convergência de uma série de condições estruturais, desde projetos extrativistas, a mudanças climáticas e a vários tipos de violência, além de desigualdades absurdas existentes em nossos países que levam as pessoas a migrar. Já a imobilidade forçada é um processo que anda de mãos dadas com a mobilidade forçada, porque as políticas de controle também confinam os migrantes a interromper seu processo de mobilidade. Exemplo: a imobilidade forçada ocorre no confinamento compulsório em centros de detenção dentro de um projeto de vida móvel em um país de destino e isso se aplica não só aos adultos, mas também às crianças, como estamos vendo de forma extraordinária e lamentável nos Estados Unidos neste momento. A imobilidade forçada também ocorre quando, por exemplo, as fronteiras são fechadas e militarizadas, situação que força os migrantes a interromper seu percurso e permanecer em espaços abertos de confinamento, como na selva del Darién (que divide o Panamá da Colômbia). A rota que os leva até a fronteira entre os Estados Unidos e o México significa que os migrantes, muitas vezes, têm que esperar em depósitos e esses lugares também se tornam espaços de confinamento e imobilidade forçada. E, finalmente, a imobilidade forçada também ocorre como um efeito, por exemplo, dos longos tempos de espera de limbos legais causados ​​pela não resposta aos procedimentos do Estado, aos procedimentos de regularização para refugiados ou à resolução de asilo que exige que os migrantes às vezes fiquem parados em trânsito nas cidades até que eles possam reiniciar sua rota. Acho muito importante entender essa outra variável da mobilidade forçada porque a mobilidade e a imobilidade se constituem por uma relação dialética fundadora. Mobilidade não se entende sem imobilidade e nas Américas, em geral, essas formas de mobilidade forçada e imobilidade se proliferam e a pandemia é um momento extraordinário para dar conta de como isso está se produzindo.

Região de Darién. Imagem: BBC

OE: Você pesquisa e vive atualmente nos Estados Unidos e desde os atentados terroristas de 11 de setembro o mundo redobrou sua vigilância com tecnologias cada vez mais modernas e que invadem discussões éticas de liberdade e privacidade. Podemos afirmar que as populações latinas se tornaram os grandes alvos dessas táticas nos Estados Unidos de hoje?

SAV: Em termos de controle de fronteira global, o 11 de setembro foi um ponto de virada encabeçado pelos Estados Unidos, porque os ataques em 2001 e toda a sua magnitude e natureza espetacular lhes deram carta branca para estenderem a guerra contra uma figura muito problemática que é a do terrorismo. O cenário de guerra e dominação não era apenas sobre sua fronteira sul, mas a todo o mundo, pois a ameaça poderia vir de qualquer parte e, acima de tudo, poderia se esgueirar por suas fronteiras. Tudo isso configurou o planeta em termos de securitização migratória.

Também houve um efeito direto na dinâmica interna e externa em relação à população migrante que chega – vamos lembrar que é depois do 11 de setembro que a Homeland Security foi criada, assim como o seu braço operacional, a ICE – e é este braço encarregado pelo controle de fronteira, uma das instâncias com maior número de pessoal atuando, um dos maiores orçamentos, além de um complexo sistema prisional para deter e deportar migrantes. Isso nos faz entender que o 11 de setembro tornou as fronteiras mais tecnológicas ao adotar o controle biométrico como forma natural de determinar quem entra, embora depois desse marco tenha vindo uma série de ataques terroristas, como o da Estação Atocha, em Madrid, depois no Reino Unido e depois outros na França que sustentaram este argumento de uma virada securitária absoluta.

Portanto, não apenas os migrantes passam a ser alvo, mas se justifica a criminalização da migração, apesar de que: um (1) esses próprios países produzem regularmente os migrantes que dizem combater; e dois (2), porque isso é algo que nunca foi resolvido e de forma hipócrita nunca é posto na mesa, apesar de toda essa indústria monumental da securitização, do controle tecnológico e assim por diante. Ou seja, por um lado, esta economia requer força de trabalho regularizada, explorável e reportável para sustentar a economia política deste regime de controle; por outro lado, a requer para sustentar sua própria economia. A economia dos Estados Unidos não seria sustentada sem os 11 milhões de migrantes sem documentos que cruzaram a fronteira durante todos esses anos. Antes do 11 de setembro havia 5 milhões de indocumentados e hoje são 11 milhões, apesar de controles tão complexos, fortes e redobrados. Isso nos faz pensar que existe um duplo padrão, existe um duplo discurso. Aquela que opera para sustentar o controle e supostamente libertar os Estados Unidos da guerra ao terror e, portanto, reforçar seu papel hegemônico e global, e outro no qual há uma permissividade por parte do próprio controle de fronteiras em apoiar a força de trabalho para que se sustente a acumulação da maior economia do mundo.

