Sou uma formiga. Os meus olhos são compostos, a minha visão é panorâmica. O que eu vejo é invenção. Uso o corpo todo.

Dia 47, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Nunca pensei que tornar-me estrangeira a mim seria tão fácil e tão difícil. Tão rápido e tão lento. Tornar-me estrangeira em meu próprio país.
Quando decidi me implicar enquanto pesquisadora no campo-tema dos estudos migratórios transnacionais, senti a urgência de me mover. Escutei que o primeiro passo do trabalho seria me deslocar e me descolar junto com a minha pesquisa. Decidi colocar o meu corpo à disposição do ofício. Então deixei a minha casa.
Cresci em um pequeno município na região noroeste do interior do estado do Paraná: Goioerê, ou Águas Claras, em caingangue. Deixei a cidade com 18 anos, rumo à Curitiba, capital paranaense. À época, escrevi uma canção, “Na Cidade”, documentando a minha estrangeiridade diante daquele novo espaço, que ainda não era um lugar. Ali eu me tornara uma formiga.
No decorrer da exploração daquele novo território, na escavação das ruas, avenidas e passagens, encontrei um atalho, um desejo: a pesquisa com pessoas em mobilidade humana. Tive a sorte de encontrar uma rede (Latour, 2012) ainda durante a graduação, o que me colocou em contato com diferentes processos de mobilidade, meus e também do Outro. Quando decidi sustentar a angústia de ser pesquisadora enquanto ofício e de ingressar na pós-graduação, escolhi o Rio de Janeiro como cidade-trânsito-destino. Decidi, inspirada em Glória Anzaldúa (2000), reivindicar o meu lugar de escritora-alquimista. Prometi a mim mesma que faria uma pesquisa corporificada. Decidi trabalhar com o corpo.
Mas o que é o corpo?
Donna Haraway (2000, 2016) nos ensina a pensar o corpo como “[…] uma entidade que implode os limites da pele […]” e como um “[…] dispositivo de processamento de informação, de comunicação, de composições heterogêneas […]”, como pontua Marini (2025, pp. 5-6). Em consonância, Moreira & Florencio (2025) explicam, ao citarem Kroeff, Gavillon e Ramm (2020), que “[…] o território de pesquisa não só compõe o campo-tema mas também o próprio corpo-território do pesquisador e daqueles com os quais ele pesquisa em conjunto. O campo […] encarna na pesquisa e no corpo que movimenta a pesquisa”.
Assim, se compreendemos a noção de corpo enquanto um território de encruzilhadas entre o Eu e o Outro, portanto entre Eu e o Mundo, podemos dizer que um corpo que pesquisa enquanto migra é um retrato do processo contínuo de territorialização-desterritorialização-reterritorialização da existência.
A ideia de formiga aparece aqui, em referência à Teoria Ator-Rede (Latour, 2012), quando compreendo o trabalho que o pesquisador realiza em seu campo como um ato de escavação do cotidiano e de si, de rearranjamento das redes de afeto e dos atores que compõem o seu desejo e a sua implicação com a pesquisa.
Retorno então ao meu lugar situado e me pergunto: o que então, sou eu? Sou como Arlequim (Serres, 1997), um continuum, um fluxo composto por retalhos? Sou uma formiga-estrangeira?
Dia 57, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Agora são 12h29. Ouço uma canção brasileira cantada com sotaque francês: “Bananeira”, uma obra musical composta por Gilberto Gil e João Donato, e interpretada usualmente por Bebel Gilberto. Dessa vez quem canta é Camille Bertault e Vanessa Moreno. Sorrio. Que grande coincidência. Penso nos fluxos transnacionais dos agenciamentos, penso nos produtos interculturais que vão e que vêm, penso no cerne do fenômeno que mobilizou o meu desejo pelo movimento e que me trouxe do Sul ao Sudeste. Quase respondo algumas perguntas, mas me recordo de que ainda não é tempo. Lembro-me de que sou escritora-alquimista, formiga-estrangeira. Trabalho com o corpo.

