Na tradição filosófica que antecede a Psicologia científica, a alma foi frequentemente compreendida como uma dimensão que articula a vida interior do ser humano, envolvendo aspectos relacionados à mente, à consciência, às emoções e ao espírito. Historicamente, a noção de alma pode ser entendida como um conceito de transição entre perspectivas filosóficas e religiosas sobre a interioridade humana e as posteriores formulações psicológicas sobre a vida psíquica.

Durante séculos a alma foi imaginada como o espaço de opacidade. Neste sentido, hoje a Inteligência Artificial (IA) parece construir um espelho dessa interioridade, não porque conheça a alma mas porque aprende com seus rastros. No afã de cada busca, curtida, palavra, imagem e interação deixa marcas que podem ser transformadas em representações sobre aquilo que desejamos. A IA torna-se um ‘espelho da alma’, refletindo aquilo que buscamos, participando daquilo que passamos a desejar, na curadoria de selecionar conteúdos que incidem em emoções.

Acerca disto, por trás dessa capacidade, existe uma transformação mais profunda na crescente conversão da vida cotidiana em dados. Cada pesquisa realizada na internet, curtida, comentário, localização, compartilhamento ou tempo de permanência diante de uma publicação pode produzir rastros que alimentam sistemas digitais.

O filósofo Byung-Chul Han traz o conceito de psicopolítica para essa transformação ao discutir o dataísmo, uma racionalidade que passa a compreender a realidade a partir da coleta, quantificação e processamento de grandes volumes de dados. Para o autor, essa lógica não deve ser entendida apenas como uma inovação tecnológica, mas como uma forma de pensamento que atribui aos dados uma capacidade cada vez maior de explicar a realidade social.

Hoje, caminhamos para a era da psicopolítica digital, que avança da vigilância passiva ao controle ativo, empurrando-nos, assim, para uma nova crise da liberdade: até a vontade própria é atingida. Os big data são um instrumento psicopolítico muito eficiente, que permite alcançar um conhecimento abrangente sobre as dinâmicas da comunicação social. Trata-se de um conhecimento de dominação que permite intervir na psique e que pode influenciá-la em um nível pré-reflexivo.

(Han, 2018, p. 23)

Deste modo, o autor oferece subsídios para compreender como as plataformas digitais, por meio da coleta e do processamento de dados, organizam ambientes de visibilidade, interação e direcionamento de conteúdos. Neste sentido, podemos imaginar o algoritmo de IA como uma espécie de espelho de vigilância. Contudo, diferentemente de um espelho convencional, ele não apenas reflete aquilo que está diante dele. A partir dos rastros digitais, produz interpretações sobre quem somos, sobre aquilo que nos interessa e sobre os conteúdos aos quais provavelmente responderemos.

Por exemplo, uma pessoa que pesquisa oportunidades de trabalho no exterior, pode passar a encontrar cada vez mais conteúdos relacionados a emprego, viagens, imigração ou educação internacional. Logo, isso não significa necessariamente que o algoritmo saiba que essa pessoa pretende migrar. Significa que determinados padrões de comportamento podem ser utilizados pelos sistemas de recomendação para selecionar conteúdos considerados potencialmente relevantes.

Com isto, a visibilidade nesse contexto assume um caráter ambíguo de tornar-se visível nas plataformas pode significar encontrar comunidades, construir redes, compartilhar experiências e obter reconhecimento. Ao mesmo tempo, essa visibilidade produz rastros que podem ser utilizados para processos de classificação, segmentação e publicidade direcionada. A própria produção de conteúdo passa a ocupar um lugar central nesse processo. Criadores digitais constroem narrativas, imagens e performances sobre suas experiências, seus estilos de vida e suas trajetórias. Essas produções podem gerar confiança e identificação entre seguidores. É justamente essa dimensão que merece atenção quando observamos conteúdos relacionados à migração.

Acerca disto, a discussão também passa pela psicopolítica das emoções para Han (2018), que argumenta que o poder contemporâneo não atua somente pela proibição ou pela imposição direta. Ele pode operar pela capacidade de estimular desejos, expectativas e respostas emocionais. Nas redes sociais uma publicação que desperta curiosidade, esperança, indignação ou medo tende a provocar algum tipo de reação, um comentário, uma curtida, um compartilhamento ou uma nova busca. Essas respostas também podem produzir novos dados, alimentando o ciclo entre emoção, comportamento, datificação e recomendação.

Quando dizemos que “o algoritmo decidiu”, podemos esquecer toda a estrutura existente por trás dessa decisão: empresas, programadores, modelos matemáticos, bases de dados, interesses econômicos, políticas de plataforma e escolhas humanas. Neste sentido, esse processo pode ser compreendido a partir da ideia de fetichismo da técnica, quando a tecnologia passa a ser percebida como uma entidade autônoma, quase mágica, capaz de explicar por si mesma os fenômenos sociais.

