Entre o Holocausto e as migrações contemporâneas. Papo com Sofia Levy, na ASA

Como parte dos eventos alusivos aos 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial e do genocídio nazista do Holocausto, a Associação Sholem Aleichem (ASA), centro comunitário judeu do Rio de Janeiro, realizou na última terça-feira de julho o Círculo de Leitura com a professora Sofia Débora Levy, psicóloga clínica e pós-doutoranda em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Tendo o Holocausto como objeto de estudo, entendemos que não se foge do interesse da mobilidade humana com a participação direta ou indireta de seus atores deste “evento-limite” da história, na cena atual e na inserção deles na cultura receptora.

A fala de Levy, pausada e segura, demonstra a experiência de décadas de estudo e domínio do assunto. Na palestra, ela nos convida a avaliar os acontecimentos provocados pelo fascismo no genocídio judeu na Segunda Guerra Mundial e não nos deixa fechar os olhos para a cena política e social que vivemos no momento.

A também escritora aborda no seu último livro Por dentro do Trauma, a perversidade no Holocausto e na Contemporaneidade (Letra Capital, 2018) a vida dos sobreviventes do genocídio, de tal maneira que nos coloca no difícil exercício de encarar a nossa própria era, as políticas públicas e as vicissitudes que vivenciam os refugiados nesse tsunami de diásporas e migrações forçadas. A maioria deles escapando de governos autoritários que não duvidam em reforçar “radicalismos e problemáticas que atravessam a história”, disse ela.

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Sofia Débora Levy

Dentre as reflexões, impossíveis de não serem percebidas com desânimo, ao falar do trauma, remanesce em nós, migrantes – em maior ou menor proporção -, a esperança de voltar à pátria. Já o refugiado vive o fardo de ter fugido da sua terra e ter abandonado as raízes que foram-lhes decepadas, de viver na soçobra de não voltar ao seu lar nunca mais, até perder todo laço consigo mesmo, como com familiares e amigos, os quais podem ter morrido ou estar refugiados num outro lugar.

Levy, assistida por um quórum em sua maioria de parentes ou descendentes de sobreviventes do Holocausto, a partir do trauma, aborda os Direitos Humanos, o Valor da Vida e explica como o extermínio sistemático tinha prioridades: primeiro os judeus, ciganos, negros, homossexuais, e assim por diante, estabelecendo diferentes e ínfimos valores às vidas humanas.

Meditar o trabalho da convidada, escutar as histórias dos sobreviventes ou seus familiares, provoca pensar se maior aberração que o genocídio perpetrado pelo nazismo é a negação petulante dele ter acontecido, como pauta violenta do mundo que vivemos fantasiada de fake news e com a ignorância como bandeira.

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Círculo de Leitura, na ASA

Parece que a história por momentos se repete, com outro roteiro, num outro tempo, num outro lugar, mas com cérebros alienados por igual. Outrora a ideologia ameaçadora do genocídio ontológico como justificativa da aniquilação. Hoje, a manipulação sistemática que percorre a mídia e as redes sociais em segundos tem criado uma “cultura cibernética que apoia o afeto como produto descartável”, segundo Levy.

No ar ficam as perguntas a serem consideradas e resolvidas coletiva e individualmente: qual o papel da mídia nisso tudo? Temos a capacidade de entender as pautas das mídias e a manipulação da informação? Cada um de nós terá de responder qual seu papel na problemática atual e, sobretudo, qual o nosso posicionamento: ator empático ou espectador indiferente? Até que ponto a minha ideologia vale uma vida? Autocrítica que poucos ousam cogitar.

Victor Fuentes-Flores, mestre em comunicação e membro do Diaspotics



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