Foto: Pino, 2026.

O Comitê de Solidariedade Brasil-Venezuela, em parceria com os grupos de pesquisa GEASUR/UNIRIO e o LABIMI/UERJ organizou o Fórum Perspectivas Migrantes com o objetivo de debater a Lei Municipal 7.730/22, discutir as trajetórias e demandas de quem reexiste na cidade, e fortalecer as redes de apoio, solidariedade e articulação comunitária dos migrantes em todas suas denominações.

O encontro foi realizado na sala 109, no nono andar da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no Maracanã, no sábado, 19 de setembro de 2026, a partir das 9h.

A Lei Municipal nº 7.730/2022 do Rio de Janeiro institui os princípios e as diretrizes para a Política Municipal de Proteção dos Direitos da População Migrante e Refugiada. Sancionada em 20 de dezembro de 2022 pelo prefeito Eduardo Paes, a legislação foi desenvolvida pela Câmara Municipal após a repercussão do assassinato do refugiado congolês Moïse Kabagambe.

A lei procura assegurar que a população migrante tenha acesso facilitado e pleno aos mesmos direitos de qualquer cidadão, estruturando-se sob os seguintes pilares:

Direitos Fundamentais: Garante o livre acesso a serviços públicos de saúde, educação, assistência social e habitação sem qualquer tipo de discriminação.

Acolhida Humanitária: Promove a dignidade desde a chegada, priorizando o bem-estar de crianças, adolescentes e jovens migrantes ou refugiados.

Inclusão no Mercado de Trabalho: Apoia a regularização laboral, a valorização das competências e o respeito irrestrito aos direitos trabalhistas.

Desburocratização de Documentos: Facilita o atendimento em órgãos municipais aceitando e validando os documentos de identificação que os migrantes já possuem.

O art. 4º da lei determina a Política Municipal de Proteção dos Direitos da População Migrante e Refugiada de acordo com as seguintes diretrizes: Isonomia no tratamento aos migrantes e refugiados, bem como às diferentes comunidades. Efetivação dos direitos e do bem-estar de crianças, adolescentes e jovens migrantes e refugiados, com absoluta prioridade, nos termos da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Respeito às especificidades de gênero, raça, etnia, orientação sexual, idade, religião e deficiência. Garantia de acessibilidade aos serviços públicos, facilitando a identificação dos migrantes e dos refugiados por meio dos documentos de que forem portadores, inclusive para atendimento nos serviços públicos municipais. Publicidade de informações sobre os serviços públicos municipais direcionados para migrantes e refugiados. Apoio aos grupos de migrantes e refugiados, associações e organizações que desenvolvam ações voltadas a esse público, fortalecendo a articulação entre eles. Prevenção permanente e comunicação imediata às autoridades competentes em relação a graves violações de direitos de migrantes e de refugiados, em especial: a) o tráfico de pessoas; b) o trabalho escravo ou a violação de direitos trabalhistas; c) a xenofobia; d) as agressões ou ameaças de qualquer natureza.

Mas quais dessas diretrizes estão se cumprindo na prática? Ante o convite do Comitê de Solidariedade Brasil-Venezuela para avaliar o funcionamento da lei, debater e propor pontes para melhorar, percebeu-se que também existe um novo protagonismo de militâncias migrantes em que, na crista da onda deste momento, aparecem o próprio Comitê de Solidariedade Brasil-Venezuela, o Raiz Jaguar (coletivo de migrantes colombianos), o Argentines Organizades e o Sabores do Mundo (coletivo de migrantes com as mãos na política pública e no prato).

No encontro, também estavam presentes, como dito anteriormente, os grupos de pesquisa da área que apoiaram a organização do Fórum Perspectivas Migrantes: GEASUR (UNIRIO) e LABIMI (UERJ). No dia do encontro, uniram-se o NuestrAmérica – Núcleo de Estudos sobre Trabalho, Reprodução Social e Lutas na América Latina e no Caribe (UFF) e o Diaspotics (UFRJ).

Foto: Pino, 2026.

Um dos organizadores, Ali Álvarez, migrante venezuelano, coordenou a dinâmica principal que consistia em dividir os participantes em grupos para refletirem coletivamente sobre três temas principais:

Os espaços e instituições de acolhimento ao longo da trajetória, para reconstruir quais foram os primeiros lugares, instituições ou pessoas que acolheram ao chegar; o funcionamento na época (documentação, saúde, moradia, trabalho, idioma); e se esses espaços ainda existem e funcionam da mesma forma ou o que mudou.

As demandas atuais, para saber as principais dificuldades ou demandas não atendidas, e as dimensões em que elas se encaixam, como direitos, trabalho, saúde, situações de crise, participação, migração segura, entre outras.

As articulações e reexistências, para entender como as comunidades migrantes se organizam entre si hoje; se são grupos informais, coletivos, redes de apoio mútuo, de religiosidade ou de cultura; por outro lado, reconhecer os espaços e momentos de reexistência onde a comunidade recria formas de vida, cultura e pertencimento na cidade; e, por último, identificar lideranças, coletivos ou lugares que articulam as redes.

Após a reflexão, cada grupo apresentou os pontos principais e iniciou-se um debate em conjunto.