Desfetichizar a tecnologia significa fazer perguntas simples mas fundamentais como: quem criou esse sistema? Quais dados são utilizados? O que está sendo medido? Quem se beneficia dessas informações? Quem pode ser prejudicado por essas classificações? Assim, essas perguntas tornam-se ainda mais importantes quando falamos de grupos em situação de vulnerabilidade.

Na era da datificação, compreender a tecnologia significa também compreender as relações de poder que atravessam os dados, as emoções e a visibilidade. Portanto, é nesse espaço de dualismo entre liberdade e vigilância, conexão e controle, visibilidade e exposição que se encontram alguns dos principais desafios psicossociais do campo digital contemporâneo no uso da IA.

Na interface entre as plataformas digitais e migrações internacionais exige atenção para além das tecnologias de vigilância e controle de fronteiras. Os ambientes digitais também participam da produção de expectativas, da circulação de informações e da construção de percepções sobre oportunidades de mobilidade. Nesse cenário, a psicopolítica da IA oferece uma perspectiva para discutir como a atenção, as emoções, os desejos e as decisões individuais podem ser influenciados por sistemas digitais que organizam a circulação de conteúdos.

A questão ganha relevância diante dos acontecimentos registrados em julho de 2026, na fronteira entre Marrocos e o território espanhol de Ceuta. Segundo um relatório do Serviço de Estudos do Parlamento Europeu, uma entrada em massa estimada em aproximadamente 80 mil pessoas ocorreu em meio à circulação de desinformação nas plataformas digitais. Conteúdos de publicações falsas no TikTok afirmavam que a fronteira estaria aberta e que pessoas que chegassem ao território espanhol poderiam obter asilo ou autorização para seguir até a Espanha continental com facilidade. O episódio colocou em evidência o papel da psicopolítica das plataformas na formação de expectativas sobre a mobilidade internacional. Migrantes esses, em sua maioria, jovens marroquinos cruzando o mar para a Espanha.

Fonte: O Globo 2026.

A crise de Ceuta, em julho de 2026, oferece um caso relevante para examinar essas questões, em reportagens publicadas pela Euronews, com informações da Associated Press, relataram a circulação de publicações no Instagram, Facebook e TikTok que sugeriam uma abertura da fronteira espanhola. Também foram compartilhados vídeos que apresentavam supostas rotas de travessia e informações sobre as condições de vigilância na região. Algumas pessoas entrevistadas afirmaram ter se deslocado acreditando nas informações encontradas on-line.

Acerca disto, nos dias seguintes, também circularam imagens geradas por IA e vídeos antigos apresentados de forma enganosa como se fossem registros recentes dos acontecimentos. Com isto, essa mistura de imagens autênticas, conteúdos sintéticos e materiais descontextualizados tornou mais difícil distinguir informações verificadas de narrativas falsas.

O episódio não demonstra, por si só, que a IA tenha provocado o movimento migratório, nem permite concluir que um algoritmo específico tenha organizado sua escala. As informações disponíveis sustentam uma discussão sobre como rumores e conteúdos enganosos podem interferir nas percepções sobre as fronteiras, as possibilidades de entrada e as consequências de uma travessia.

Também é importante não reduzir os deslocamentos a um efeito da desinformação. Condições econômicas, desigualdades, expectativas de futuro, redes familiares, decisões políticas e circunstâncias locais integram os contextos nos quais as pessoas avaliam suas possibilidades. A circulação de informações falsas pode atuar sobre esse cenário, mas não substitui a análise dos fatores sociais e políticos que condicionam a mobilidade.

A partir desse caso, proponho a expressão phishing intercultural algorítmico como uma hipótese teórica para investigar situações em que conteúdos digitais enganosos exploram diferenças linguísticas, culturais e informacionais, além de expectativas socialmente construídas, para obter confiança, influenciar percepções ou induzir decisões em contextos de mobilidade transnacional. Neste sentido, o termo phishing é tradicionalmente associado a tentativas de fraude que utilizam mensagens ou páginas falsas para induzir pessoas a revelar informações ou realizar determinadas ações. Nesta proposta, a expressão é ampliada conceitualmente: o foco não está apenas no roubo de dados, mas também na psicopolítica; na exploração da confiança e das expectativas por meio de narrativas digitais sobre oportunidades migratórias.

A dimensão intercultural refere-se ao encontro entre diferentes contextos sociais, idiomas, repertórios de informação e referências institucionais. Já a dimensão algorítmica aponta para a circulação e a visibilidade dos conteúdos em plataformas digitais, nas quais sistemas de recomendação, interações e compartilhamentos podem participar da amplificação de narrativas. 

