Jobana Moya Aramayo é uma integrante da nação quéchua, um povo de aproximadamente 12 milhões de pessoas distribuídas principalmente entre Peru, Bolívia, Equador, Chile, Colômbia e Argentina. Nascida em Cochabamba, na Bolívia, em 2007 migrou para o Brasil e desde então vive em São Paulo. Na capital paulista construiu uma nova vida, atravessada pelo ativismo e pelo amor: casou com um brasileiro e teve duas crianças: a adolescente Wayra, que leva o nome em quéchua para a palavra “vento”, e o menino Fernando Osvaldo.

Militante pelos direitos dos migrantes, das mulheres e dos povos originários, fundou em 2013 a “Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas”, uma organização de mulheres migrantes que promove os direitos humanos, a interculturalidade e o combate à discriminação e a todas as outras formas de violência. A Warmis atua em diferentes frentes, como na organização de grupos de estudos, na produção de obras literárias de caráter humanista e em outras atividades que promovem a valorização da diversidade cultural.

Em 2023, foi lançada em parceria com a Saíra Editorial a coleção bilíngue “De cá, lá e acolá” / “De acá, allá y acullá”, com cinco livros infantis, produzidos por cinco mães migrantes e ativistas, que abordam questões fundamentais para as experiências de vida das crianças migrantes e/ou filhas de estrangeiros: interculturalidade, valorização da diversidade e convivência com as diferenças.

O livro “Huáscar, seus cabelos e as raízes”

Uma das mães que participou da coleção foi justamente Jobana, que decidiu criar uma história baseada nas vivências do filho na escola em São Paulo. Ela lembra que suas duas crianças, mesmo tendo nascido no país, sofreram diversos episódios de discriminação, seja por conta do tom de pele, dos traços indígenas, pelo hábito de falar em espanhol ou por adotar algumas práticas culturais que não são predominantes no contexto brasileiro, como o uso de roupas típicas da região dos Andes. O garoto, que para seguir os costumes quéchua, usava o cabelo longo, era ainda mais hostilizado. Foi então que surgiu a ideia de criar a história do menino Huáscar, um garoto de seis anos que usa os cabelos longos e, mesmo com comentários maldosos na escola e na rua, se recusa a cortá-los.

O personagem, que leva o nome de um imperador Inca, foi construído baseado na história do filho. Na cultura quéchua, o cabelo comprido é dotado de imensa potência, sendo associado à coragem, sabedoria, beleza, resiliência, vitalidade e a algo tão grandioso quanto os raios solares. Sabendo disso por conta da mãe, Fernando Osvaldo sempre quis ter os cabelos longos, mesmo sendo chamado de “menina” pelos colegas.

A genitora queria que ele cortasse o cabelo, mas Fernando não aceitava. Tão jovem, mas forte como o sol, desejava se afirmar como pertencente à nação quéchua, e seu bonito cabelo era o melhor instrumento para isso. Então deixou ele grande até sofrer um episódio de violência física, quando Jobana se viu no dever de obrigar o filho a cortar o cabelo, o que foi um trauma para ambos. Hoje, quando pensa sobre ter colocado essa história no papel, ela afirma: “Este livro foi algo para sanar o que aconteceu”.

A obra é uma sensível declaração de amor à afirmação identitária. Se a cultura é algo que se transmite entre as gerações e através de produções culturais, a literatura infantil pode ser uma ótima ferramenta de promoção do orgulho e do pertencimento: “Os filhos de migrantes estão também procurando suas raízes”. No caso dos de Jobana, nascidos no Brasil, entendem suas individualidades atravessadas por cruzamentos entre o Brasil, a Bolívia e o Quéchua.

Outro ponto fundamental do livro é que ele transpassa a questão migratória. A história do menino de cabelos longos também discute temas fundamentais, como o racismo, a xenofobia, o sexismo e o machismo, que afasta o gênero masculino da prática de reconhecer e sentir as emoções. A ideia é que ele seja lido não somente por crianças de ascendência quéchua e indígena, mas também brasileiros que não compartilham essas origens. Assim, “Huáscar, seus cabelos e as raízes” pode ajudar a promover uma sociedade mais harmônica e inclusiva, que entenda a diferença como algo valioso.

Nesse sentido, diferentes eventos estão sendo organizados para estimular esses diálogos. Há alguns anos, Jobana esteve no evento “Abril Literário”, em Garulhos, onde diversas escolas da cidade estiveram presentes. Nele, o livro foi lido em público, o que agradou professores e demais profissionais da educação. Os docentes ficaram felizes com a possibilidade de poder, a partir da arte, trabalhar com temas diversos; e posteriormente a obra foi levada para vários colégios de São Paulo. Em breve, ela também irá aos SESCs de Santo Amaro (dia 03 de maio, às 13:30hs) e São José dos Campos para prolongar essas conversas.

Quando perguntada sobre como se sente com o livro circulando entre o público infantil e adulto, Jobana se diz realizada. A obra bilíngue estimula as crianças a praticar o espanhol, além do português. Um sonho é fazer uma edição em quéchua, idioma que tem estudado com os filhos. Por muitos anos, a mentalidade colonial introjetou na população boliviana um afastamento em relação ao quéchua e aos demais idiomas originários;  e assim ela não pôde estudar o idioma na escola em Cochabamba. Agora, junto com os dois filhos, tem descoberto a língua dos seus antepassados.

O pequeno Fernando Osvaldo, inspiração para a criação do livro.

Jobana lembra ainda que o processo de escrita não foi fácil, pois lidou com traumas e temas difíceis. Pensou em desistir, mas uma amiga que estava acompanhando a produção da obra disse: “Se eu tivesse lido esse livro quando criança, muita coisa teria sido diferente”. Ali, ela entendeu que o livro não é somente sobre as vivências de seu filho, mas reverbera em muitas outras histórias similares. 

Serviço

Livro “Huáscar, seus cabelos e as raízes”.

Onde comprar: https://www.sairaeditorial.com.br/produto/huascar-seus-cabelos-e-as-raizes/