O Estrangeiro entrevistou online Dania Inayeh Gudiño. A mexicana, que vive em São Paulo, é professora de espanhol, fundadora e coordenadora do coletivo Español por SP, iniciativa composta por latino-americanas professoras do idioma. A ideia do grupo é oferecer um curso de língua e cultura para os seus alunos. Abaixo você pode conferir a entrevista, realizada por Zoom.

Screenshot da entrevista com Dania, realizada por Zoom

Um sonho brasileiro

Dania Inayeh é nascida em Damasco, Síria, mas cresceu no México. “Sabe quando você é de um lugar, mas não se sente parte de lá? Era assim que eu me sentia no México”, lembra ela. Colocou, desde criança, a migração como meta e plano de vida: “Eu queria ir e não voltar. A migração não era pra mim uma viagem, não iria viajar para voltar. Era pra ficar, lograr quedarse”, declara.

Seu tio se mudou para o Brasil quando ela ainda era criança, nos anos 1990. Dania, então, criou muita expectativa sobre o destino. “Nos anos 90, para uma criança mexicana, por haver pouca informação, o Brasil era samba, Rio de Janeiro e Amazônia, esse tipo de estereótipo”, conta Dania. 

Sonhando em conhecer a Amazônia – sonho que até hoje não realizou –, a mexicana se mudou para o Brasil com 18 anos de idade, em 2008. Seu tio tinha um visto de trabalho no país e morava em São Paulo, cidade que foi por muito tempo o centro de gravidade de Dania, que hoje vive em São Bento do Sapucaí, a 180km quilômetros da metrópole. 

Ter família no país não ajudou em sua situação jurídica no Brasil, porque na época não havia entre México e o país lusófono acordos como, por exemplo, os vigentes na região do Mercosul. Portanto, sua situação legal era delicada: se não tivesse um visto de estudante, que precisava ser renovado a cada 6 meses, poderia cair em um limbo jurídico como o vivido por muitos cubanos no Brasil hoje em dia. 

“Eu queria um visto mais permanente para trabalhar no país e encontrei barreiras, me decepcionei e pensei muitas vezes em voltar pra casa”, recorda Dania. “Era parte da minha rotina ir à Polícia Federal e me frustrar, porque às vezes faltava em minha documentação uma assinatura ou carimbo que não haviam pedido antes”, conta ela. Com relação à parte emocional dessas complicações, ela lembra: “era a sensação de ser migrante, que às vezes não é bem-vindo”.

Mulheres e migrantes: como surge o coletivo Español por SP

Ao longo de sua experiência no Brasil, Dania afirma que sempre quis viver a cultura brasileira e nunca buscou contato com comunidades mexicanas no país. Entretanto, ao longo de seu projeto migratório, notou as dificuldades que mulheres migrantes geralmente têm para encontrar oportunidades de trabalho em sociedades de acolhimento.

A mexicana, enquanto vivia em São Paulo, estudou Comunicação – Radio e Televisão, mudou para Sociologia e depois para Educação. Deu aulas de espanhol sozinha por muito tempo antes de surgir a ideia de criar um coletivo de professoras migrantes e latino-americanas. Dania estava fazendo um curso de formação para a docência em língua espanhola no Instituto Cervantes, em São Paulo, quando conheceu duas das primeiras professoras que integraram o coletivo e hoje também dão aulas no Español por SP.

“Em 2016 ou 2017 algo foi se criando, e conversávamos: ‘podemos fazer algo juntas’, ‘executar algo’”, lembra Dania. “A ideia cresceu da demanda, de pessoas interessadas nos cursos de espanhol”, conta. O coletivo partiu da ideia de juntar mulheres migrantes que têm diferentes origens culturais, nacionais e de estudo da língua espanhola, estudantes de mestrado ou doutorado, com uma formação acadêmica de qualidade e poucas oportunidades de trabalho como estrangeiras.

Cartaz de divulgação de Español por SP

Cursos decoloniais e latino-americanos ministrados por um grupo de mulheres diverso 

De cunho decolonial e com o ensino baseado em referências culturais latino-americanas, Español por SP tem material próprio. “Eu já tinha um material de base, mas é um trabalho contínuo e infinito de atualização das aulas”, explica Dania, defensora da liberdade das professoras darem aulas para além do ensino clássico da língua, que geralmente é baseado em conteúdos e exercícios engessados presentes nos livros didáticos. 

Hoje são 10 professoras dos seguintes países: México, Cuba, Peru, Argentina, Colômbia e Chile. Segundo Dania, normalmente o trabalho como professora de línguas é uma ocupação muito solitária, mas a diversidade cultural e o compromisso do coletivo das professoras do Español por SP fazem com que a rotina seja muito interessante.


Dania é coordenadora e professora do projeto. Ela atualmente dá menos aulas, porque cuida das questões administrativas do curso, assim como do Facebook e do Instagram do Español por SP.

O curso tem por volta de 50 alunos, a maioria entre 20 e 35 anos, principalmente mulheres, muitos estudando em cursos de graduação e pensando na migração para países de língua espanhola. Há, também, profissionais de diferentes áreas que têm um interesse na língua espanhola enquanto demanda relacionada ao trabalho. Segundo Dania, muitos dos alunos se sentem atraídos pelo diferencial do curso, por ser um grupo composto só de mulheres, nativas da língua espanhola, com conteúdo personalizado e próprio.

Todos são alunos e alunas brasileiros. Originários de todas as regiões do país, mas principalmente dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, há muitos brasileiros migrantes, que vivem na Europa e na Ásia. “A pandemia rompeu as fronteiras, potencializou quem está em outros países estudar com pessoas de outros lugares”, comenta Dania.

Cartaz de divulgação das Charlas Abiertas de América Latina

Charlas Abiertas de América Latina

O coletivo Español por SP também tem um projeto que ocorre aos fins de semana, chamado Charlas Abiertas de América Latina. Com o objetivo de estimular a prática informal da língua espanhola, nesse espaço, que também é aberto para quem não é aluno, são discutidos temas sócio-políticos da América Latina. Os temas são sempre selecionados a partir de um podcast em espanhol, frequentemente da Radio Ambulante. A jornalista Daniela Arcanjo Rodrigues, aluna do Español por SP e moderadora das Charlas, entra em contato com protagonistas das histórias ou pessoas hispanohablantes relacionadas aos temas discutidos. Alejandra Amiris, professora colombiana, ajuda com a curadoria dos áudios. Alicia Arteaga, cubana, cria e divulga, juntamente com Dania, as artes sobre o projeto.

Uma das reuniões das Charlas

Caso tenha te interessado participar das Charlas Abiertas de América Latina ou saber mais sobre os cursos do coletivo Español por SP, você pode entrar em contato com a Dania através das redes sociais ou do número.

João Paulo Rossini

Mestrando Erasmus Mundus MITRA: Migrations Transnationales, na Université de Lille 3