CRIME DE RACISMO EM ARARAQUARA

Após encontrarem a frase “Sem cotas para os animais da África” escrita no mural em frente a um dos centros acadêmicos da Unesp de Araraquara (273 km de São Paulo), alunos e professores discutem a extensão e a gravidade do ato.

A Unesp já abriu uma sindicância interna e um boletim de ocorrência foi registrado por alunos e professores.

Para o professor Dagoberto José Fonseca, coordenador do Grupo de Estudos da Cultura Africana, o ato não deve ser tratado como um caso isolado. “Não é individual. É uma ação coletiva”, diz Fonseca.

Segundo ele, pichações que fazem referência ao grupo neonazista White Power (poder branco) já haviam sido feitas há alguns anos em banheiros da faculdade.

“Isso não foi escrito no banheiro, mas em um espaço de grande circulação.”

GUINÉ-BISSAU

Diferentemente de Fonseca, para quem o gesto racista seria uma ação coordenada por um grupo, o primeiro-secretário da Embaixada de Guiné-Bissau no Brasil, Jorge Luís Mendes, afirmou que a ação deve ser entendida como um ato individual.

Dentre os seis países africanos que possuem estudantes intercambistas na Unesp de Araraquara, a Guiné-Bissau é de longe o que tem o maior número, somando 12 dos 26 alunos do continente.

“Essas pessoas agem de forma isolada, eles se escondem para colar uma frase”. O diplomata destacou, entretanto, a importância de haver punição para os autores da ação de Araraquara.

“Que as instâncias responsáveis façam seu trabalho para combater esse tipo de ato, ainda que seja um ato isolado”, disse. Fonseca defendeu ainda a importância dos programas de intercâmbio mantidos com o Brasil para seu país.

“É um programa importante para a capacitação dos quadros locais”, disse Fonseca. “A experiência brasileira é muito aplicável na Guiné-Bissau.”

Para o estudante guineense Daniel Cassamá, mesmo que seja um ato isolado, isso não atenua sua gravidade.

“Pode ser que só uma pessoa tenha escrito, mas ela pode estar expressando o sentimento de vários alunos do campus”, afirmou. Ainda assim, Cassamá disse estar certo de que esse sentimento se restringe a uma minoria dos estudantes. “Estou há seis anos aqui e nunca tinha sentido isso.”

Também o angolano José Patrício Morais de Almeida, estudante do segundo ano de administração pública, afirma ter sido a primeira vez que vê uma manifestação racista na universidade.

“Fiquei muito surpreso. Eu pensei que [atos racistas] fossem realidade em outros lugares, mas não aqui em Araraquara”, disse Almeida.

DARIO DE NEGREIROS

(Publicado na Folha.com em 18/04/2012)



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