O caso de Marrocos e Espanha evidencia que a comunicação digital deve integrar as análises contemporâneas das migrações. As plataformas podem facilitar o acesso a informações, a manutenção de vínculos familiares e a organização de redes de apoio. Ao mesmo tempo, podem abrigar rumores, fraudes e conteúdos manipulados que afetam a compreensão de situações de risco e de oportunidades de mobilidade.

Por isso, investigar a hipótese do phishing intercultural algorítmico exige compreender a psicopolítica dos conteúdos, suas formas de circulação, as condições de credibilidade e os relatos das pessoas envolvidas. Também requer verificar se houve participação de sistemas automatizados, redes coordenadas ou agentes que deliberadamente produziram desinformação, evitando inferir essas relações apenas a partir da velocidade ou da escala de disseminação.

Investigações acerca das dinâmicas contemporâneas do phishing intercultural algorítmico praticado por coiotes digitais vêm sendo conduzidas por instituições brasileiras de justiça. Nesse contexto, destaca-se a atuação do Ministério Público Federal (MPF), que, em documento publicado em 2026, apresentou denúncias relacionadas à atuação de grupos criminosos no país, conforme o trecho a seguir:

O MPF apresentou denúncia à Justiça Federal, em São Paulo, contra três brasileiros e um chinês pelos crimes de tráfico internacional de pessoas para fins de trabalho escravo e organização criminosa. Em 2022, o grupo aliciou e levou para o Camboja pelo menos 17 pessoas, que eram obrigadas a trabalhar em jornadas exaustivas aplicando golpes financeiros na internet contra outros brasileiros. A promessa era de atuação em marketing digital e investimentos em criptomoedas, e eles ficariam alojados no próprio local de trabalho, em quartos coletivos. No entanto, segundo os aliciadores, não era possível passar informações mais detalhadas sobre o trabalho em razão de uma suposta “cláusula de confidencialidade” inserida no contrato. Chegando ao destino – um hotel na cidade de Sihanoukville, no Camboja –, as vítimas descobriam que o trabalho consistia, na verdade, na aplicação de golpes virtuais em outros brasileiros. Eles eram obrigados a operar múltiplos aparelhos celulares e perfis falsos em redes sociais para atrair vítimas para plataformas fraudulentas, incluindo simulações de investimento em criptomoedas, lojas virtuais fictícias (imitando plataformas de vendas conhecidas) e pirâmide financeira.

(Brasil, 2026, s/p).

Partindo desse cenário, investigar a hipótese do phishing intercultural algorítmico implica analisar não apenas os mecanismos tecnológicos de circulação de informações, mas também a dimensão psicopolítica dos conteúdos mobilizados por novos atores digitais como os coiotes digitais nos processos de aliciamento, persuasão e exploração de pessoas em contextos migratórios transnacionais. A psicopolítica dos conteúdos, nessa perspectiva, refere-se às estratégias pelas quais discursos, imagens, promessas e narrativas são construídos e disseminados para influenciar percepções, produzir confiança e orientar comportamentos, explorando vulnerabilidades sociais, econômicas e culturais. 

No âmbito da coiotagem digital, essas estratégias podem se manifestar por meio de ofertas fraudulentas de emprego, promessas de mobilidade social, oportunidades fictícias de investimento e discursos que simulam legitimidade profissional, recorrendo a referências culturais e linguísticas capazes de conferir credibilidade às abordagens. Com isto, a dimensão intercultural torna-se relevante justamente porque os agentes envolvidos podem explorar diferenças de idioma, códigos culturais, expectativas migratórias e assimetrias de informação para estabelecer relações de confiança e reduzir a percepção de risco das potenciais vítimas.

Nesse cenário, o phishing intercultural algorítmico da IA nas plataformas digitais constitui uma hipótese analítica para investigar como referências culturais, assimetrias informacionais e mecanismos tecnológicos podem ser mobilizados na construção de credibilidade e na indução de comportamentos. Assim, compreender essas dinâmicas é um dos focos da minha pesquisa desenvolvida no âmbito do DIASPOTICS/UFRJ. Por meio de uma abordagem interdisciplinar que considera os conteúdos disseminados, as condições de sua circulação, os relatos das vítimas e as relações de poder que atravessam as experiências migratórias, a pesquisa visa contribuir para o aprofundamento do debate sobre coiotagem digital, tráfico de pessoas e proteção dos direitos humanos na sociedade contemporânea.

Autor: Brunno Ewerton – Psicólogo (05/72188). Doutorando e mestre no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IP/UFRJ), bolsista CAPES. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Migrações Transnacionais e Comunicação Intercultural (DIASPOTICS/UFRJ). Membro do Grupo de Trabalho em Inteligência Artificial do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP/05).

Para mais publicações: https://ufrj.academia.edu/BrunnoEwerton