Série MITRA no Rio – Clémence Schilder

Este é o quarto texto da Série MITRA no Rio, na qual publicaremos, ao longo dos meses de dezembro de 2019 e janeiro de 2020, depoimentos de alunos do Mestrado MITRA – Migrações Transnacionais, da Universidade de Lille III que fizeram intercâmbio na Universidade Federal do Rio de Janeiro. As matérias contarão, entre outras coisas, de onde essas pessoas vêm, como era a visão que esses migrantes tinham do Brasil, por que escolheram vir para cá, como foram suas experiências no país e quais foram os temas de suas pesquisas. A produção é de João Paulo Rossini, mestrando associado ao Diaspotics/UFRJ. 

A publicação de hoje é uma entrevista com Clémence Schilder.

 

Clémence é francesa de Estrasburgo, cidade que fica no nordeste do país. Sua relação com as migrações é de longa data, e muito interessante. Sua família é uma das famílias de acolhimento para migrantes menores desacompanhados que existem na França. Seus pais escolheram abrir sua casa para receber estrangeiros menores de 18 anos e sem família ainda quando Clémence era criança, possibilitando seu contato com diversas pessoas de outros países. “Eu cresci num contexto intercultural e sempre me interessei, indiretamente, pelas migrações”, conta ela.  

Depois de se graduar em Sociologia, ao procurar na internet por uma pós-graduação sobre identidade e conflitos, a jovem encontrou o MITRA. Sendo selecionada, no ano em que ela entrou para o mestrado, 2017, inicialmente tinha escolhido um dos 4 cursos existentes no MITRA à época, a formação sobre conflitos e identidade, e não estudar os fluxos migratórios. Porém, ao chegar em Lille, Clémence foi informada de que todos os alunos seguiriam o mesmo curso, sobre migrações. Isso fez seu interesse intelectual sobre o tema ir aumentando gradualmente.

Expansão dos horizontes para além da Europa

Depois do primeiro semestre do mestrado MITRA em Lille e do segundo na Romênia, em Cluj, Clémence queria conhecer culturas diferentes das existentes na Europa. “Eu queria, quando acabei minha graduação em Sociologia na minha cidade, onde fiquei muitos anos, viajar. Eu tinha muita curiosidade sobre o mundo”, explica a francesa. Escolher fazer o MITRA foi, para ela, uma oportunidade de viajar, conhecer outros lugares e estudar ao mesmo tempo. Vir ao Brasil – a outra opção fora da Europa era o Senegal, que também tem uma universidade participante do consórcio MITRA – fez parte desse movimento e Clémence conta que desde muito tempo criou uma relação muito específica com o país:

“Acho que não conhecia nenhum brasileiro, nunca tinha tido contato com essa cultura, mas sempre sonhei ir ao Brasil”, completa ela.

A pesquisa realizada aqui pela jovem foi junto ao movimento negro na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente com uma instituição chamada UNEGRO. O objetivo do grupo é a união das pessoas negras pela igualdade racial no país. “Eu trabalhei com esse movimento, com quatro mulheres negras, para entender a construção da identidade de mulheres negras numa sociedade muito racista e também muito machista, e como elas se empoderam nesse contexto”, lembra Clémence. 

A experiência no Brasil

Não sabendo quase nada sobre o Brasil, Clémence recebia da mídia francesa e de outras pessoas informações sobre a falta de segurança do país. “Quando uma pessoa da França fala sobre o Brasil ou mais especificamente do Rio, é sempre pra falar que é muito perigoso”, conta. Porém, tendo morado na cidade, sua impressão mudou: “Quando cheguei, eu estava com muito medo, eu acho. Mas, depois de um ano [vivendo na cidade], agora eu tô refletindo e falo ‘mas o que é isso, gente?’”, expõe a francesa sobre o exagero das pessoas com relação à percepção da violência no Rio de Janeiro.

Foto Clémence MITRA

Clémence sorri

“Encontrei [no Brasil] muitas coisas, e o que mais me impressionou foi a luta. A força das pessoas, o jeito de resistir”, comenta Clémence. A então estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalhou, durante 8 meses, em uma ONG localizada na Comunidade Santa Marta, no bairro de Botafogo. “Lá eu conheci a cultura brasileira por outra perspectiva, porque falar com pessoas que não têm nenhum ponto em comum com você é diferente de conhecer as pessoas que estudam na UFRJ”, relata ela.

“É claro que o Brasil é um país bem longe de ser perfeito, e eu achei muito bacana ver que as pessoas estão tentando mudar o país”, diz Clémence. E, sobre sua experiência no país: “Foi uma experiência muito boa, muito impactante, conhecer outra cultura, aprender a refletir de outro jeito. Eu mudei totalmente meu ponto de vista sobre o mundo, em geral… Eu me encontrei!”, conta ela, rindo.

 



Categorias:estudantes, imigrantes, testemunhos

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