OE: Há um olhar mais atento ao que vem acontecendo com migrantes menores de idade. Você afirmou que dos 178 mil migrantes detidos entre 2020 e (maio de) 2021, 19 mil eram crianças. O futuro desse conflito pelo direito de migrar terá cada vez mais a presença delas, não?

SAV: Até agora com Biden não existe uma política clara que reverta as políticas do legado cruel de Obama e da administração Trump sobre como lidar com a chegada de crianças migrantes desacompanhadas que vêm aos Estados Unidos para se reunir com suas famílias. E esse é um problema que o país vêm carregando desde a era Obama, quando se pavimentou o caminho para a criação dos centros de detenção de menores que chegam às fronteiras e isso foi brutalmente exacerbado por Trump que criou a política de “tolerância zero” e permitiu o encarceramento e a separação das crianças de suas famílias. Essa política separou 4 mil crianças desde 2008 e imaginam que apenas sete casos foram oficialmente reunificados.

Qual é o conflito por trás da chegada de crianças? Não podemos ignorar o atual fluxo massivo da América Central sem esquecer as intervenções que os Estados Unidos explicitamente fizeram durante as décadas de 1980 e 1990 nos países centro-americanos com intervenções diretas em sua autonomia nacional. Primeiro, esses fatores geralmente são deixados de fora da compreensão de uma crise muito profunda que atravessa a América Central e essa crise se deve ao fato de que as guerras passadas que desestabilizaram completamente a região foram iniciadas ou sustentadas pelos Estados Unidos. Segundo, os capitais econômicos extrativistas que deslocam as pessoas de seus territórios, que contaminam as terras para fins econômicos, as maquilas, toda essa extração de material e mão de obra são dirigidas para beneficiar, sobretudo, a economia “gringa”, novamente com o capital de empresas “gringas”, também têm um peso enorme em causar essa violência da pobreza e tamanha desigualdade.

O que está acontecendo desde 2014 é que cada vez mais crianças e adolescentes desacompanhados, ou apenas com suas mães, saem dos países centro-americanos em busca de um lugar digno para viver e eles vêm para a fronteira sul dos Estados Unidos com o desejo de cruzar e se encontrar, seja para se reunir com parentes ou para encontrar um lugar de asilo com seus pais. Há denúncias de crianças abusadas psicologicamente, outras que tentam suicídio. E o que vai acontecer no futuro? Que sociedade teremos no futuro enquanto milhares de crianças, que amanhã serão os adultos dessa sociedade, estão vivendo essas experiências de tortura e violência aberta normalizadas? E na nossa cara, ninguém se arrepende, ninguém responde, como que pelo simples fato de serem crianças não-nacionais possam ser condenadas a violências de guerra. Penso que devemos ter consciência disso porque não é apenas responsabilidade do país de destino, mas também e, principalmente, dos países de origem, é uma responsabilidade comum.

Famílias separadas no estado do Arizona, na fronteira sul dos Estados Unidos. Crédito: Democracy Now

OE: De modo geral, costumamos ouvir que quanto mais restrições fronteiriças, mais garantida é a segurança de um Estado. Essa visão da nação como uma propriedade privada ficou mais evidente e justificada com a covid-19. Como lidar com o perigo do vírus sem suspender o debate sobre o direito à migração e ao refúgio?

