Natalia Mer, argentina de Córdoba, cantora e arte-educadora, mora no Rio de Janeiro desde 2012. Ela vem construindo uma trajetória artística e coletiva desde a sua chegada, transformando a música em espaços de encontro.
Trabalho principalmente com o canto, e com o canto como um lugar de encontro, e também como uma possibilidade de explorar a si mesmo, e de conexão com os outros, como um espaço de encontro também e de nos potencializarmos nessa coisa coletiva.

Nati chegou ao Rio buscando mudança. “Minha história de migração não foi nem por estudo, nem por trabalho. Foi como acontece com muita gente, eu precisava de uma mudança.” Nos primeiros anos, trabalhou em hostels, fez recepção, organizou eventos e chegou a trocar trabalho por hospedagem. Ao mesmo tempo, continuava dando aulas de canto, atividade que já fazia na Argentina havia muitos anos.
O Rio é uma cidade muito difícil em muitos aspectos, com realidades muito diferentes, e também depende um pouco da sorte, de como as coisas acontecem, né? De você cair em um lugar, em um momento em que apareçam certas oportunidades. Aprendi a fazer um monte de coisas no Rio porque eu pensei que vinha para cantar… bom, eu faço isso, né? Cantar e tal, mas a verdade é que a música em algum momento acabou ficando em um lugar mais secundário, porque também é indispensável se preocupar com como você vai sobreviver. E, quando você faz isso de maneira autônoma, como sempre foi o meu caso, obviamente, existe essa preocupação.

Por isso, Nati sempre combinou diferentes trabalhos por conta própria, hoje na sua maioria ligados à música e à educação. Atualmente, é professora de canto nos projetos comunitários “Encontros com Voz” e “BatucaVidi”, no bairro de Vidigal, onde também morou por um tempo. Além disso, Nati organiza o encontro “Cantar la Ronda”, um grupo de canto de músicas latino-americanas no Museu do Catete. Como ela explica, o objetivo não é apenas ensinar técnicas vocais ou ritmos tradicionais. “Me interessava transmitir nossa cultura com essa ideia de nos aproximarmos mais. Descobrir que temos muitas coisas parecidas”, diz. Para ela, o Brasil ainda conhece pouco os países vizinhos da América Latina: “Brasil se autorreferencia muito e perde a possibilidade de se conectar com algo maior, que é ser latino”. Ela também dá aulas de espanhol, participa de projetos, como a Roda Latina, e coordena uma oficina de danças folclóricas argentinas, “com a ideia de divulgar um pouco da cultura folclórica argentina, que não seja o tango, porque sabemos que o tango é algo muito de Buenos Aires”.

Quando perguntada sobre como começou a se dedicar à música, Nati se emociona e fala do pai, que era: “guitarrero e cantor, não cantante e guitarrista, porque ele aprendeu a cantar e tocar para não se sentir só, por necessidade”, numa referência que lembra da grande Mercedes Sosa, que costumava se autodefinir como cantora, ou seja, quem canta com compromisso social e não apenas por vontade.
Apesar da sua vocação com a música, Nati também aborda na conversa os desafios de viver do trabalho autônomo no Rio de Janeiro. “Nunca você sabe quanta gente vai ter”. Sem salário fixo, férias ou garantias trabalhistas, ela precisa desenvolver várias atividades ao mesmo tempo, incluindo a presença nas redes sociais: “Eu quero fazer meu trabalho e nada mais. Não quero ter que ficar postando foto. Acho que, se não fosse pelo trabalho que faço, talvez eu nem tivesse Instagram”.

Foi recentemente que ela começou a olhar para a própria trajetória de outra forma. “Percebi a fortaleza que tem assumir-se como migrante”, ainda que “O que sempre me pareceu violento é que as pessoas te assumam como alguém de passagem porque você não é daqui. Você está fazendo sua vida aqui, mas as pessoas seguem te tratando como se estivesse de passagem.” Por isso, para Nati, “É importante fortalecer os espaços criados por migrantes, porque são lugares de apoio, de encontro, onde podemos nos sentir menos sozinhos”.
Para conhecer mais sobre os projetos de Nati, siga o perfil no Instagram: @escuelitadorio