A percepção geral dos migrantes de outras regiões de Abya Yala (América) é que, ao chegar ao Brasil, acreditava-se estar num “país irmão”, unidos pela história de opressão do colonizador e com uma identidade em comum. No entanto, na cotidianidade, percebe-se um distanciamento do Brasil em relação aos demais países da Abya Yala, o qual uma das participantes sintetizou na expressão “Brasil de costas para a Nossa América”.

Entre as principais preocupações e desafios identificados estão as barreiras de acesso aos serviços públicos e ao trabalho, além da precarização das condições de vida. Foram mencionadas situações de população migrante em situação de rua, tráfico de pessoas e trabalho análogo à escravidão. Embora se tenha enunciado em primeiro lugar a vulnerabilidade de crianças desacompanhadas, de mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+, problematizou-se sobre a fragilidade de homens migrantes em situação de rua e a possibilidade de ingresso no sistema prisional por cometerem pequenos delitos para poderem alimentar suas famílias.

Foto: Pino, 2026.

Os participantes também fizeram uma crítica construtiva sobre o funcionamento dos serviços públicos de atendimento aos migrantes.

Um espaço considerável de discussão foi ocupado pelo Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI). A impressão geral é de que existe uma política de desmantelamento em que o poder político nunca entendeu a necessidade de contar com um albergue específico e com atendimento especializado para migrantes, como existiu em seu momento. Uma das participantes do Fórum deu testemunho de ter sido recebida no albergue quando chegou, por três meses, e falou favoravelmente sobre essa experiência. Um tema preocupante é que migrantes que trabalhavam lá foram demitidos de seus empregos sem nenhuma explicação. Trata-se de integrantes do coletivo de migrantes, companheiros de luta cuja ética profissional não está em dúvida, mas que, por novas diretrizes políticas, foram tirados de seu lugar de trabalho — resultando em famílias que ficaram sem fonte de renda para viver. Encontrava-se presente na reunião — e somou-se ao diálogo — a assessora jurídica do CRAI, a advogada Raissa Machado, que recebeu as observações feitas e explicou a nova etapa iniciada pelo CRAI. Ela ouviu dos migrantes a necessidade de fortalecer o serviço, ampliar recursos e garantir que o centro seja acionado e comunicado para o acompanhamento de pessoas migrantes.

Foto: Pino, 2026.

Em outro momento, o Centro de Refugiados foi avaliado de forma mais positiva quanto ao atendimento e acompanhamento, embora funcione mediante agendamento, o que pode representar uma barreira de acesso. O Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES), da Cáritas RJ, também foi avaliado positivamente, mas preocupa a redução de recursos e a possibilidade de descontinuar as atividades.

Destaca-se a necessidade de que o Comitê Estadual Intersetorial de Políticas de Atenção aos Refugiados e Migrantes (CEIPARM/RJ) do Estado do Rio de Janeiro e o Comitê Intersetorial Municipal de Política de Atenção a Refugiados, Imigrantes e Apátridas (COMPARM) da Prefeitura do Rio sejam verdadeiros espaços de diálogo e encontro entre grupos de imigrantes, organizações da sociedade civil e instituições públicas. Defendeu-se a criação de condições para que as comunidades migrantes possam ocupar espaços, organizar atividades e participar da formulação das políticas públicas.

Como encaminhamentos, apareceu o imperativo de fortalecer as redes públicas de atendimento, ampliar equipes multidisciplinares, especialmente de Serviço Social e Psicologia, consolidar espaços de convivência e garantir recursos para as políticas e serviços. Também foi defendida a institucionalização de iniciativas por meio de legislação, de modo a conferir maior estabilidade às ações voltadas à população migrante e refugiada.

Outro aspecto central foi o protagonismo das próprias comunidades migrantes, ressaltando-se a importância de fortalecer essas redes e ampliar a participação de pessoas migrantes na construção e execução das políticas que lhes dizem respeito. Também foi registrada a percepção de que, diante da falta de confiança em determinados serviços, muitas pessoas migrantes acabam recorrendo prioritariamente às suas próprias redes e comunidades. Isso gera a sensação de não viver no Brasil, mas de estar vivendo no “Migristão”, a metáfora de um país fictício formado só por migrantes, devido ao fato de as relações se realizarem apenas entre pares por desconfiança das instituições públicas.

Foto: Stepheson, 2026

Por fim, as pessoas participantes destacaram a organização coletiva e a participação política como dimensões necessárias para enfrentar os desafios identificados. De forma geral, o Fórum apontou para a necessidade de articular políticas públicas, serviços, organizações e comunidades migrantes em uma rede capaz de ampliar o acesso a direitos, enfrentar a precarização das condições de vida e fortalecer a participação direta das pessoas migrantes na construção das políticas que lhes dizem respeito. A discussão superou a discussão sobre a Lei Municipal 7.730/22 para falar do Estado e das organizações da Sociedade Civil.

Nada novo que em outros momentos já não tenha sido discutido, mas que torna necessário estar o tempo todo avaliando e fiscalizando para que as políticas públicas se cumpram e a legislação não seja letra morta, mas sim letra viva de ação e de exercício dos direitos fundamentais. Agora, a onda está sendo surfada pelo Comitê de Solidariedade Brasil-Venezuela, Raiz Jaguar, Argentines Organizades e Sabores do Mundo — e, com certeza, outros coletivos de migrantes se somarão.