“As sociedades parecem sempre precisar de um bode espiatório.” Essa frase sintetiza a apresentação do sociólogo Andrea Rea, professor na Universidade Livre de Bruxelas, no Salão Dourado da UFRJ nesta segunda-feira (27/04).

Recebido pelo DIASPOTICS, o professor apresentou os desafios sobre a imigração na Europa. Além de apresentar um estudo embasado sobre a evolução dos discursos a respeito de imigração no continente, demonstrando preocupação com o avanço de uma extrema-direita que busca preservar uma suposta “identidade branca e unificante”, Rea falou de sua própria experiência como descendente de italianos na Bélgica.
Relatou ter sofrido xenofobia e preconceito por parte dos belgas quando mais novo e, no decorrer da vida, notou que esse ímpeto discriminatório foi gradualmente transferido para outros grupos: africanos, muitas vezes de Marrocos ou de ex-colônias belgas, como Congo e Ruanda, além de chineses e pessoas da América Latina.
Num continente em que a vinda de 1,5 milhão de sírios é vista como uma “crise migratória” e a recepção de mais de 6 milhões de ucranianos como uma “causa humanitária” (com 4,2 milhões deles recebendo proteção temporária), os discursos midiáticos sobre imigração parecem atuar por uma lógica de “dois pesos, duas medidas”. A Europa que acolhe e integra quando há um interesse econômico e político, é a mesma que ataca e segrega quando se sente ameaçada pelo Estrangeiro — o eterno bode expiatório.

No Brasil, temos uma relação complexa com a estrangeiridade. Enquanto o país se construiu pela estrangeiridade, se apresentando como “(…) um laboratório vivo das possibilidades de identidade hifenizada (…)” (Elhajji, 2023, p. 45), em que nipo-, sírio-, ítalo e luso-brasileiros frequentam as mesmas ruas, praças e cidades em relativa harmonia, o próprio gentílico “brasileiro” parece remeter à noção de trabalho (pedreiro, bombeiro, engenheiro), sugerindo que não passamos de trabalhadores em um país que nunca foi realmente nosso.
Ainda assim, por mais que para muitos brasileiros a única saída para o país seja o aeroporto, para muitos venezuelanos, haitianos e congoleses, ele é um espaço de refúgio (ainda que, muitas vezes, temporário).
Após a palestra, fomos conhecer um pouco mais desse Brasil estrangeiro e ignorado. O DIASPOTICS levou o professor Andrea Rea para a Zona Norte do Rio, área conhecida por seus subúrbios historicamente povoados por imigrantes, desde os poloneses como Leonard Kaczmarkiewicz (1882-1960, o “Alemão” que viria a dar o nome ao Morro) e Samuel Rawet (1929-1984, aclamado ficcionista conhecido por retratar o subúrbio carioca) a comunidades expressivas de congoleses e venezuelanos hoje em dia.
Na Tijuca, visitamos a sede do Abraço Cultural, ONG focada na inclusão econômica e social de imigrantes e refugiados através de aulas de idiomas e trocas culturais. No Maracanã, conhecemos o Centro da Cáritas, rede de solidariedade da Igreja Católica que atua na defesa dos direitos humanos que realiza atendimentos no Brasil desde os anos 1950 e no Rio de Janeiro desde 1976, iniciando um trabalho pioneiro no acolhimento de imigrantes e refugiados na cidade.

