
Nasci na Alemanha. Passei anos da minha vida dizendo que não.
Minha mãe é alemã. Meu pai é brasileiro.
Cresci em escolas onde meu corpo, minha identidade, não cabiam em lugar nenhum.
Viajei pela primeira vez sozinha, tentei uma espécie de mímese com as pessoas locais, ou talvez ser uma estrangeira que não se sabe bem da onde veio.
Quando descobriam que eu era alemã, eu sentia como uma ofensa.
Fui pra França fazer faculdade. Minha segunda língua é francês. Passei a dizer que era francesa.
Era mais fácil.
Aos 35 anos decidi conhecer o Brasil. A metade de mim que eu nunca tinha deixado existir.
Mas qual cidade?
Rio parecia intenso demais. Floripa parecia pequena demais. SP parecia impossível de começar.
Desembarquei no Rio. Fui para São Paulo. Cheguei no terminal Barra Funda. Caos, apesar do caos, parecia Berlim, na América Latina.
Caos.
Não era Berlim, era meu olhar contaminado de quem eu sou, sem a possibilidade de ver onde estou.
Eu via o caos.
Voltei para o Rio. Fui para Salvador. Voltei para São Paulo.
Entrei numa padaria, comi um pão de nata. Lembrei do sul. Sul do Brasil. Uma parte de mim tava ali. Bebi uma cerveja alemã. Senti o mundo.
Comprei um ticket de metrô. Multidão.
Segui uníssona a ela para a linha amarela. Eu, 50, 100 pessoas. organizadas.
Lembrei do curitibano Leminski: “Em meio a um mar de gente, deixei pra trás meu passo a frente.”
Não continuo a perseguir o meu lugar. Essa pergunta já não importa.
Cheguei na linha amarela. Sento. Saio da estação e caminho.

