No dia 23 de abril, um ato importante aconteceu para o campo dos estudos migratórios no Brasil: foi lançado o livro “História e Busca Identitária, seguido de uma entrevista com Hassan Arfaoui”. A obra integra um projeto ainda maior: a instituição da Biblioteca Abdelmalek Sayad, iniciativa que “[…] surge com a ambiciosa tarefa de reinserir a obra e o pensamento do sociólogo argelino Abdelmalek Sayad (1933-1998) na academia brasileira” (DIAS; PEREIRA; BÓGUS, 2026, p. 13).

O evento aconteceu na PUC-SP e recebeu os professores Gustavo Dias (Unimontes), Lúcia Bogus (PUC-SP) e Mohammed ElHajii (UFRJ), além do padre Paolo Parise (CEM). Na ocasião, o Prof. Dr. Mohammed ElHajii, estudioso e interlocutor de Sayad, foi convidado a incitar o diálogo através de uma comunicação filosófico-reflexiva, no formato de palestra, articulando a vida e a obra de Sayad com o campo das migrações transnacionais contemporâneas.

Prof. Dr. Mohammed ElHajji é Professor Titular da UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa em Migrações Transnacionais e Comunicação Intercultural (DIASPOTICS). O palestrante iniciou a fala situando-se como um sujeito cuja cotidianidade está permeada pelo movimento: “[…] quando eu acordo de manhã, estou pensando na migração. Quando eu estou almoçando, eu penso na migração. Quando eu recebo um WhatsApp, geralmente é sobre a migração […]” (oestrangeiro.org, 2026, 5min18s-5min26s). ElHajji localizou, assim, a sua implicação afetiva entrelaçando vida, trabalho e fenômeno migratório, abrindo caminhos para aquilo que seria, mais tarde, um dos pontos centrais de sua fala: o fato de que “toda grande obra científica nasce de um encontro singular entre um sujeito, um objeto e um momento histórico”. O palestrante explicou que a sociologia de Abdelmalek Sayad revela essa relação; uma interação implicada do autor com o seu campo, uma vez que Sayad “não apenas estudou a migração argelina para a França: ele habitou, viveu e carregou a experiência migratória no corpo, na língua e na formação social, humana e intelectual”.

ElHajji organizou a sua fala em três momentos, amarrando passado, presente e futuro, numa ordem dialética. O palestrante ressaltou a atualidade da obra de Sayad para os estudos migratórios contemporâneos, contextualizando a produção do autor no cenário das migrações argelinas para a França, e depois explicando que as constantes epistemológicas de Sayad oferecem suporte para a compreensão da problemática migratória em sua totalidade e universalidade.

O palestrante retomou alguns dos conceitos centrais da obra de Sayad (identidade, duplicidade e dupla ausência, espaço nostálgico, desenraizamento, nacionalismo metodológico, não-nacionalidade e ghorba, por exemplo), destacando a potência da produção teórica do autor, que apresenta gramáticas passíveis de (re)conjugação na atualidade.

Para Sayad, a migração é um fato social total. O fenômeno migratório demanda, então, uma análise pluridimensional e transdisciplinar, que inclua sociologia, história, economia, política e psicologia. Em Sayad, a migração aparece como uma “ruptura histórica que reconfigura a identidade enquanto construção fraturada, e a memória enquanto campo ambíguo de resistência e ilusão”. Nessa perspectiva, a memória demarca uma condição existencial de cisão no mundo e a busca por identidade surge como uma resposta subjetivamente necessária. A memória é, assim, central na obra de Sayad, porque ela aparece como a possibilidade de produção de sentidos, de subjetivação e de modos de vida: o sujeito migrante vive in-between, entre aquilo que deixou no lugar de origem e aquilo que poderia ser, e aquilo que está no devir, no poder-ser, no lugar-destino. A possibilidade de retorno está assim, sempre presente no horizonte de possibilidade desse sujeito que se desloca.

Caminhando para o encerramento da palestra, ElHajji articulou as categorias de análise supracitadas com o contexto migrações transnacionais contemporâneas, em que o sujeito em deslocamento possui a possibilidade de se conectar com o lugar de origem em sua cotidianidade, mediante as comunicações digitais. Para o palestrante, pode-se dizer que a dupla ausência se transforma, assim, em dupla presença, uma vez que há a possibilidade de da coabitação de espaços, relações, sentidos e projetos existenciais, simultaneamente.

Nesse sentido, ElHajji reforçou que a análise da migração argelina conduzida por Sayad apresenta pistas para migrações de outros tempos e geografias. Assim, ElHajji conclui que “[…] ao restituir ao migrante sua história e sua voz, a obra de Sayad não fecha o debate. Ela o abre, indefinidamente, para todos os que ainda estão por vir”.

Referências Bibliográficas

SAYAD, Abdelmalek. História e busca identitária: seguido de uma entrevista com Hassan Arfaoui. Organização: Gustavo Dias; José Carlos Pereira; Lúcia Bógus. São Paulo: Centro de Estudos Migratórios (CEM) / Missão Paz, [s.d.]. Disponível em: <link>. Acesso em: 5 maio 2026.

O ESTRANGEIRO. [A Obra de Abdelmalek Sayad entre o Particular, o Constante e o Variável]. YouTube, [ano]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pcpLw-VEoA8. Acesso em: 5 maio 2026.

RORTY, R. Contingência, ironia e solidariedade. São Paulo: Martins, 2007.