Cresci em Cuiabá achando que o mundo estava em outro lugar. O interessante, o diverso, o que valia a pena conhecer ficava fora do Brasil, no litoral, nas capitais do Sudeste, nos lugares que apareciam nos filmes. O interior do país era o avesso disso: isolado, fora do circuito, cidades repletas de história mas esvaziadas de relevância. Cresci achando que cosmopolita era um lugar, não uma disposição.
Precisei sair da ilha para enxergar a ilha. Ouvir com mais cuidado a história dessa terra extensa e reconhecer nela o que sempre esteve ali. Mato Grosso se fez, ao longo de séculos, pela presença de quem veio de fora: migrantes, povos de passagem, culturas que se cruzaram no meio do continente. Pouco fizemos, ainda, para contar essa história a partir daqui, para assumir que a vocação cosmopolita desse lugar não é algo a ser conquistado, mas algo que já lhe pertence.
Quando se pensa em diáspora brasileira, o imaginário vai para o litoral, para o Rio, a Bahia e São Paulo como entradas do mundo. Mas há um Brasil do interior que também recebeu o mundo, um Brasil onde a terra era abundante e pessoas vindas dos lugares mais improváveis foram chegando e ficando, construindo vida no cerrado com paciência e teimosia, sem que ninguém registrasse isso como o fenômeno que era.
Os libaneses são talvez o caso mais visível: famílias enraizadas, restaurantes, presença cultural que vai do almoço caro à banca de feira. Integraram-se sem desaparecer. Sulistas vieram atraídos pela terra barata e décadas depois transformaram o cerrado no coração do agronegócio brasileiro, numa conversão que teve custos altíssimos para o bioma e para as populações tradicionais, mas que também depositou aqui novos sotaques e costumes. E há histórias que chegaram de mais longe ainda. Um soldado norte-coreano que se recusou a continuar lutando numa guerra que não escolheu pediu uma nação neutra depois do cessar-fogo, passou pela Índia e foi parar em Chapada dos Guimarães. Tornou-se homem do campo, plantou, colheu, ficou. A história dele não virou monumento. Ficou guardada como tantas outras, na memória local, no espanto quieto de quem descobre que o mundo passou por aqui sem avisar.
Foi de fora que aprendi a ver o que estava aqui. E foi estudando o que acontece com quem migra que entendi, por outro ângulo, o lugar de onde vim.
A psicologia intercultural que me interessa começa dessa sensação inquietante. Tenho uma família materna muito enraizada no cerrado mato-grossense e uma família paterna que saiu do interior do Nordeste e andou por muitos outros chãos, parte estabelecida fora do Brasil, parte em Brasília. Clarice Lispector descreveu Brasília como uma cidade ainda sem o seu homem, terra de começo absoluto onde ninguém era de lá e todos chegaram de algum outro lugar para construir algo novo. Uma cidade que é, ela mesma, uma pergunta sobre identidade.
O que acontece com o sujeito que precisa se reinventar inteiramente, não apenas a língua, mas o solo sob os pés, os gestos, o modo de pertencer? Quais estruturas internas tornam possível essa travessia, e quais simplesmente cedem? E o que se passa, eticamente, quando a sociedade que recebe não reconhece no outro nem a necessidade nem o direito de ser recebido?
Essas perguntas têm espaço dentro da psicologia. Um dos seus principais indagadores, John Berry, pesquisador central no campo da aculturação, descreve quatro caminhos possíveis para quem migra: integração, assimilação, separação e marginalização. A marginalização é o mais devastador para a saúde mental. Acontece quando o sujeito perde o vínculo com a cultura de origem sem conseguir construir pertencimento na nova. Não há espelho em lugar nenhum. A chegada é tolerada mas não acolhida. É exatamente isso que a história de Mato Grosso mostra, repetida em camadas, cada geração chegando num chão que já não sabe bem o que é.
A hospitalidade daqui não nasceu do acaso. Nasceu de política, de um projeto que precisava de gente para legitimar a ocupação, para transformar território disputado em propriedade registrada. A terra foi oferecida como promessa e como instrumento. Quem veio recebeu chão. Não perguntou, ou não pôde perguntar, de quem era antes.
Antes de ser dada, já pertencia. Xavante, Bororo, Paresi, Bakairi, entre outros, construíram com esse território uma relação que não cabia na linguagem do documento ou da escritura. Foram os primeiros a aprender o que significa ter a terra nomeada por outros, vendida por quem não a herdou, apagada por quem chega com papel passado. O apagamento não foi acidente. Foi o mecanismo pelo qual a hospitalidade se tornou possível para uns e impossível para outros.
E foi nesse chão já marcado por desapossamento que chegou quem chegou sem documento, sem comunidade, sem narrativa reconhecível, e portanto sem proteção. O desapossamento não começou com eles. Entraram numa história que já estava em curso.
O que mudou é o valor do chão. A terra que se dava porque precisava de gente para ocupá-la agora vale demais para ser dada. É visada internacionalmente, negociada em escala que os próprios mato-grossenses não controlam. Quem migra hoje não encontra esse mecanismo antigo. Encontra periferia urbana, informalidade, uma cidade que nunca construiu outra forma de acolher.
O que me parece urgente é uma psicologia que chegue antes deste enterramento. Que entenda o silêncio não como ausência, mas como memória comprimida à espera de uma pergunta. Que acolher não é produzir assimilação, não é fazer o outro caber numa forma que já existia, mas criar condições para que a diferença exista sem que ninguém precise se tornar irreconhecível para ser aceito.
Para quem chegou sem chão, havia aqui quem já sabia o que era isso. Se isso criou solidariedade ou só sobreposição de silêncios é uma pergunta que Mato Grosso ainda não se fez em voz alta.






