Texto da coluna Raiz Estrangeira, por: Fernanda Paixão

Ver o Brasil de fora. Foi a primeira coisa que ouvi de um amigo viajante ao sair do Brasil pela primeira vez.

Destino: Uruguai – Argentina – Chile. Mochilão Latino Americano. Viajar pela América Latina é o sonho de qualquer jovem brasileiro intelectualizado. Ver a América Latina de fora também. Como se não fôssemos daqui. 

Em solo estrangeiro, a brasileira era codinome. Aquela que era de outro lugar. 

Brasil, tão próximo. A estação Argentina foi tão longa que Santiago se tornou o destino do avião de volta para o Rio. Voltei por 6 anos consecutivos à mesma Argentina. Morei em Buenos Aires, fui e voltei. Rio – Buenos Aires se tornou, ao longo de anos, uma ponte vital, de amor e de distorção daquilo que era. 

Torção daquilo que era.

Minha amiga finlandesa era uma Argentina, falava como Argentina e tinha trejeitos nas mãos que escondiam todo sinal da Finlândia. Eu falava à brasileira. Movia à brasileira. Era muito mais brasileira que no Brasil. Fingia ter falta quase incontrolável de feijão e a palavra saudade era meu orgulho linguístico. Precisava ser A OUTRA e não o outro. Era insuportável a ideia de ser confundida com o outro país. Amava aquele país, mas era sedutor demais para tanta torção.

Desconfio que os guetos de estrangeiros, os casamentos com locais, a xenofobia, a repulsa, a atração, tudo aquilo que excede em relação ao estranho é a coragem ou covardia de ser visivelmente quem se é. 

Um detalhe de lá: a calle Lezica. Era uma rua pequena e a porta do prédio era de madeira imponente. O corredor escuro e o apartamento iluminado. Sentia a entrada ao lar como uma caverna que expandia. 

*nenhum uso de IA, nem para formatar o texto. O sujeito da crônica sou eu-autora.