JUNTOS E MISTURADOS

Mais de 8 mil estudantes estrangeiros estão matriculados no estado de São Paulo. Cinco deles contam suas experiências.

A Escola Estadual Canuto do Val, na Barra Funda, centro de São Paulo, é a escola que mais tem alunos estrangeiros na rede estadual de São Paulo. Cerca de 30% dos que estudam lá nasceram fora do Brasil. No estado, cerca de 2.100 escolas recebem, ao todo, mais de 8 mil alunos de outras nacionalidades. O G1 conversou com cinco adolescentes estrangeiros da Canuto do Val, que contam suas experiências na nova escola e seus objetivos para o futuro. Em comum, a saudade dos seus países de origem e a boa acolhida dos brasileiros marcam os relatos dos adolescentes.

Do primeiro dia à saudade

Ao se mudarem para o Brasil, além de terem de se adaptar à nova cultura, comida e costumes, os estudantes também enfrentaram os dilemas do primeiro dia de aula. Yenni Carolina Lopez Ramos, de 17 anos, saiu do Paraguai aos 9 anos e ainda lembra do primeiro contato com os colegas de classe.

“Eu me senti como um brinquedinho novo. Todos perguntavam coisas, queriam saber a tradução de algumas palavras, queriam saber do meu país. Eu era uma novidade na escola e isso me ajudou na adaptação. Acabou sendo mais fácil do que eu pensei”, conta a jovem.

O mesmo aconteceu com Naret Jhaman Gutierrez Teran, de 17 anos. “Os primeiros dias foram mais fáceis do que eu pensava. O difícil era entender o idioma, entender a matéria que a professora passava. Mas eu coloquei na cabeça que tinha que me aproximar dos alunos brasileiros para aprender o português mais rápido, não podia ficar só com quem falava espanhol”, afirma o boliviano, que mora no Brasil há três anos.

A maior dificuldade para Naret foi um trabalho escolar pedido pela professora de inglês. “Era uma apresentação sobe estrangeirismo. Mas eu tinha que pesquisar em inglês e apresentar em português. Eu estava com muito medo de passar vergonha e fiquei uma semana lendo e decorando em casa o texto para falar para a sala. Tentava não confundir o português com o espanhol.”

Há quatro anos no Brasil, Leonardo Shiguehiro Murata, de 13 anos, é japonês e mora com os tios. Em seu primeiro dia de aula o estudante não sabia muitas palavras de português. “Fiquei nervoso no primeiro dia, mas minha tia me ajudava a aprender algumas palavras e a fazer as tarefas em casa”, explica.
Além da diferença de costumes, os jovens também sentiram a diferença na escola. Gisela Yoselin Alejandro Torres, de 16 anos, saiu da Bolívia aos 4 anos, mas voltou ao seu país de origem para estudar durante um período.

“Quando eu visitei a Bolívia, fui à escola durante duas semanas e lá tinha que cantar o hino antes das aulas, era mais rigoroso, o uniforme era saia, camiseta e um lenço que eles usam. Aqui a gente também usa uniforme, mas é só camiseta”, comenta a jovem.

Leonardo conta que no Japão é comum os alunos ajudarem na limpeza da escola. “A gente pegava balde, vassouras e limpava, tirava as coisas do chão.”

Família

José Giovanni Narvaez Flores, de 17 anos, é o único dos cinco entrevistados que nasceu no Brasil. Sua mãe se mudou para cá há quase 20 anos. Segundo o jovem, ir para a escola ajudou sua mãe e seu tio a aprenderem o português. “Ela não entendia algumas palavras e como eu ia aprendendo na escola, ensinava para ela em casa.”

Os pais de Yenni, Gisele e José trabalham com confecções de roupas no Bom Retiro, na região Central de São Paulo. Já o pai de Naret, que já morava no Brasil, é agente comunitário.

Os quatro adolescentes se mudaram para o Brasil para acompanhar os pais em busca de oportunidades melhores para a família. “Eu vim para cá por questões econômicas. No Paraguai não tinha emprego para os meus pais e eles vieram para cá para tentar novas condições e me educar melhor. Não foi fácil me adaptar, mas não é o bicho de sete cabeças que parece ser no começo”, resume Yenni.

Planos para o futuro

Prestes a escolher para qual curso vai prestar vestibular, Yenni planeja cursar Medicina e Moda. “Eu vou conseguir! São duas áreas que eu gosto muito e penso: ‘por que não juntar as duas coisas?'”. Gisele, por sua vez, pensa em ser dentista.

Já Naret, quer cursar Publicidade e Propaganda e quando estiver mais velho, Cinema. Antes, porém, o jovem planeja viajar e conhecer novos países e culturas. “Quando eu vim para o Brasil, trouxe a Bolívia comigo dentro do meu coração, agora quero levar o Brasil junto comigo e conhecer novos lugares”, afirma.

Leonardo e José Giovanni não pensam em faculdade no momento. Os dois se interessam pela música e instrumentos musicais. Mas Leonardo tem uma certeza: não quer voltar para o Japão. “Eu quero que os meus pais venham para cá. Lá é muito quieto, prefiro aqui!”.

Embora saibam o que querem para o futuro, os estudantes não chegaram a um consenso sobre onde vão morar. “O que eu queria mesmo era pegar o melhor do Paraguai e do Brasil e montar um país só, com meus amigos e família. Seria o país da Yenni”, resume a jovem.

Didática diferente e atenção maior

Para a professora de inglês Maria Cristina Boccuzzi Rodrigues, ter alunos estrangeiros na sala de aula permite debates e uma integração global entre os estudantes. “A escola é a primeira sociedade que as crianças passam e é fundamental que eles se integrem e convivam”, afirma.

“É um desafio você lidar com essas questões dentro da sala de aula. A didática e a atenção são maiores, mas nos preparamos para acolher e receber esses alunos da melhor maneira possível”, destaca a professora.

A professora já está acostumada a ouvir se seus alunos que e eles têm vontade de conhecer os países. “Este intercâmbio é muito positivo e gera uma diversidade muito vantajosa. Os meninos falam da vontade de conhecer a Bolívia e saber mais sobre a cultura deles.”

Outra coisa que chama a atenção de Maria Cristina é a participação dos pais na educação dos filhos. “É curioso, porque eles cobram, se preocupam, participam e discutem as formas de ensinar. É muito positivo ter esse contato com eles.”

Gabriela Gonçalves

(G1 – 20/12/2015)



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