O PARES Cáritas Rio de Janeiro está completando 50 anos de vida. O Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio do Brasil é o primeiro no Brasil.

Em 1976, a Arquidiocese do Rio de Janeiro iniciou um trabalho pioneiro de assistência a refugiados que chegavam à cidade, vindos de países sulamericanos como Argentina, Chile e Uruguai. Vítimas da perseguição política dos regimes militares, esses refugiados encontravam no Brasil — também sob governo militar — um lugar de refugio temporário e o Rio de Janeiro como uma rota para outro destino. O arcebispo do Rio de Janeiro à época, Dom Eugênio Sales, decidiu instalar um serviço permanente de ajuda a refugiados. O cardeal designou a Cáritas RJ para assumir essa tarefa, dando origem ao primeiro trabalho sistematizado de atendimento a refugiados no Brasil.

Localizado na Rua São Francisco Javier, 483 do bairro de Maracanã, o Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Cáritas RJ tem por objetivo: promover o acolhimento, assegurar que os direitos dos refugiados sejam respeitados e criar condições para que eles possam reconstruir a vida no Brasil de forma digna. Para isso, a Cáritas RJ atua em três frentes: acolhimento, proteção legal e integração local.

Aline Tulher
“Trabalhamos com o Estado brasileiro ou apesar dele, como na ditadura. Nosso trabalho com o Estado é de controle social”.
No ato pelos 50 anos de PARES Cáritas RJ realizado na última quarta-feira (13 de maio) às 18h30, a coordenadora de PARES, Aline Tulher, lembrou dos momentos difíceis passados na ditadura militar e logo se referiu às três frentes de trabalho: acolhimento, proteção legal e integração local.
O acolhimento é o momento em que a pessoa ainda está desorientada, sem perspectivas ou ideia de como pedir ajuda. Logo se inicia o processo de proteção legal, que conta com toda a documentação necessária para poder ficar no país. A integração local tem ênfase no aprendizado do idioma, a atenção psicológica, a mediação educacional, de saúde, além da procura por trabalho e mediação com as empresas. O PARES também se empenha em “ocupar o lugar”: conhecer os lugares do Rio para além do cartão postal, buscando capacitação profissional com empresas para uma integração efetiva. Aline afirmou: “Trabalhamos com o Estado brasileiro ou apesar dele, como na ditadura. Nosso trabalho com o Estado é de controle social”.

A coordenadora Tulher falou em nome de toda a equipe que “os migrantes ensinam a ver as dores e a não desistir do trabalho, o que só é possível pela parceria. Porque trabalhamos juntos, a gente aprende que não estamos sozinhos tanto eles como nós, todos somos moradores do mesmo lugar”.
“O que nos separam são linhas imaginárias que não existem de verdade. Isso é o que a gente precisa entender, que a gente vive aqui, que somos pares. É muito legal ver no dia do atendimento que temos crianças sírias, venezuelanas, angolanas, cada uma falando seu idioma, mas todas brincando a tarde inteira. Mas tudo o mundo se entende e brincam ao pega-pega na maior união. Essas linhas não existem de verdade. Esse espaço nos demonstra isso”.
“É um trabalho que, apesar de todas as dificuldades de financiamento, para manter esse espaço passam por aqui 30 ou 40, 50 pessoas todos os dias pelo menos. Não é fácil estar aqui, não é fácil manter o financiamento, mas a gente celebra que estamos cumprindo 50 anos e esperamos estar aqui muitos anos. O desejo é que não haja mais refugiados, mas, se há, estaremos aqui. É o nosso trabalho do dia a dia. Não ‘para’ os refugiados, mas ‘com’ os refugiados, com todas as pessoas que apoiam nosso trabalho”.
Por parte dos migrantes falou Rama: “Sou refugiada, cheguei em 2014 porque no Congo tem guerra até hoje, mais de 30 anos de guerra. Saí de lá, cheguei no Brasil, mas em outra cidade pequena que ninguém conhecia nada. Então, as pessoas me falaram para sair de lá e ir para o Rio de Janeiro ou São Paulo. E me falaram que só em Cáritas poderiam me atender. Faz 12 anos que iniciei aqui o pedido de refúgio. Um processo muito longo. PARES Cáritas é como uma mãe que acolhe a todos, abraça a todo o mundo e se ocupa de todo, que conhece a cada um, que escuta cada história. Que faz de coisas simples a coisas muito complicadas”.

“Você fala Lingala e francês e aqui [em PARES] consegue entender os advogados, mas logo sai para a rua, quer pegar o ônibus e tudo se torna difícil, perde a conexão. Através de PARES você consegue aprender o idioma, falar, formar-se em Cáritas, fazer aulas, conseguir emprego, conseguir a documentação. Com os 50 anos de PARES, posso ver que Cáritas ajudou um milhão de pessoas, a mim, e outros amigos. Hoje eu consigo falar português, ser uma cidadã que paga impostos. Obrigada pelas coisas que fizeram em mim, obrigada pelo compromisso” diz Rama.


O Grupo de Pesquisa DIASPOTICS da UFRJ foi convidado ao ato. Seu líder, o Prof. Dr. Mohammed Elhajji destaca o convênio Cáritas — DIASPOTICS/UFRJ — MITRA. O Mestrado Europeu Erasmus Mundus em Migrações Transnacionais está focado no estudo interdisciplinar de fluxos humanos e diásporas. O programa conta com uma rede de universidades parceiras globais, e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é uma das instituições associadas a esse consórcio. Os estudantes do MITRA, em mobilidade no Rio, são estagiários no PARES e podem fazer parte de suas pesquisas de campo.

Para colaborar com PARES, entre em contato: https://www.caritas-rj.org.br/como-apoiar.html

