
A Colômbia se destaca como um exemplo global de construção da paz em meio a conflitos armados. Seu processo de paz, em meio à tensão, deve servir de lição para o atual contexto global de bombardeios ligados ao controle do petróleo, dos nacionalismos exacerbados e da xenofobia mundial.
O dia 9 de abril foi instituído como Dia Nacional da Memória e Solidariedade às Vítimas pela Lei 1448 de 2011 da Colômbia. A data comemora o assassinato do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán e os eventos do Bogotazo, como um reconhecimento institucional das vítimas do conflito armado e da importância de preservar sua memória.

Na quinta-feira, 16 de abril deste ano, o Dia Nacional da Memória e Solidariedade às Vítimas do Conflito Armado na Colômbia (9 de abril) foi comemorado pelo Consulado Geral da Colômbia no Rio de Janeiro com a exibição do filme “La Suprema”, como parte da mostra de filmes colombianos organizada pela Embaixada da Colômbia no Brasil.
O evento ocorreu no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, localizado na Rua Visconde de Ouro Preto, 62, no bairro de Botafogo. Na ocasião, o diretor do Instituto Cervantes, José Vicente Ballester Monferrer, agradeceu a presença de todos, previu um longo período de colaboração com o Consulado da Colômbia no Rio de Janeiro (que reabriu há um ano) e reiterou que o Instituto é um lar para todos que compartilham a língua espanhola, como afirmado no vídeo de abertura.
“Uma língua que nos inclui. Uma língua que torna a diversidade universal. […] Onde falantes de quíchua, catalão ou aimará podem se encontrar. Onde essa identidade compartilhada tem um nome: espanhol.” A Cônsul Geral da Colômbia no Rio de Janeiro, Diana Carolina Páez Gamboa referiu-se ao conflito armado “que deixou mais de 9 milhões de vítimas registradas, incluindo um elevado impacto sobre mulheres e crianças, que enfrentaram deslocamento, violência e múltiplas dificuldades que demonstram a necessidade de reparações abrangentes com uma abordagem diferenciada. […] Milhares de vítimas do conflito colombiano encontram-se no estrangeiro, muitas exiladas, enfrentando desafios de integração, acesso a direitos e reconstrução das suas vidas, o que sublinha a necessidade do seu reconhecimento e apoio no âmbito das políticas de reparações abrangentes.”
Diana Carolina Páez Gamboa destacou que “os consulados colombianos desempenham um papel fundamental na assistência às vítimas no estrangeiro, incluindo a coleta de depoimentos para registo, o fornecimento de orientações sobre os serviços de apoio disponíveis e o trabalho em coordenação com a Unidade de Atenção Integral e Reparação às Vítimas (UARIV), facilitando o acesso à assistência e às medidas de reparação e o reconhecimento dos seus direitos.”

A Cônsul enfatizou que “a Comissão da Verdade contribuiu para o reconhecimento das vítimas ao reconstruir a memória histórica do conflito, incluindo as vozes daqueles que viveram no exílio, e ao promover a verdade como base para a reconciliação e a não repetição”.
Páez Gamboa convidou a Dra. Catalina Revollo Pardo para um diálogo antes da exibição do filme. A acadêmica convidada, vice-líder do Grupo de pesquisa Diaspotics/ UFRJ/CNPq e professora do Programa de Pós-Graduação EICOS e do Instituto de Psicologia da UFRJ, que participou da elaboração do capítulo sobre vítimas no exterior no relatório da Comissão da Verdade.

A Dra. Revollo Pardo afirmou: “As vítimas na Colômbia e no exterior não são simplesmente resilientes; são lutadoras, empenhadas em construir uma nova existência. A resiliência se adapta ao contexto, revive e luta pela transformação. Agora, essa nova re-existência vai muito além, visando reconstruir e criar um país onde possamos realmente viver juntos em paz.”
“A principal lição da capacidade de se reerguer, de re-existir em todos os níveis quando se é desenraizado de sua terra natal, especialmente para aqueles que foram vítimas do conflito social, político e armado colombiano, é que isso apresenta desafios completamente diferentes em comparação com outros migrantes e refugiados ao redor do mundo. Isso nos força a pensar e a nos compreender a partir de outros vieses.”
“Gostaria de compartilhar uma breve experiência pessoal sobre o que me aconteceu enquanto trabalhava com vítimas de deslocamento interno na Colômbia. É importante entender que, em nosso país, em meio à guerra e a um contexto global, muitas vítimas migraram. Mas a migração colombiana em larga escala — uma das maiores do mundo e da América do Sul, mesmo antes da migração massiva de nossos irmãos e irmãs venezuelanos — foi a maior em termos de número de imigrantes. Este é um fato tão sério e importante que todos nós somos afetados por essa situação de sermos vítimas, mesmo estando no exterior. No entanto, quero enfatizar que a re-existência contínua de vítimas na Colômbia jamais poderá ser comparada à migração voluntária — obviamente, o conflito também motivou a migração voluntária —, mas jamais poderá se aproximar verdadeiramente das experiências de cada indivíduo e de cada família. Isso é uma homenagem, pois as vítimas na Colômbia e no exterior nos ensinaram que essa re-existência contínua nos levou a reavaliar o conceito de vítima.”
“Quando se fala desse assunto aqui no Brasil, as pessoas dizem: ‘Que horror, o dia das vítimas’, soa exagerado. Mas precisamos explicar que não, na Colômbia, ser vítima é ser uma pessoa poderosa. É ser uma força coletiva que luta e reinventa o país. Essa é a principal lição das vítimas, tanto na Colômbia quanto no exterior: a possibilidade de reexistir, e isso nos permite, coletivamente, reexistir na construção de um novo país.”
“O que impressiona são as estratégias cotidianas construídas nos níveis doméstico, profissional, comunitário, político e estrutural para nos posicionarmos como nação fora do país. Isso levou à compreensão de que a Comissão da Verdade existe porque faz parte do acordo, porque as vítimas pressionaram fortemente por sua criação. Dessa articulação coletiva de todo o processo com 9 milhões de vítimas — das quais não podemos esquecer aquelas que ainda estão vivas em decorrência do nosso conflito sociopolítico, econômico e armado, a maioria migrantes —, as vítimas que já faleceram infelizmente permaneceram nos territórios, e as sobreviventes estão em movimento, seja internamente ou internacionalmente.”
Construção da Memória
A professora visitante Catalina Pardo, do Instituto de Psicologia da UFRJ, afirmou: “As pessoas que participaram da Comissão da Verdade narraram suas experiências, mas a Comissão também facilitou a reconciliação e promoveu momentos de encontro e perdão, tanto públicos quanto privados. Isso gerou estratégias inovadoras dentro das comissões da verdade que historicamente existem em todo o mundo.
“Outro ponto crucial que esse processo trouxe para a construção da memória histórica internacional é a importância central da vítima como força transformadora para o país. O coletivo e o individual se posicionam como atores políticos, pensadores e agentes de mudança, para gerar um novo processo para o país que nos permita existir. Nesse sentido, é importante destacar que a Comissão da Verdade inovou e problematizou o conceito de paz. Fomos uma Comissão que trabalhou com um conflito social, político e armado que não terminou. Isso é algo sem precedentes. Outras comissões da verdade ao redor do mundo (Marrocos, Peru, El Salvador) foram geralmente convocadas e instauradas no contexto do fim de um conflito para reunir a memória histórica. No mundo atual, vivenciamos uma nova ordem com certas dificuldades globais, e é importante considerar se, em meio ao conflito, existe a capacidade de vislumbrar outros caminhos, de construir a paz”.