SAV: Este é um dilema que está no centro do momento contemporâneo pandêmico porque hoje o biocontrole está justificado sanitariamente e em um ano transformou a segurança das fronteiras. Aqui, eu acho que temos que ser claros sobre uma coisa: o controle de biossegurança e os mecanismos sanitários são impostos principalmente para travessias aéreas. Principalmente quando são travessias de fronteira, lá há controle de saúde, há um pedido de carteira de vacinação, testes de PCR, ou seja, a saúde está à frente como elemento que deveria estar salvaguardando um momento de pandemia, sem dúvida. Mas nas fronteiras terrestres, onde os viajantes são outros viajantes, é aí que estamos vendo o lugar da disputa e o lugar da guerra contra os migrantes. Nas fronteiras terrestres, o controle é militar e a resposta é belicosa. A resposta não é o pedido de vacina, o pedido de carteira de vacinação; a resposta que vemos e com imagens sangrentas de guerra foram a dos gases, cassetetes, prisões, deportações de forma extremamente violentas. As maneiras pelas quais o Estado responde, no mesmo contexto de pandemia, são muito diferentes e abertamente diferenciadas e hierárquicas em relação aos tipos de viajantes com um objetivo muito claro: parar, conter e desviar – e há casos de desaparecimentos e mortes, como efeitos colaterais dessas políticas contra os migrantes. Portanto, sim, é um momento de hipernacionalismo, de reforço da face do controle nacionalista do Estado, mas especialmente realizado no espaço de mobilidade terrestre.

OE: Na sua recente conversa com pesquisadores brasileiros, muitos vinham da área da comunicação social e uma das iniciativas do projeto (In)movilidad en las Américas é constituir um Mapa Polifônico por meio de mensagens de voz de migrantes. Qual a importância dessas novas tecnologias – que também são práticas de resistência – para a compreensão do que se passa no continente hoje?

SAV: O Mapa Polifônico busca construir um mapa das vozes dos migrantes de forma que eles sejam a voz viva responsável pelos efeitos e formas de resistência que estão tendo durante a pandemia. É um arquivo de vozes que permite ao público em geral ouvir, educar-se e compreender, a partir da voz do migrante, os conhecimentos que acumulou, as interpretações que gerou, as formas de compreender o tempo de espera, de trajetória, da pandemia; formas de compreender a solidariedade do migrante; as formas de compreender o que é ser migrante na América Latina e compreender os múltiplos tipos de violência, aquelas camadas de violência que devem enfrentar a partir de sua auto-organização, seu autocuidado, sua luta.

O Mapa Polifônico não é um elemento de resistência em si mesmo, é um trecho que você tenta mostrar para gerar uma contranarrativa como um todo, como todo o projeto o faz. Para compreender quem são os migrantes, como vivem, como sobrevivem e que, longe de serem vítimas, são sujeitos tremendamente politizados, com uma consciência crítica muito grande do presente, o que nos ajuda a compreender de forma lúcida a violência que nos escapam com uma solidariedade muito poderosa.

Homepage “Mapa Polifônico”- seção Brasil. Crédito: Projeto (In)movilidad en las Américas

Todas as plataformas de comunicação através das redes digitais do espaço digital são de enorme importância para podermos investigar etnografias digitais, coletar vozes, testemunhos, e arquivos como esses nos fornecem uma enorme oportunidade de divulgar contranarrativas críticas como as que queremos fazer. Mas ao mesmo tempo esses mesmos dispositivos podem ser usados ​​para controle. Esses mesmos espaços que são usados ​​por migrantes para gerar comunidades digitais de sobrevivência também são usados ​​como vigilância e como formas de identificação, especialmente nos Estados Unidos, onde já sabemos que a ICE localiza migrantes a serem detidos e deportados ao rastrear suas plataformas.

OE: Nos estudos migratórios temos feito um exercício semântico cotidiano. “Indocumentados” ao invés de “ilegais”, uma “crise” que não é de migração, ou mesmo a questão das “metáforas hidráulicas” que põe em xeque expressões que remetem a fluxos ou ondas migratórias como movimentos incontidos. Uma expressão utilizada por você chamou a atenção: “corredores migratórios”. Você pode explicar a preferência?

SAV: O uso do termo “corredor migratório” tem sido utilizado principalmente no corredor entre a América Central, o México e os Estados Unidos e tenta chamar a atenção para a confluência de três elementos fundamentais: mobilidade, controle e espaço. Por trás deste conceito, quero chamar a atenção para a tensão entre a mobilidade dos migrantes e o controle exercido pelo Estado, mas também por outros atores paraestatais, paramilitares, militares, humanitários e sociais. Essa tensão entre mobilidade e controle tem efeitos espaciais, produz e transforma espaços.

