Coluna semanal sobre o risco e a alegria de migrar. 

Têm algumas perguntas que eu ouço há anos, de formas e pessoas diferentes, em distintas cidades, por exemplo: 

“Tal lugar é confiável ou seguro?”

E às vezes essa pergunta surge em grupos de expatriados, migrantes ou brasileiros em outra cidade. Pergunta-se sobre confiança onde não se construiu confiança, para pessoas desconhecidas. 

Essa pergunta permeia a migração voluntária, o viajante e a migração involuntária. O ato de atravessar fronteiras interculturais requer o embate com o desconhecido e nós viajantes optamos por esse movimento quase como um ímpeto espiritual de autoconhecimento, desafio ou qualquer outra coisa limítrofe entre fé e psicanálise, entre o cético e o totalmente holístico. 

Ninguém pergunta isso quando está bem estabelecido. Essa pergunta vem de quem está no meio, nem aqui nem lá, nem de chegada nem de partida. Vem de quem mora fora mas ainda sonha em português. De quem voltou para o Brasil depois de anos e descobriu que também se tornou estrangeiro em casa.

Vem, muitas vezes, de mim.

Na minha cidade e fora dela também. 

Há três anos venho trabalhando com interculturalidade e hospitalidade. Fiz isso através de caminhadas culturais, de encontros, de escuta, além de ser viajante e já ter migrado.

Nesse processo aprendi que o choque cultural raramente é sobre idioma ou burocracia. Ele é sobre os códigos invisíveis. A fila do supermercado que não funciona como você esperava. A reunião que começa com meia hora de atraso e ninguém acha estranho. O silêncio que, dependendo do país, significa concordância ou desconforto. O jeito de ser apresentado a alguém que define se você vai conseguir trabalho ou não.

Esse processo me faz pensar em um Mapa da Presença Relacional que tem sido tecido aos poucos como metodologia de hospitalidade.

São esses detalhes que me interessam.

Raiz Estrangeira nasce para guardar esses relatos, os meus e os de quem topou me contar os seus. 

Foto por: Wolf Art.
Disponível em: https://www.pexels.com/photo/close-up-of-tree-branches-16722577/ (Acesso em: 30/04/2026).

Vai ser uma coluna de crônicas. Curtas, às vezes incômodas, sempre baseadas em realidade migrante. Com alguma reflexão, mas sem manual de como resolver.

Porque pertencimento não tem manual.

Tem história. E a história, quando contada direito, faz alguém em algum lugar pensar: ah, então não sou só eu.

Essa coluna é para esse alguém.

Seja bem-vindo à Raiz Estrangeira.

*Textos escritos a partir de experiência vivida e memória. Recursos digitais podem contribuir pontualmente na forma, não no conteúdo.*