Após oito meses na capital brasileira como voluntário da ONU no PNUD — celebrando 2026 como Ano Internacional dos Voluntários —, finalmente me encontrei comigo mesmo. Decidi usar a cultura jornalística para dialogar com os leitores e celebrar o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento neste 21 de maio. Nessa jornada, aprendi muito com a trajetória de Silvia Rucks, Coordenadora Residente da ONU no Brasil, que me ensinou a ter esperança, ser resiliente e enfrentar as dificuldades dessa travessia para chegar Al Otro Lado Del Río, como a canção de Jorge Drexler, que neste momento está no Brasil para apresentações. Silvia teve uma vida inteira dedicada aos direitos humanos, ao meio ambiente, à democracia, inclusão, erradicação da pobreza e busca contínua pela Paz. Esse meu ciclo valioso de aprendizado se alinha perfeitamente à Agenda 2030 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Como nunca esquece a sua nascente, o rio encontra força para não brigar com as pedras, e sabedoria para criar caminhos e seguir adiante. Este novo provérbio nasce da confluência entre as águas de diferentes sabedorias ancestrais.

Imagem gerada por Inteligência Artificial

Eu moro em Brasília, esta cidade também é minha aldeia. O verso ecoa enquanto caminho pelas trilhas do Parque Olhos D’água, na Asa Norte, em pleno Pôr do Sol — hábito que cultivei em substituição às caminhadas pelo Arpoador, na Praia de Ipanema, no Rio, com vista para o Morro Dois Irmãos. No Recanto Olhos D’água, sento-me em bancos de madeira para contemplar a Lagoa do Sapo. O espelho d’água reflete o céu azul, alaranjado e rosado, as nuvens brancas e a vegetação do Cerrado, enquanto os pássaros ensaiam cantos como uma orquestra da natureza. É nesse cenário que a diversidade se revela, com pessoas de todas as regiões do Brasil e do mundo cruzando as Trilhas da Mata, do Sol e do Cerrado.

Neste Dia da Diversidade, presenciei um maravilhoso encontro imaginário naquele recanto mágico com um mosaico de cinco almas de tempos e mundos diversos. Observando pequenos conflitos cotidianos nas trilhas, reflexo das brigas entre vizinhos nas superquadras, o filósofo Michel de Montaigne abriu o debate: “Cada ser humano traz em si a forma inteira da condição humana”, defendendo a profunda necessidade de mais tolerância. Ao seu lado, Machado de Assis limpou seus óculos e emendou: “A vida é uma Babel; cada um de nós vale por uma nação”. Diante de uma capital erguida por migrantes de todos os estados, Machado questionou a falta de paciência e diálogo nas trilhas da vida.

António Guterres, Secretário-Geral da ONU, notou que essas intolerâncias cotidianas espelham as guerras pelo planeta: “O mundo tem sofrido muito pela falta de diálogo e desrespeito às diferenças”, ponderou Guterres. “A maior parte dos conflitos ocorre devido ao baixo diálogo intercultural. A cultura é a flor do ser humano — fruto de nossas mentes, produto de nossas tradições e expressão de nossos anseios. A sua diversidade é maravilhosa, parte do rico entrelaço da civilização. As sociedades hoje são multiétnicas, multirreligiosas e multiculturais. Isso é uma riqueza, não uma ameaça. Precisamos garantir que cada identidade cultural seja respeitada”.

Márcia Kambeba, escritora, poeta e guardiã da memória de seus ancestrais da floresta, trouxe a cosmovisão indígena dos povos da Amazônia, contemplando a beleza e a importância da diversidade: “O Cerrado sobrevive porque cada planta, cada nascente e cada animal cumpre o seu papel na teia da vida. A nossa história não é diferente. A diversidade cultural é tão necessária para a humanidade quanto a biodiversidade é para a natureza. Proteger a nossa cultura é, portanto, proteger a dignidade humana.” Malala Yousafzai, a jovem ativista paquistanesa que desafiou fronteiras pelo direito à educação, observou uma menina sorridente lendo um livro na sombra de uma árvore frondosa, perto do Mirante da Lagoa dos Sapos. E com a força serena que rege sua busca pelo desenvolvimento inclusivo, concluiu: “A diversidade garante que crianças possam sonhar, sem colocar fronteiras para o futuro delas.”

Um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente. Todos sorriram suavemente com os olhos marejados transformando-se em “olhos d’água”. A celebração do Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento — instituído em 2002 pela Assembleia Geral da ONU após a aprovação da Declaração Universal da UNESCO de 2001 — existe para nos lembrar exatamente que a riqueza não está na cópia, mas no contraste. Celebrar essa data é reconhecer que, apesar de todas as nossas diferenças, fazemos todos parte da mesma humanidade. O sol começou a se deitar no horizonte, pintando o céu com uma mistura de cores que, individualmente, jamais teria o mesmo impacto. O outro, com suas tradições, línguas e artes, nunca será uma ameaça. Ele é uma cor indispensável para completar o arco-íris da Diversidade Cultural — símbolo máximo, universal e perfeito da inclusão e coexistência em harmonia.