A partir desta chave analítica, pretende-se compreender como essa íntima e inextricável interrelação entre mobilidade e controle tem efeitos especiais, produz espaços e transforma espaços. O uso deste conceito tem, para mim, um sentido analítico e político de contestar o uso de um termo que vem de organizações internacionais e, em particular da OIM, usado de forma completamente despolitizada, pois utilizam o termo “corredores migratórios” sem nunca considerarem a tensão entre a mobilidade e o controle como espaços de disputa e de luta migratória. A OIM o define como um fluxo unidirecional entre um país de origem a um país de destino caracterizado pela acumulação de movimentos unidirecionais, ou seja, entre dois binários. Isso não é um “corredor migratório”, que são espaços de disputa e, longe de serem unidirecionais, envolvem movimentos circulares de ida e volta, com tempos de espera e tempos de travessia que reconfiguram a geografia das Américas.

OE: Um dos enfoques do projeto é observar a relação que o fechamento de fronteiras tem com projetos (hiper)nacionalistas seletivos. Como você avalia os resultados eleitorais desse período e as tendências políticas dos Estados americanos?

SAV: Assistimos recentemente as eleições nos Estados Unidos, no Equador e no Peru. Durante o período de campanha eleitoral nos Estados Unidos, a discussão sobre migração estava na pauta como um dos pontos prioritários e, de fato, uma das promessas de campanha do presidente Biden era humanizar o sistema imigratório nos Estados Unidos e reverter as políticas anti-imigrantes, de Trump. Por outro lado, nas eleições na América do Sul, o que vimos é o uso utilitário da figura da crise na Venezuela e da crise profunda que tem gerado um êxodo de pessoas representadas como “subcidadãs” e desumanizadas como uma parte que serve para antagonizar a esquerda e dizer aos seus: “se o seu projeto [político] de esquerda chegar ao meu país, vamos nos tornar a Venezuela”. E isso é terrível, um uso totalmente utilitarista para determinadas finalidades, como vimos nas campanhas eleitorais de [Guillermo] Lasso, no Equador, e no Peru, na campanha de Keiko [Fujimori] contra o professor [Pedro Castillo]. A migração sempre foi um trunfo eleitoral, tanto para um lado quanto para o outro, e em um momento de ressurgimento do fascismo de extrema direita, a migração é tremendamente útil para governos de direita redobrarem os discursos anti-imigrantes.

Em 2017, marcha contra a nova Lei de Migração (13.445/2017) que garantiria mais direitos aos migrantes.

OE: Quais desdobramentos vocês esperam do projeto (In)movilidad en las Américas? Vocês falam de uma desconstrução do mapa baseado na perspectiva crítica cartográfica. As fronteiras são os espaços ocultos da nossa geografia?

SAV: Estamos avançando na produção de muitos materiais de contranarrativas sobre a situação dos migrantes nas Américas. É um material muito rico que está materializado nos 21 arquivos digitais por país, nas mais de 17 conversações regionais, nos mais de 70 testemunhos de migrantes nos espaços de assembleias de migrantes que criamos. Todo esse riquíssimo material passa a requerer uma interpretação crítica que implica necessariamente a configuração de uma contranarrativa desde uma perspectiva crítica da geografia das Américas e que efetivamente implica a compreensão das disputas e conflitos transfronteiriços, as lutas e trânsitos dos caminhantes, trocheros, balseros, caravaneros que vão para o norte, que vão para o sul, que vão para o Caribe.

Tudo isso é uma vertente analítica e tudo isso nos permite gerar uma cartografia diferente das Américas, uma forma de remapear e gerar uma interpretação espacial diferente, justamente à luz da chave dos “corredores migratórios”, da articulação espacial que ocorre. Quero também entender como os espaços transnacionais digitais estão sendo configurados e reconfigurados e também os espaços transnacionais com outros tipos de circuitos e mobilidade dentro das Américas que conectam, por exemplo, o corredor norte com o corredor sul, ou o corredor a leste, ou o corredor para o Caribe. Todas essas interpretações estão pendentes e este é o desenvolvimento do projeto que esperamos ter em breve. Há uma necessidade de interpretação de todo o material que criamos e isso implica repensar como as Américas se reconfiguram espacialmente em um tempo de exacerbação da desigualdade, de mobilidade aérea e terrestre e essas hierarquias dos viajantes que transitam. Sem dúvida, isso implica gerar uma cartografia crítica que mostre aquelas lutas incessantes dos migrantes em grupos, em famílias, individualmente por adultos, crianças, mulheres, que vêm da América do Sul, Caribe, América Central, África, Ásia e que estão atravessando e transformando as Américas de forma muito acelerada no presente.