Fim
Ao dizer que deslocar é descolar, como imprimi no título deste texto, quero dizer que os fenômenos migratórios e identitários se relacionam dialeticamente. Penso que a migração implica não apenas o processo de atravessamento de fronteiras, mas também, o deslocamento e o descolamento de si. Migrar é habitar entre-lugares, negociar modos de existência e deparar-se com a alteridade.
Quando penso, então, sobre a relação entre mobilidade humana, identidade e existência, lembro de Hall & Woodward (2005), que compreendem o conceito de identidade imbricado ao de identificação e ao de diferença. Esses autores explicam que a identidade é uma categoria relacional, construída simbólica e socialmente, na interação com os processos de globalização.
Hall (1992) compreende a globalização enquanto pano de fundo da pluralização das identidades e da produção de diferenças. Segundo o autor, a globalização “(…) se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado” (p. 67). O teórico argumenta que, por conseguinte, a relação dialética entre o local e o global produz posições de identificação e desloca identidades, e que, nesse contexto, os movimentos migratórios revelam impactos da “compressão espaço-tempo”. A globalização cultural é, assim, desterritorializante em seus efeitos” (Bezerra & Alves, 2022 apud Hall, 2011). Um corpo que atravessa fronteiras é um agente (inter)cultural ou (inter)identitário (Haesbaert & Bárbara, 2009), cuja agência humana resulta em uma “trans-identidade”.
A despeito de tudo isso, eu, particularmente, não acredito em identidade. Acho cafona. Poderia facilmente substituir essa palavra por “processos de desinvenção”.
Fim. De novo.
Parece-me que esta prosa se tornou uma discussão metodológica de base psicossociológica, ou o desabafo de uma psicóloga que acaba de ingressar no universo da pós-graduação. Ainda não qualifiquei o meu projeto de pesquisa, tampouco coletei os meus dados. No entanto, sei que tenho carregado achados de pesquisa no meu corpo há, pelo menos, 8 anos.
Às vezes me dói pesquisar, porque pesquisar com o corpo é sustentar a ambiguidade da existência. Sei que existem caminhos menos dolorosos e que vou encontrá-los. Conto para vocês em dois anos.
Referências Bibliográficas
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, [S. l.], v. 8, n. 1, p. 229, 2000. DOI: 10.1590/%x. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 20 abr. 2026.
BEZERRA, J. B.; ALVES, H. C. Na EKO na EBA: o vai e vem da imigração: cotidiano, identidade e demandas de imigrantes africanos estudantes universitários. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 30, n. spe, e3073, 2022. DOI: 10.1590/2526-8910.ctoAO232630731.
HAESBAERT, R.; BÁRBARA, M. J. S. Identidade e migração em áreas transfronteiriças. GEOgraphia, v. 3, n. 5, p. 33-46, 2009. DOI: 10.22409/GEOgraphia2001.v3i5.a13398.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1992.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
HARAWAY, D. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: SILVA, T. T. (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 33-118
HARAWAY, D. Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press, 2016.
KROEF, R.; GAVILLON, P.; RAMM, L. Diário de campo e a relação do(a) pesquisador(a) com o campo-tema na pesquisa-intervenção. Estudos e Pesquisa em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 464-480, 2020. DOI: 10.12957/epp.2020.52579.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria ator-rede. Salvador: EDUFBA; EDUSC, 2012.
MARINI, Marisol. Naturezas e vidas multiplicadas: a propósito de como o corpo e a materialidade permitem à antropologia canibalizar a dicotomia natureza e cultura e suas correlatas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 31, n. 72, e720411, maio/ago. 2025.
MOREIRA, Mariana de Castro; FLORENCIO, Giovani. Com licença, Exu e abre-caminhos: por outros modos de conhecer e construir conhecimentos nas encruzilhadas psicossociais. ClimaCom, Campinas, ano 12, n. 29, dez. 2025. Disponível em: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/com-licenca-exu/. Acesso em: 20 abr. 2026.
SERRES, Michel. The Troubadour of Knowledge. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1997.
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